BASTIDORES DO RACIONAMENTO

Do rio às torneiras: entenda como funciona a produção e distribuição da água que chega até você

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Dirceu Garcia/GCN
Agentes em uma das manobras para desligar a água dos bairros durante racionamento
Agentes em uma das manobras para desligar a água dos bairros durante racionamento

A crise hídrica fez com que os francanos tivessem que reorganizar toda a sua rotina. Adiar o dia de lavar roupa, deixar a comida já preparada ou até monitorar o tempo no banho são hábitos que se tornaram comuns a uma parcela dos moradores desde o dia 2 de setembro. Em pouco mais de duas semanas de racionamento, a economia de água girou em torno de 15% a 20% por dia na cidade. Com a mudança nos blocos, esse número deve aumentar para algo próximo a 30%. Mas você sabe como funciona o trabalho de quem liga e desliga as torneiras?

É em uma sala no Jardim Redentor, na sede da Sabesp Franca, que uma parte dos comandos acontece. O CCO (Centro de Controle Operacional) funciona 24 horas por dia e é responsável por controlar as válvulas e liberar os litros de água para as casas. São quatro técnicos trabalhando no setor e que conseguem, apenas com um clique, fazer com que uma região fique com ou sem abastecimento.


Luiz Alexandre Ferreira, técnico de sistema de saneamento

No entanto, isso só funciona com as válvulas automatizadas – que representam a maioria na cidade. Automatizar 100% delas geraria um investimento alto e desnecessário, já que este modelo seria útil apenas no período de racionamento. Para complementar o trabalho que começa na CCO, equipes de funcionários vão até às ruas todas as noites para ligar e desligar a água dos bairros.

Cinco agentes são responsáveis pelo trabalho externo. São duas equipes de dois homens que abrem ou fecham as válvulas não automatizadas durante o período da noite e outro faz um “pente-fino” no que restou durante o dia. Lázaro Donizete de Andrade, de 48 anos, é agente de saneamento ambiental e um dos responsáveis pelas manobras.

“Aqui nós fechamos o setor da baixa do Santa Cruz, que é a zona de abastecimento. Esse registro fecha toda a zona baixa e aí o bairro fica sem água. Mais ou menos amanhã à noite, a gente começa a abrir esses registros de novo para que a água volte no outro dia”, disse na última quinta-feira, 16, durante a operação.


Agentes em manobra para desligar água na região do bairro Santa Cruz

Mas antes que a água chegue – ou não chegue – às torneiras, muita coisa já aconteceu. Tudo começa com a captação, que hoje é feita no Rio Canoas, Ribeirão Pouso Alegre e, excepcionalmente neste período de seca, também no Ribeirão São João, como forma de captação auxiliar.

A captação acontece no setor de Produção e Manutenção da Sabesp. Assim como no CCO, o sistema é automatizado e os engenheiros podem o operar desde a sede da companhia, levando, com a ajuda de duas a três bombas, a água até a ETA (Estação de Tratamento de Água). No total, cerca de 85 milhões de litros de água são produzidos diariamente.

O trabalho das equipes no setor, então, é levar com qualidade a água, desde os mananciais até a ETA. No Rio Canoas, são cerca 15 quilômetros de distância e 400 metros de desnível, desde a captação até a rede. No Ribeirão Pouso Alegre, esse número é um pouco menor: 12 quilômetros e 300 metros de altura.


Arley Ribeiro Duarte, engenheiro do setor de Produção e Manutenção

Na ETA chega toda a “água bruta” dos rios e começa as etapas de tratamento. Logo no início do processo, é medida a vazão, que calcula quantos litros por segundo na produção. Apenas o Rio Canoas oferece 750 litros por segundo – quase três milhões de litros de água por hora.


Água bruta do Rio Canoas, Ribeirão Pouso Alegre e Ribeirão São João

A partir disso, a água passa por decantadores, que funcionam como filtros, onde as partículas mais pesadas se afundam e é captada somente a água da superfície. Assim que sai pelo último decantador, a água cai dentro de uma outra caixa, onde se corrige o cloro e o PH. Cumpridas essas etapas, é liberada para os reservatórios e vai para a casa dos francanos.


Estação de Tratamento de Água

Apesar do tratamento já feito durante e ETA, o laboratório monitora 24 horas por dia a qualidade da água. Todos os parâmetros físico-químicos, como cloro, flúor e turbidez e PH da água são avaliados nesta etapa, já que os equipamentos estão ligados dentro do processo e trazem ao laboratório a amostragem em cada um dos aspectos.

As análises são feitas frequentemente. A de cloro, por exemplo, é realizada a cada dois minutos. São mais de cinco mil análises por mês e, além deste trabalho, alguns funcionários, chamados de coletores, vão até às casas para ver se a água que chegou tem a mesma qualidade da que saiu da estação. De acordo com os técnicos, o setor passa meses e até anos sem ter uma anomalia sequer.


Adriano Henrique Carrijo, técnico do laboratório

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