Das palavras que falamos, metade nos pertence; outra metade é de quem as ouve. A frase é atribuída a La Boétie, amigo do peito de Montaigne. Vale também para o que escrevemos, claro.
Ao ler o título acima, alguns leitores deste espaço, que é dedicado às letras, podem pensar no mais conhecido livro do gaúcho Érico Veríssimo. A narrativa mostra o protagonista diante de uma escolha que definirá sua vida: entre afetos e finanças, ele opta pela segunda e se dá mal. Entretanto, minha intenção não foi resgatar o romance e sim a fonte onde o escritor bebeu, os Evangelhos de Mateus e Lucas, únicos que registram o discurso de Jesus onde se encontra a frase imperativa: “Olhai os lírios do campo”. Ela integra o “Sermão da Montanha.”
Este sermão, que considero aqui também no seu aspecto literário, é mesmo uma joia. Percebido pelos seguidores de Cristo como uma epifania, na verdade ecoava antigos ensinamentos dos profetas Isaías e Jeremias. Jesus Cristo, o Salvador, conclamava os judeus que o ouviam a reorientarem suas vidas de acordo com uma cosmovisão generosa, acolhedora, otimista, fraterna, transcendente.
Não se pode esquecer que no contexto em que o Sermão da Montanha se fundou, os discursos visavam mais ao ouvido que ao olho, porque só a elite sabia ler. Assim, a fala de Jesus tinha o intuito de ser facilmente memorizada. Por isso a estrutura temática se constrói com palavras claras, imagens vívidas, paralelismos, plasticidade, metáforas potentes, linguagem poética. Registro um trecho:
“Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles.”
Voltei recentemente a pensar nessas palavras por conta de uma descoberta no meu jardim.Tenho ali plantados dois arbustos chamados “rosa-do-deserto”. O cor-de-rosa rompeu as barreiras do vaso. O vermelho ainda não. Ambos foram presentes de minha nora Milena, pessoa muito atenta à natureza. Há um mês, saindo de minha casa, ela viu uma vagem longa entre as flores e me perguntou o que seria. Eu não sabia. Ela observou: “Acho que são sementes”.
Acompanhei curiosa a tal vagem, imaginando que logo ela se abriria e eu iria encontrar bolinhas do tamanho de ervilhas. O tempo passou e no começo desta semana ela se abriu expondo algo magnífico. Eram sementes, sim. Mas mínimas, do tamanho de um grão de arroz com casca. E tinha franjas. Leves, delicadas e bonitas, me despertaram emoções e pensamentos. Especialmente quando a luz incidiu sobre elas e suas fímbrias finíssimas brilharam como fios de ouro. Eram joias vegetais.
Que balança as pesaria, senão a dos ourives? Como era possível que dali se originasse um arbusto de tronco grosso, folhas fortes e flores grandes de colorido vibrante? Se sua origem era o deserto, será que voariam até chegar a um lugar aleatório, onde se fixariam na areia? Então as fotografei, para fixar aquele minuto de beleza e mostrá-las aos leitores. “Deus está presente nos detalhes”. Nítida e plena, a frase de Guimarães Rosa se impôs e com ela algumas reflexões.
Humanos, vivemos momentos difíceis desde o final do século passado. Na natureza, total desconsideração pelas florestas, rios, mares, pela própria terra, humus do qual viemos e ao qual retornaremos. Na política, polarizações, desconstruções, autoritarismos, ameaças, fake news medonhas. No relacionamento social, desequilíbrios, exclusões, indiferenças, preconceitos, violências. Na economia, o avassalador apetite do mercado, o voraz consumismo, o caráter descartável da mercadoria que acaba refletindo o da vida. É o tempo da Pós-Verdade? A História é mesmo cíclica, como nos ensinam os acadêmicos? Nesse caos, onde colocar as sementes, as aves do céu, os lírios do campo?
Não sei a resposta, mas acho que nunca é tarde para olhar para cima, para baixo, principalmente para dentro. Nós, humanos, precisamos perder nossa arrogância e nossa ridícula pretensão ao poder. Somos uns pobres diabos a quem as Fúrias podem atingir a qualquer momento. Nosso controle sobre as circunstâncias é quase nulo e o nosso controle sobre nós mesmos, bastante relativo.
O pior é que nos achamos!
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