TIRO DE GUERRA

'Me senti no comercial de alistamento do Serviço Militar Obrigatório'

Por Pedro Baccelli | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Diogo Oliveira/Tiro de Guerra de Franca
Atiradores do TG de Franca reunidos no Parque do Trabalhador, na última sexta-feira
Atiradores do TG de Franca reunidos no Parque do Trabalhador, na última sexta-feira
Mais de 24 horas de atividades. Marcha de 10 km. Orientação através de carta topográfica, transposição de curso de água, trincheira e trilha através da mata. Sol de manhã e tempestade à noite. O "sextou" dos atiradores do Tiro de Guerra de Franca foi no Campo de Instrução realizado no Parque do Trabalhador “Papa João Paulo ll”. 
 
O sol não tinha nascido, quando 95 atiradores estavam prontos para sair – às 5h dessa última sexta-feira, dia 15. Fardados, com máscara e mochila, os militares partiram rumo ao Campo, próximo ao Parque de Exposições “Fernando Costa”. Durante o trajeto, um grupo de atiradores fechava o trânsito e os cruzamentos das ruas e avenidas para segurança da tropa. Muitas pessoas filmaram e fotografaram a cena curiosa.
 
Após hasteamento da bandeira nacional e aferição dos materiais levados, os atiradores fizeram a camuflagem e partiram para Pista de Progressão Diurna. Enquanto alguns esperavam, grupos de quatro militares rastejavam em uma trilha de barro. Individualmente, cada atirador atravessou com o auxílio de uma corda o curso de água – todos usaram colete salva-vidas e contaram com o acompanhamento de um bote do Corpo de Bombeiros de Franca. A Pista de Progressão também contou com a transposição da falsa baiana – uma corda amarrada em duas árvores por onde deveriam passar sem tocar no chão –, proteção de armas inimigas em trincheiras, tiro com arma de chumbinho e uma trilha no interior da mata. 
 
As atividades simulavam táticas e deslocamentos individuais utilizados em conflitos. “Eu realmente me senti no comercial de alistamento do Serviço Militar Obrigatório”, conta o atirador Lucas Bolela, de 19 anos. 
 
Suado, com mosquitos rondando, camuflagem saindo, coturno encharcado, farda molhada e com terra. Assim estavam os 95 atiradores. O sonhado banho chegou através da mangueira do caminhão do Corpo de Bombeiros, que atingia pelotão por pelotão. 
 
Depois de “traçarem” suas marmitas, os jovens buscaram o sol para deixar os coturnos secando e a sombra para cochilar. 
 
A tranquilidade durou pouco. Os atiradores foram divididos em dez patrulhas. Uma bússola e uma carta topográfica. Estes foram os materiais recebidos para encontrar 14 pontos espalhados pelo Parque do Trabalhador. Ao final do exercício, 21 mil passos foram contabilizados num contador. A higiene pessoal foi realizada e o jantar oferecido. 
 
As lanternas iluminavam as trilhas na última missão do dia: encontrar sete informantes no Parque. “Foi extremamente desgastante, utilizando a camuflagem noturna, lanternas apontavam para todos os lados. Rojões estouravam no percurso.” Voltando ao ponto de partida, os pelotões tiveram instrução de nós e amarrações.
 
As camas deram lugar ao chão de cimento batido. As lonas substituíram os cobertores. A história de guerra virou uma passagem bíblica. Os atiradores estavam prestes a conhecer o dilúvio. “Junto a trovoadas e muita ventania era possível ver lonas e colchões voando e se perdendo, aqueles que já não conseguiam mais dormir gritavam e conversavam entre si”, relembra Bolela. 
 
“Com a farda e os materiais molhados, vimos o quão importante é o nosso lar e o valor que devemos dar em nossa vida.” O grupo foi levado ao estacionamento da Secretaria Municipal de Infraestrutura, que fica dentro do Parque, onde ficou alojado. 
 
Às 5h desse último sábado, 16, os atiradores levantaram para arrumar os estragos causados pela tempestade. Com o fuzil nas mãos e a mochila pesando cinco vezes mais por causa da chuva, a tropa finalmente saiu do Parque do Trabalhador rumo ao Tiro de Guerra de Franca.
 
Assim como na ida, os militares cortaram as avenidas Dr. Flávio Rocha, Hélio Palermo e Presidente Vargas – escoltados pela Guarda Municipal. Alguns tentavam se distrair das dores conversando. Outros estavam concentrados para conseguirem chegar ao TG. 
 
Marchando e cantando a Canção do Exército, os atiradores entraram no ginásio do Tiro de Guerra e foram aplaudidos pelos familiares. Após discurso do subtenente H. Sousa, os atiradores finalmente puderam comemorar: “Conseguimos”. 
 
Além das fotos, cada atirador carrega na lembrança os desafios enfrentados: 
 
“Com toda certeza, a partir desse momento, nos tornamos pessoas mais fortes e resistentes. Superamos nossos limites e vivemos circunstâncias fora da nossa realidade, de extrema pressão e desgaste físico. Essa jornada vai servir de inspiração para o futuro. Naquele momento em que pensar em desistir, lembrarei de tudo que se passou nesse dia e verei que sou capaz de superar esse novo desafio. Essa experiência, espero que única, ficará marcada para sempre na minha vida”, afirmou Bolela. 

“A experiência é algo praticamente inexplicável, a sensação de estar numa simulação de uma situação de guerra é surreal. Você se sente responsável por ajudar ao máximo seu grupo de combate a alcançar os objetivos das missões e a sensação de conquista é incrível. Mas te leva ao limite do seu esforço físico. Cheguei em casa destruído, tanto fisicamente, quanto psicologicamente. A experiência é para vida toda”, explica o atirador Vinicius Delgado, de 19 anos.
 
“É uma experiência muito complicada de se descrever. Para muitos, é como um inferno, mas vejo como uma experiência que poucos tiveram e me orgulho se fazer parte”, conta o atirador Victor Hugo Braga, de 19 anos.
 
“O campo foi uma experiência única que o TG proporcionou para nós. A operação simulando as dificuldades das missões que o exército passa, sinceramente, não foi nada fácil. O cansaço, fome, sede e frio são coisas comuns nessas operações e tivemos a honra de vivenciar graças ao TG e aos subtenentes H. Sousa e Rogério Soares”, disse Matheus Chagas, de 19 anos, conhecido popularmente como atirador 76.
 
“Nunca mais na minha vida vou dar tanto valor na minha casa, num teto, numa cama e uma comida. Através do campo, aprendi que a gente não pode ter tudo na vida, mas que a gente tem que dar valor em tudo que temos”, ressalva Murilo Henrique Pereira, de 20 anos.
 
15 de outubro de 2021, o dia que a cobra fumou para 95 atiradores do Tiro de Guerra de Franca.

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