ANIVERSÁRIO

Os 95 anos da 'Tia Luiza' - e o que tive o privilégio de aprender com ela

Por Kaique Castro | da Redação
| Tempo de leitura: 11 min
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 Luiza Trajano Donato, a fundadora do Magazine Luiza, completa hoje 95 anos
Luiza Trajano Donato, a fundadora do Magazine Luiza, completa hoje 95 anos

Nesta segunda-feira, 20, Luiza Trajano Donato, fundadora do Magazine Luiza, uma das maiores empresas do Brasil, completa 95 anos. Empreendedora nata, foi casada por 63 anos com Pelegrino José Donato, que morreu em dezembro de 2018. 

Muitos conhecem sua história marcada por muito trabalho desde cedo. Ganhou impulso com a compra da pequena loja “A Cristaleira”, em 1957, quando Luiza tinha 31 anos, transformada em Magazine Luiza depois de um concurso de rádio e hoje uma empresa com valor de mercado de mais de R$ 176 bilhões. Mas, o que um número menor de pessoas teve a sorte de experimentar foi como era trabalhar diretamente com “Dona Luiza”, no Magazine. Fui um destes privilegiados.

Era agosto de 2010 e tinha sido contratado para ser Menor Aprendiz no Magazine Luiza do Centro de Franca, a mítica loja 1. Ainda não tinha completado 17 anos e nem de longe me passava pela cabeça a ideia de ser jornalista profissional, carreira que abraçaria anos depois. Na verdade, naquela época, não tinha a menor ideia nem mesmo sobre o que faria depois de terminar o ensino médio.

Já havia trabalhado como churrasqueiro, vendedor de bombom, antenista e balconista, sempre no mercado informal. A contratação pelo Magazine Luiza foi minha primeira experiência com “carteira assinada”.

Me lembro muito bem do primeiro dia. Éramos três aprendizes que começariam naquele dia. Participamos do rito, uma dinâmica da empresa que acontece todas as segundas-feiras, para aproximar os funcionários. Neste dia também é cantando o hino da empresa. “ML quer dizer minha luta e também meu lar”, diz uma das estrofes. 

Os dias foram passando e fui sendo apresentado a várias funções na empresa. Fazia parte da condição de aprendiz passar por diferentes setores da loja. Aos poucos, comecei a ouvir algumas histórias da dona e fundadora da empresa, uma referência para os mais antigos e verdadeira lenda para os novatos.

Na época, o Magazine ainda não tinha lançado ações na Bolsa de Valores. Todos sabiam que a sobrinha, Luiza Helena, era a grande comandante, que Wagner Garcia (morto prematuramente em julho de 2011, aos 60 anos), também sobrinho, era um acionista importante, mas ninguém tinha a menor dúvida de que a dona era a “Tia Luiza”.

Os funcionários antigos gostavam de ‘amedrontar’ os mais novos com ‘histórias’ da Tia Luiza. Diziam que era muito detalhista, às vezes impaciente, e que morava numa casa ao lado, com uma passagem que permitia a ela entrar direto na loja. Todo dia falavam que ela iria aparecer na loja, que iria verificar o uniforme, e que até a tabuada iria nos perguntar. Quem não ficaria preocupado? Aos 16 anos, morria de medo. 

Dois meses após entrar na empresa, era outubro, época do Dia das Crianças. Estava aprendendo sobre o funcionamento do depósito da loja e também a expedição. As áreas eram comandadas por duas pessoas da confiança da dona Luiza. Maria Eunice Borges, chefe do depósito, e Hermínio Nascimento, da expedição, eram generosos e passavam o conhecimento e o amor que tinham pela loja para aqueles que estavam chegando, como eu.

Hermínio me chamou, junto com um outro colega aprendiz, e deu um recado direto. “Não se atrasem amanhã. A dona Luiza vai vir para loja. Uniformes impecáveis”, avisou. Meu coração gelou. “Nossa, e agora?”, pensei comigo mesmo. Cheguei em casa e compartilhei com meu pai a dose de nervosismo que me consumia. “Pai, vou conhecer a dona Luiza. E se ela ‘danar’ comigo? E se ela me mandar embora?”

Meu pai, muito tranquilo, me acalmou. Disse que tudo daria certo, que meu tio já tinha trabalhado lá e que as referências eram as melhores possíveis. Insistiu para que eu falasse para ela sobre meu tio. 

Aquele dia foi como o primeiro. Não dormi direito, fiquei com dor de estômago e tudo mais que costuma acompanhar altas doses de ansiedade. Acordei cedo, peguei o ônibus e fui trabalhar. 

Cheguei no horário de sempre, 7h50, e falei para meu amigo Jean, que também ficava no depósito. “Ela deve chegar umas 10 horas, né?”. Ele, inocente como eu, concordou. “No mínimo”. Erramos.

Fomos para a reunião matinal e a loja foi aberta às 9 horas. Quando subimos para o depósito, ela já estava lá, junto com a Eunice. Foi um susto.

Ela perguntou quem éramos, quis saber o nome de nossos pais, o que fazíamos. De repente, sapecou. “Não gostei de como está a estrutura do depósito. Vamos mudar.”

“Como assim, mudar?”, pensei no mesmo momento. Parecia tudo perfeito para mim. Localizávamos os produtos, cabia tudo, estava limpo e organizado. Mudar para que?

Ela queria e ponto. Não era uma mudança simples. Havia muitos produtos. Além de todos os itens pequenos da loja e do estoque de roupas, havia ainda prateleiras e mais prateleiras com aparelhos de jantar, chapinhas e brinquedos. Uma infinidade de coisas. Também ficavam ali materiais de consumo da loja, como bobinas de papéis, embalagens de presente, folhas de sulfite, e tudo o mais que era necessário para a operação da matriz.

“Vamos lá, vamos mudar, dona Luiza”, assentiu Eunice, a chefe do setor. Para mim, tudo parecia sem sentido nenhum. O que aquilo tudo iria melhorar? Só conseguia ver o trabalho que esperava por nós. E teríamos que conciliar tudo com a rotina normal da loja, do entra e sai de produtos que não podia parar.

Começamos imediatamente a fazer as mudanças que a dona Luiza queria. O tempo correu rápido e logo o relógio marcava 12h20, quanto tínhamos que sair... mais cedo do que o normal. Aprendizes tinham cursos às segundas, quartas e sextas-feiras. Nos despedimos dos colegas e, quando descemos o elevador e abrimos o armário para ir embora, dona Luiza, que retornava do almoço, virou-se para nós. “Onde vocês estão indo? ”, quis saber. “Para o curso, Dona Luiza”, respondemos.  “Como assim. Curso?”, disse, incrédula. 

Ela chamou o Hermínio na hora. Ele bem que tentou explicar que era uma exigência da legislação, que tínhamos que comparecer àquelas atividades, mas seu desconforto era evidente. Na cabeça dela, não fazia muito sentido abandonar o barco no meio da jornada. Ela já tinha 85 anos e um profundo senso de responsabilidade e ética de trabalho. Parar no meio do dia era incompreensível. Olhando em retrospecto, entendo perfeitamente seu desapontamento.

Fomos para o curso, mas minha cabeça já estava no dia seguinte, quando ficaríamos o turno inteiro na loja. Receberíamos também mercadorias, que movíamos de um lado para o outro. Como o uniforme tradicional era branco, acabávamos nestes dias optamos por uma camiseta mais escura, que disfarçava melhor uma ou outra sujeira inevitável.

Chegamos na loja às 7 horas. Como todo o dia de “caminhão”, como era chamado o recebimento de mercadoria, o depósito estava cheio de produtos fora do lugar e simplesmente não sabíamos onde guardá-los por conta das mudanças determinadas por dona Luiza. Ela chegou às 9 horas e subiu direto para o depósito. 

Nunca é demais lembrar que ela já tinha 85 anos nesta época. Mesmo assim, não demonstrava cansaço nem tinha dúvida do que queria. Ela nos orientou sobre como fazer e descarregamos o caminhão. Em um dia, conseguimos organizar o depósito e deixamos praticamente do jeito que ela havia determinado. 

Não foi um processo fácil. Ela distribuiu várias broncas na equipe de aprendizes. Perfeccionista, queria tudo exatamente como havia imaginado. Lembro de sair exausto naquele dia, ainda sem entender o propósito daquilo tudo. “Para que mudar o depósito?”, me perguntava. Inexperiente e imaturo, eu não entendia qual o propósito de tanto esforço. 

No outro dia, havia o curso, o que significa que teríamos que sair no meio do expediente. Já fui com medo. Ela, muito pontual como sempre, chegou e disse que ia colocar uma geladeira e um bebedouro no depósito. E perguntou se a gente ia embora mais cedo. Respondemos afirmativamente. Ela fez uma ligação na mesma hora. Pelo que entendemos, queria que fôssemos substituídos, porque era muito pouco tempo para muito trabalho que precisava ser feito. Alguma alma abençoada a convenceu de que valíamos a pena, que era uma exigência da lei, e assim mantivemos nossos empregos. O rearranjo do depósito foi concluído.

Quando enfim finalizamos, tivemos, eu e meus colegas aprendizes, uma espécie de catarse. Olhamos uns para os outros e ficamos atônitos. Como não tínhamos pensado naquilo antes? Como, em um olhar, ela viu todos os problemas que tínhamos naquele espaço, muitos deles sem que sequer soubéssemos. E, mais impressionante, como ela conseguiu solucionar tudo aquilo com um olhar. Um único olhar.

A estrutura que ela modificou facilitou enormemente a forma como armazenávamos os produtos maiores e deixou muito mais racional o deslocamento entre as prateleiras. Tudo estava tão mais prático, tão mais lógico. Naquele instante, entendi também porque ela tinha tanta pressa em terminar, porque nossas ausências no meio do expediente para os cursos pareciam sem sentido para ela. Havia um problema, ela tinha a solução e só dependia da gente resolver. 

Naquele dia, me senti realizado. Também senti muito orgulho de trabalhar para ela. Quando chegou o horário de irmos embora para o curso, me despedi dela e aproveitei que ela estava contente com o depósito reorganizado para contar sobre meu tio, que havia trabalho com ela. Dona Luiza se lembrou, disse que gostava muito dele e me liberou – desta vez, sem reclamar. 

Como o depósito ficava no terceiro andar da loja, usávamos o elevador para descer ao térreo. Quando a porta abriu e eu entrava no elevador, ouvi Dona Luiza me chamar. “Kaiiiqueeee, volta aqui”, gritou. Fiquei desesperado. “Ela vai me mandar embora”, pensei.

Quando entrei no depósito, ela olhou bem nos meus olhos e disparou. “Quanto é quatro vezes quatro?”. 

Não tenho certeza de quantas perguntas ela me fez. Durante a chamada oral, só pensava na dica que um funcionário veterano havia passado para quando eu enfrentasse aquele desafio: “Ela sempre finaliza com sete vezes oito. Não se esqueça”, havia me preparado o colega caridoso. Para mim, que nunca fui bom em matemática, o conselho havia sido providencial. Quando chegou à última pergunta, a dona Luiza mandou ver. “Quanto é sete vezes oito?”. Respondi de pronto. “56, dona Luiza”.

Lembro muito bem do rosto dela, sorrindo. “Danado. Acertou tudo. Estava doida pra te mandar embora”, disse ela, em tom de brincadeira. 

A partir dali, passei a sentir uma admiração enorme por ela. Apreendi ali, em poucos dias, o porquê de ela ter construído tudo aquilo. É claro que sua sobrinha Luiza Helena e os seus sucessores têm muitos méritos, mas se não fosse essa mulher se arriscar, nada teria sido possível. 

Dona Luiza ficou trabalhando na loja por mais dois meses, até praticamente às vésperas do Natal. Nesse período, vendi cocos, ovos e até flores de seu sítio. Dona Luiza é uma grande empresária, mas antes de tudo é uma comerciante, uma vendedora, que tem paixão pelo que faz. Não importa se são 6 cocos, uma dúzia de ovos ou uma carriola de flores. Tudo tem valor, o trabalho é fundamental e o propósito tem que existir em cada pequena atividade. 

Pude ver de perto também sua preocupação com os clientes. Cada um deles tinha que sair satisfeito da loja. Estávamos ali para realizar os sonhos de muitas pessoas, que trabalharam muito para comprar determinado produto. E uma coisa que dona Luiza jamais admitiria era que frustrássemos essa expectativa.

Muitas vezes, enquanto estávamos correndo para arrumar as coisas no depósito, sob sua supervisão e atenção, tínhamos que parar para que ela pudesse atender, conversar e vender para clientes que a abordavam. Não era pelo dinheiro, evidentemente. Era, sobretudo, por atender a expectativa de quem estava ali. Era dona Luiza, na sua essência.

Luciano Marques, que carrega o peso e a responsabilidade de gerenciar a loja 1, justamente a que divide parede com a casa da fundadora, também tem muitas histórias com dona Luiza. No começo, também enfrentou uns perrengues com jeito direto da fundadora.

"Quando vim para Franca, fui na casa dela. Já estava preparado para a tabuada, mas estava muito nervoso. Ela me viu e me achou muito novo para a loja. Tive que convencê-la de que estava pronto para o desafio”, lembra. “Minha barba foi outro desafio. Ela não gostava (risos). Mas mostrei pra ela, 'olha, dona Luiza, como minha barba tá bem feitinha. Está em um padrão'”, recorda. Apesar do esforço, ela não escondeu que não gostava da ideia, mas acabou se acostumando. O que não significa dizer que tenha se conformado. “(Até hoje) toda vez que ela me vê, ela fala (da barba)", conta.

Hoje, dona Luiza não tem a mesma disposição de antes, mas ainda segue visitando a loja em sua cadeira de rodas sempre que a saúde permite. Não que faça turismo por ali. Quando entra na matriz, quer saber como andam os negócios. “Marques, como estão as vendas?’ Tá tudo certo?”, conta o gerente. Empreendedora desde sempre, “tia Luiza” não perde o olhar de dona – nunca. Nem mesmo quando se aproxima de um século de vida.


 

   

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