Ainda que parecesse uma realidade tão distante, os moradores de Franca sentiram na pele como foi ficar sem água. Casas, indústrias, comércios e estabelecimentos tiveram que criar uma nova rotina e se adaptar ao rodízio que foi adotado. A medida impactou todo mundo – e depois do racionamento, muitas pessoas fizeram da economia forçada, um hábito.
Silvinha Moisés Pinto, de 47 anos, é moradora do residencial Copacabana. No apartamento onde vivem ela e seu três filhos, muita coisa mudou depois do racionamento. “Antes a gente tinha o hábito de pegar água nova para lavar a escada. Depois de tudo que passamos com a falta d’água, agora pegamos a água que sai da máquina, com sabão, para poder limpar”, disse.
Para cuidar do jardim, a mesma coisa. Silvinha aproveita a água que sobra na hora de cozinhar para regar as plantas. “Durante esse tempo a gente teve que abrir mão de muita coisa. Eu cheguei a usar a água da máquina de lavar para conseguir tomar banho, então agora usamos a água de outra maneira. Tudo o que eu economizei nesses dias eu ainda mantenho, mesmo com o abastecimento retomado”.
É de extrema importância que, mesmo com as chuvas, a economia de água se torne um hábito. Em uma casa como a da Silvinha, onde moram quatro pessoas, são gastos cerca de cinco mil litros de água por mês. Cada atividade demanda uma quantidade muito grande e que pode ser diminuída conforme a consciência de cada um.
Um banho de dez minutos, por exemplo, gasta, pelo menos, 80 litros de água. Escovar os dentes sem fechar a torneira, 12 litros. Lavar a louça com a torneira meio aberta durante 15 minutos consome 117 litros. Tudo isso pode ser reduzido quase que pela metade se usado conscientemente, com a torneira ou chuveiro fechados enquanto for desnecessário.
Marisa Koller, de 57 anos é cozinheira de um restaurante e viveu um verdadeiro pesadelo durante o racionamento. Tanto em casa, quanto no trabalho, ela precisou se organizar conforme o cronograma da Sabesp. Apesar dos dias difíceis, agora ela leva consigo uma lição. “Nesse período eu aprendi mais do que nunca a dar valor na água. A gente era acostumado com água fácil na torneira, no chuveiro, no bebedouro... Hoje, mesmo sem o rodízio, eu não consigo ver que a água está sendo desperdiçada e não fazer nada. Saio fechando as torneiras por aí”, contou.
A começar por ações como lavar calçada, quintal ou banheiro, que podem ser repensados. No exterior quase não se faz esse tipo de limpeza nas casas. Maísa Nogueira de Oliveira, de 33 anos, nascida em Franca, é gerente administrativa e vive em Londres, na Inglaterra.
Maísa conta que, mesmo trabalhando em uma empresa de limpeza, não existe o costume de usar tanta água assim. “Aqui não se usa mangueira, é um consumo bem consciente. É pouca água e um balde ou esfregão. Os banheiros não têm nem ralo, só dentro do box mesmo, para o banho, então não jogamos água em nada”, disse.
Katiucia Capel, de 38 anos, é professora e também mora fora. A francana se mudou para a Suíça há 13 anos e nunca passou por um racionamento. Apesar disso, no país também existe um consumo mais moderado da água, a começar pelos banhos. “Aqui é normal encontrar pessoas que tomam banho apenas três vezes por semana, principalmente no inverno. Eu não me acostumei a isso”, brinca Katiucia.
Assim como relatou Maísa, Katiucia disse que não existe na Suíça o costume de lavar as casas. “Não tem ralo. É pouquíssima água que gastamos na limpeza. Não existe essa história de lavar calçada, garagem. Aliás, quase não tem garagem. Não temos nenhuma restrição quanto ao consumo, mas tenho a impressão de que existe uma consciência coletiva aqui muito grande”.
O superintende da Sabesp, Gilson Mendonça, se admirou com a consciência que o francano teve durante os 40 dias, mas ainda assim, ressaltou a importância de manter os hábitos. "Usar a água de forma econômica é a mais clara demonstração de consciência ecológica e responsabilidade socioambiental. E foi essa consciência e uso responsável da água pelo francano que contribuiu intensamente para que todos nós superássemos o rigoroso período de estiagem que atravessamos. Felizmente estamos com a cidade plenamente abastecida, porém é fundamental que nossa gente continue utilizando a água com a mesma consciência daqueles dias difíceis", falou Gilson.
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