A população acompanha sem ter o que fazer um problema antigo em Franca: os moradores de rua. Mesmo com a prefeitura oferecendo vários serviços sociais e até assumindo o pagamento de alugueis, que podem variar de R$ 400 a R$ 600 para quem aceita deixar as ruas, o problema está longe de ser resolvido. Enquanto isso, os moradores da Vila Gosuen e Vila Formosa, onde estão instalados, respectivamente, a Casa de Passagem e o Centro Pop, vivem com medo e sem perspectiva de melhora a curto, médio e, até mesmo, longo prazo.
O novo Centro Pop, renomeado como Espaço Dignidade, oferece aos moradores em situação de rua alimentação, atendimento com assistentes sociais e psicólogos, preparação para inserção no mercado de trabalho, emissão de documentos, entre outros serviços. O atendimento na região sempre foi alvo de críticas pela comunidade, que, em mais de uma oportunidade, manifestou-se contra sua implantação. Apesar dos protestos, a prefeitura iniciou o atendimento no prédio da Formosa em maio deste ano.
“Moro a dois quarteirões do Centro Pop. A gente não aguenta mais. É movimento na rua toda hora. São duas ou três casas invadidas naquele pedaço. Sábado e domingo, quando o Centro Pop não abre, a gente não consegue ter paz para comer e fazer as coisas, porque eles passam, tocam a campainha e pedem toda hora. Alguns são agressivos, outros inventam historinha”, reclama Célio Antônio Gonçalves.
Outro vizinho, o educador físico Daniel Finotti, se preocupa com as brigas e confusões frequentes. “Está um inferno isso aqui. Briga toda noite, até de madrugada. Sai briga de faca. Você abre o portão e tem três cornetando e enchendo o saco pedindo as coisas. Agora, construíram um acampamento em frente ao local que distribui refeições”.
O acampamento citado por Daniel é uma barraca instalada no local que já deu o que falar. Segundo a secretária de Ação Social, Gislaine Liporoni, ela não pode fazer nada além do que está na "cartilha de boa conduta", documento com compromissos firmados pela prefeitura com o Ministério Público em 2018.
O novo Centro Pop, renomeado como Espaço Dignidade, oferece aos moradores em situação de rua alimentação, atendimento com assistentes sociais e psicólogos, preparação para inserção no mercado de trabalho, emissão de documentos, entre outros serviços. O atendimento na região sempre foi alvo de críticas pela comunidade, que, em mais de uma oportunidade, manifestou-se contra sua implantação. Apesar dos protestos, a prefeitura iniciou o atendimento no prédio da Formosa em maio deste ano.
“Moro a dois quarteirões do Centro Pop. A gente não aguenta mais. É movimento na rua toda hora. São duas ou três casas invadidas naquele pedaço. Sábado e domingo, quando o Centro Pop não abre, a gente não consegue ter paz para comer e fazer as coisas, porque eles passam, tocam a campainha e pedem toda hora. Alguns são agressivos, outros inventam historinha”, reclama Célio Antônio Gonçalves.
Outro vizinho, o educador físico Daniel Finotti, se preocupa com as brigas e confusões frequentes. “Está um inferno isso aqui. Briga toda noite, até de madrugada. Sai briga de faca. Você abre o portão e tem três cornetando e enchendo o saco pedindo as coisas. Agora, construíram um acampamento em frente ao local que distribui refeições”.
O acampamento citado por Daniel é uma barraca instalada no local que já deu o que falar. Segundo a secretária de Ação Social, Gislaine Liporoni, ela não pode fazer nada além do que está na "cartilha de boa conduta", documento com compromissos firmados pela prefeitura com o Ministério Público em 2018.
“Não posso tirar a barraca dele. Tenho um TAC (Termo de Ajuste de Conduta). Não posso colocar a mão em nenhum pertence do morador de rua”, diz Gislaine. O termo citado foi estabelecido durante a gestão do então prefeito Gilson de Souza (União Brasil).
Apesar da afirmação, Liporoni conta que o morador foi identificado e tem um longo histórico de problemas com a assistência social. “Ele se chama Maicow, possui um extenso histórico com a secretaria. Ele já foi preso e sempre deu muito problema. Armou a barraca na rua após ser suspenso por seis meses do Centro Pop. Na ocasião, ele arrumou uma briga. Agora, o único serviço (possível) para ele é o aluguel, mas é muito agressivo, faz ameaças”, disse.
Maicow continua a protagonizar problemas, inclusive, nesta última semana. “Fomos levar nossa filha ao judô. Ficamos sem chão. Montaram barracas, tinha brigas, palavrões, (gente) fumando drogas e bebendo. Estamos com medo de ficar dentro do carro esperando ela sair do treino... Passa gente pedindo dinheiro, gritando. Agora entendo o que os moradores da Vila Formosa passam”, disse, assustada, Marisa de Oliveira da Fonseca.
Conflitos entre arruaceiros são comuns, mas nem sempre a polícia consegue atuar. “Quando eles veem a polícia, param. A polícia não pode fazer nada. Não entendo qual é o agir da polícia – não estou questionando e não posso responder pelo trabalho deles. Eles chegam lá e ‘não tem ninguém mais discutindo’, conversam e vão embora. E o moço permanece”, lamenta Marisa.
Vila Gosuen
Já na Vila Gosuen, o problema é antigo. A própria secretária admite que precisou "pedir permissão" para atuar na área. “Aquele território historicamente tem crime organizado. Para você ter uma ideia, quando fui fazer a primeira reunião, precisei pedir autorização para entrar. É assim que a gente está trabalhando”, explicou.
Apesar da dificuldade encontrada, Liporoni garante que o Poder Público está no território o tempo todo. “O Cras (Centro de Referência de Assistência Social) atende lá semanalmente. Eles têm de tudo, cartão alimentação, orientação, curso para aquelas mulheres. O fundo social está lá dentro”.
De acordo com a secretária, as pessoas confundem e classificam todos como moradores de rua, indistintamente. Depois de muitas discussões, a prefeitura retirou as mais de 13 barracas que ficavam em um terreno na avenida Willian Azzuz para a construção de uma praça esportiva e de lazer. Mas mesmo com a tentativa alguns moradores de rua insistem em parmenecer em sofás na calçada e ao menos três barracas foram instaladas em outro terreno, quase em frente a secretária de obras.
A secretária afirma que a maioria recorreu ao auxílio-moradia, passando a residir, pelo menos oficialmente, junto a famíliares no Santa Terezinha. Mas o local na Vila Gosuen, por conta da dependência química de álcool e drogas, virou ponto de usuários.
“Eles não dormem em barracas. São espaços que eles usam para poder dividir as bebidas. É mais difícil tirar quem está morando do que quem está ali para isso. Aí nós vamos lá para oferecer nossa ajuda e eles falam que tem casa, que moram com as mães”, explica.
Ainda que nem todos sejam moradores de rua, quando somados os ocupantes do Gosuen aos espalhados no restante da cidade, Franca registra 519 pessoas em situação de rua, como aponta censo realizado pelo Cadastro Único em 2020. O número, comparado aos 230 moradores registrados em 2016 representa um crescimento de 122%.
Apesar de evitar apontar culpados, Gislaine Liporoni sustenta que recebeu a Secretaria numa situação completamente diferente de quando deixou o cargo em 2016, ao final da primeira gestão de Alexandre Ferreira (MDB). “Quando saímos tinha pouco mais de 200 pessoas em situação de rua. Quando voltei tinha quase 600. É muita diferença. Voltamos numa outra realidade. Não estou julgando ninguém, até porque a pandemia trouxe algumas coisas novas para todo mundo”.
Para tentar resolver o problema na Vila Gosuen, a Prefeitura iniciou em setembro a preparação do terreno ocupado por moradores de rua, na avenida Willian Azzuz, de frente a Casa de Passagem, para construção de uma área de lazer. Mesmo com as máquinas retroescavadeiras operando, alguns moradores de rua permaneceram com suas barracas no terreno durante dias. A obra, orçada em R$ 700 mil, prevê quadras de areia e basquete, além de pista de skate e outros equipamentos.
A secretaria ainda afirmou que cada morador de rua que utiliza as 48 vagas da casa de passagem representa um custo de R$ 2.767,20, por mês para a Prefeitura.
Apesar da afirmação, Liporoni conta que o morador foi identificado e tem um longo histórico de problemas com a assistência social. “Ele se chama Maicow, possui um extenso histórico com a secretaria. Ele já foi preso e sempre deu muito problema. Armou a barraca na rua após ser suspenso por seis meses do Centro Pop. Na ocasião, ele arrumou uma briga. Agora, o único serviço (possível) para ele é o aluguel, mas é muito agressivo, faz ameaças”, disse.
Maicow continua a protagonizar problemas, inclusive, nesta última semana. “Fomos levar nossa filha ao judô. Ficamos sem chão. Montaram barracas, tinha brigas, palavrões, (gente) fumando drogas e bebendo. Estamos com medo de ficar dentro do carro esperando ela sair do treino... Passa gente pedindo dinheiro, gritando. Agora entendo o que os moradores da Vila Formosa passam”, disse, assustada, Marisa de Oliveira da Fonseca.
Conflitos entre arruaceiros são comuns, mas nem sempre a polícia consegue atuar. “Quando eles veem a polícia, param. A polícia não pode fazer nada. Não entendo qual é o agir da polícia – não estou questionando e não posso responder pelo trabalho deles. Eles chegam lá e ‘não tem ninguém mais discutindo’, conversam e vão embora. E o moço permanece”, lamenta Marisa.
Vila Gosuen
Já na Vila Gosuen, o problema é antigo. A própria secretária admite que precisou "pedir permissão" para atuar na área. “Aquele território historicamente tem crime organizado. Para você ter uma ideia, quando fui fazer a primeira reunião, precisei pedir autorização para entrar. É assim que a gente está trabalhando”, explicou.
Apesar da dificuldade encontrada, Liporoni garante que o Poder Público está no território o tempo todo. “O Cras (Centro de Referência de Assistência Social) atende lá semanalmente. Eles têm de tudo, cartão alimentação, orientação, curso para aquelas mulheres. O fundo social está lá dentro”.
De acordo com a secretária, as pessoas confundem e classificam todos como moradores de rua, indistintamente. Depois de muitas discussões, a prefeitura retirou as mais de 13 barracas que ficavam em um terreno na avenida Willian Azzuz para a construção de uma praça esportiva e de lazer. Mas mesmo com a tentativa alguns moradores de rua insistem em parmenecer em sofás na calçada e ao menos três barracas foram instaladas em outro terreno, quase em frente a secretária de obras.
A secretária afirma que a maioria recorreu ao auxílio-moradia, passando a residir, pelo menos oficialmente, junto a famíliares no Santa Terezinha. Mas o local na Vila Gosuen, por conta da dependência química de álcool e drogas, virou ponto de usuários.
“Eles não dormem em barracas. São espaços que eles usam para poder dividir as bebidas. É mais difícil tirar quem está morando do que quem está ali para isso. Aí nós vamos lá para oferecer nossa ajuda e eles falam que tem casa, que moram com as mães”, explica.
Ainda que nem todos sejam moradores de rua, quando somados os ocupantes do Gosuen aos espalhados no restante da cidade, Franca registra 519 pessoas em situação de rua, como aponta censo realizado pelo Cadastro Único em 2020. O número, comparado aos 230 moradores registrados em 2016 representa um crescimento de 122%.
Apesar de evitar apontar culpados, Gislaine Liporoni sustenta que recebeu a Secretaria numa situação completamente diferente de quando deixou o cargo em 2016, ao final da primeira gestão de Alexandre Ferreira (MDB). “Quando saímos tinha pouco mais de 200 pessoas em situação de rua. Quando voltei tinha quase 600. É muita diferença. Voltamos numa outra realidade. Não estou julgando ninguém, até porque a pandemia trouxe algumas coisas novas para todo mundo”.
Para tentar resolver o problema na Vila Gosuen, a Prefeitura iniciou em setembro a preparação do terreno ocupado por moradores de rua, na avenida Willian Azzuz, de frente a Casa de Passagem, para construção de uma área de lazer. Mesmo com as máquinas retroescavadeiras operando, alguns moradores de rua permaneceram com suas barracas no terreno durante dias. A obra, orçada em R$ 700 mil, prevê quadras de areia e basquete, além de pista de skate e outros equipamentos.
A secretaria ainda afirmou que cada morador de rua que utiliza as 48 vagas da casa de passagem representa um custo de R$ 2.767,20, por mês para a Prefeitura.
Existe solução?
A prof. Dra. Fernanda de Oliveira Sarreta, do Departamento de Serviço Social da Unesp (Universidade Estadual Paulista), explica que problemas ligados a moradores em situação de rua são fenômenos históricos e complexos, que refletem uma sociedade marcada por desigualdade de classes, raças e gêneros. Este debate é mundial, não apenas municipal ou regional.
Fernanda afirma que os impactos da pandemia devem ser levados em consideração. Ainda assim, não são os principais causadores desta situação caótica vivida nas ruas de Franca. “Os impactos da pandemia na saúde são expressivos, mas o preconceito é um dos principais problemas a ser enfrentado pela sociedade”.
A professora vai na contramão do senso comum e acredita que ações como o Centro Pop são caminhos para o desenvolvimento neste setor. Segundo ela, estes espaços “são avanços e conquistas da nossa sociedade. São espaços de direitos e devem ser amplificados e fortalecidos”.
“(Precisa) compreender o que levou a pessoa a viver na rua, contribuir para conhecer suas potencialidades, histórias, sonhos e descontruir preconceitos”, insiste.
Fernanda afirma que os impactos da pandemia devem ser levados em consideração. Ainda assim, não são os principais causadores desta situação caótica vivida nas ruas de Franca. “Os impactos da pandemia na saúde são expressivos, mas o preconceito é um dos principais problemas a ser enfrentado pela sociedade”.
A professora vai na contramão do senso comum e acredita que ações como o Centro Pop são caminhos para o desenvolvimento neste setor. Segundo ela, estes espaços “são avanços e conquistas da nossa sociedade. São espaços de direitos e devem ser amplificados e fortalecidos”.
“(Precisa) compreender o que levou a pessoa a viver na rua, contribuir para conhecer suas potencialidades, histórias, sonhos e descontruir preconceitos”, insiste.
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