Gregório de Matos tinha um apelido, era chamado “o boca do inferno” porque incomodava a sociedade escravocrata brasileira da sua época. O poeta “boca de brasa” viveu entre 1636 e 1696 e já denunciava as engrenagens do capitalismo mercantil que transformava o Brasil em agroexportador e o povo brasileiro em mercado consumidor. Apesar do poeta-profeta, logo os produtos industrializados ingleses afogariam a Guanabara, os saxões desenhariam o futuro em que hoje mergulhamos.
Se trocarmos “Bahia” por “Brasília” atualizaremos o poema mais famoso de Gregório de Matos: “Triste Brasília! ó quão dessemelhante / Estás e estou do nosso antigo estado! / Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vejo eu já, tu a mi abundante. / A ti tocou-te a máquina mercante, / Que em tua larga barra tem entrado, / A mim foi-me trocando, e tem trocado, / Tanto negócio e tanto negociante.”
No poema “escárnio e maldizer” do meu livro “Diário dos miseráveis” (Penalux, 2021) o consumismo desenfreado que apodrece oceanos reaparece como temática num diálogo com o Boca do inferno. O suposto bom Bloom mineiro tenta unir o barroco brasileiro retorcido ao discurso distorcido do irlandês James Joyce atendo ao que a língua saxã pode e quer nesse mundo onde a cada dia valemos menos que um fluxo de consciência.
ESCÁRNIO E MALDIZER
Pareço bobo, mas não sou parvo.
A terra é redonda e deus não existe.
Dito isso daquilo nego porque preciso:
a ciência em toda parte é responsável
pela tristeza funda espalhada no mundo.
Abortando o assunto rezo escárnio
A são gregório de matos guerra,
Que ele bote o mundo de cabeça para baixo
E eu cague um poema bonito na privada
Assim:
crucifiquem a poesia com força
linchem a primeira pessoa
até que o osso do indigente apareça branco
no índice do ibope, depois
coroem um ladrão de sorte
deem a ele emprego na república;
espinha o verbo e chupa sua ferida
porque ela é só isso: é sua, é ferida
Se essa verborragia não restaura a aura perdida da palavra
Tampouco o sentimentalismo da coisa errada no lugar certo;
Como um bom Bloom mineiro finjo de morto
Para beijar a poesia do coveiro
Ulisses jesus cristo!
Salvai-nos do porre sonolento
Me deem logo um copo de tupy quilombola
Que essa escola anglo-saxã é maçada;
Meta de uma vez seu greenwich na sua bolsa prada
Se fendi ou fode com seu hilde palladino tanto faz
Pouco importa como você goza louis vuitton
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