Uma professora de linguística elencou há cinco anos, em alentado trabalho acadêmico, as dez palavras mais ditas pelo falante do português: “ coisa, casa, tempo, ano, dia, vez, homem, senhor, senhora, moço/moça. Desconfio de que elas nasceram com a fundação do Condado Portucalense, semente geográfica plantada por Vímara Peres no século IX, na região que hoje é a cidade do Porto, e crescendo tornou-se independente em 1139, por obra e graça de Afonso Henriques. Esse príncipe teve assim seu nome ligado umbilicalmente à formação de Portugal.
Às palavras acima poderíamos chamar prosaicas. Na mesma pesquisa, as poderosas, que se definem por evocar a grandeza da vida e a complexidade da condição humana, compreendem “humanização, metamorfose, gratidão, natureza, apogeu, comunicação, pertencimento, fecundação, possibilidade, plenitude.” As mais belas? “Esperança, fé, alegria, felicidade, amor, paz, luz, saúde, sorriso, verdade” - não por acaso aquelas às quais recorremos quando enviamos mensagens para desejar a alguém o que há de melhor no mundo. Uma curiosidade: dentre os advérbios, indicadores de circunstâncias, o “não” ocupa o primeiro lugar e o “sim” não aparece listado entre os dez mais usados, ficando atrás de “mais, muito, já, quando, mesmo, depois, ainda, menos.”
Se algum instituto especializado em linguagem fizesse hoje uma pesquisa para apurar a lista das palavras mais usadas nos últimos vinte meses pelos brasileiros, acho que encontraria “medo, pandemia, dor, coronavirus, lockdown, vacina, negativismo, morte, raiva, covid.” São termos tristes do idioma. O primeiro é antiquíssimo; o último, novinho, não tem dois anos. Assim é a língua. Como a vida, fenômeno dinâmico. O idioma mantém palavras que são de uso constante; registra a transformação ocasionada pelos chamados fenômenos linguísticos; acolhe as que surgem por conta da necessidade de nomear o que passa a existir; coloca no nicho das obsoletas as que deixam de ser empregadas: alguém já ouviu a palavra “espiriteira” nesse século?
Somos homo loquens. A cada ano a Academia Brasileira de Letras inclui novos termos no dicionário oficial. São aqueles impostos pela vivência diária que os transforma ao longo do tempo; ou os oriundos de áreas do conhecimento enriquecidas por aquisições e mudanças. A última adição promovida pelos acadêmicos bate nos mil. Do mundo empresarial chegam, entre tantos, “compliance”, “coworking”; do universo político, “fake news”; da área digital, “live, podcast, webnário”; do segmento das finanças, “criptomoeda”. A psicologia contribui com vários, entre eles “resiliência” e “ressignificar’’; a arquitetura adicionou “gentrificação”; o movimento feminista, “sororidade”; a nutrição trouxe o vegano; a filosofia cravou o “pós-verdade”. Etc.
O léxico da nossa língua é sem dúvida rico: na última edição, o Houaiss contabilizou cerca de 400 mil palavras. Quanto à oralidade do português do Brasil, influenciada por timbres indígenas e africanos, ela decorre também da sintaxe que confere à frase ritmos singulares, considerados suaves e eufônicos por ouvidos estrangeiros. No mundo dos verbetes, onde o poeta aconselhou a entrar mansamente, existe até um que afirmam ser único, “saudade.” Sua tradução para outro idioma não encontra exata correspondência.
O inverso é verdadeiro. Passando os olhos por outras línguas (que não a inglesa, tão presente no nosso cotidiano), podemos encontrar vocábulos que nos fazem falta. Um deles está no dinamarquês “hygge”. Não é aconchego, conforto, paz, satisfação ou bem-estar. É a soma de tudo isso e significa “valorizar os pequenos prazeres da vida”. Os alemães dizem “wanderlust”, para expressar desejo profundo por viajar e se extasiar com o mundo. Em lugar de verbalizar como nós ”Ah, nunca imaginei que tudo pudesse acabar bem!”, um holandês dirá apenas: “Tafalle!” Na Noruega, “a delícia de saborear um chopp ao ar livre num dia de sol” é sintetizado em”Utepils”. Mas o máximo da concisão está no sueco “Gokotta”, cuja equivalência em português ultrapassa uma dúzia de palavras: “acordar cedinho para fazer um piquenique e apreciar o nascer do sol e a natureza”. Há muitas outras do gênero, ou seja, intraduzíveis.
Se me fosse permitido escolher uma palavra estrangeira para entrar no nosso idioma, seria a japonesa “Wabi-Sabi”. Ela traduz uma forma de pensar ligada à busca por conexão com o autêntico e a natureza, reconhecendo três realidades essenciais: nada dura, nada é completo, nada é perfeito.Então, nosso foco deve estar noprocesso e não no produto final; nosso olhar na jornada e não na chegada; nossa atenção no instante e não no futuro.
Banhada pela filosofia oriental, Wabi (simplicidade)-Sabi ( beleza do desgaste do tempo) sugere que devemos encontrar beleza na imperfeição e aceitar a impermanência da vida. Mas penso neste momento que antes da palavra precisaríamos desenvolver a condição de acolhê-la.
Voltarei ao tema.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.