A vida é sonho, dizia o dramaturgo e poeta espanhol Calderón de la Barca. Dante Alighieri acorda no inferno da existência e com ele seguimos longa jornada até encontrarmos saída. Platão nos conduz para fora de uma caverna escura onde, escravizados por falsas impressões, negávamos a luz do conhecimento. Nietzsche esboça o ser humano evoluído moralmente ocupando lugar acima do bem e do mal e legislando a decadência da humanidade.
Na república da incerteza continuamos a desprezar fato e realidade; como reconhecer verdade se todos parecemos insanos? O alienista de Machado de Assis meteria nós todos no manicômio ou daria liberdade irrestrita aos loucos do planalto? Como distinguir o que está do lado de fora dos nossos sentidos senão pela ciência da intuição? Nesse mar tenebroso poesia é salva-vidas. Sem tirar nada de mim, a poesia me espreme até as vertebras se comprimirem, me dilui e amplia, me faz pequeno e eleva meu espírito alto. A poesia me dimensiona no tempo e no espaço, se me perco me acho, e esboça o real tamanho da insignificância no amalgama da História.
Na porta do poema “übermensch” do meu livro Diário dos miseráveis (Penalux, 2020), visualizo alguém numa encruzilhada a tomar uma decisão. A indecisão causa calafrio, esse passo conduzirá de volta ao inferno de antes ou ao claro fora da caverna? Entre seguir ou retroceder, o medo da escolha errada paralisa quem demora. Transcrevo a seguir o poema “übermensch” ouvindo a voz de um ser alado ancestral magnifico que adverte quem parado no meio do caminho lê.
De costas para o abismo saiba dele
Não o tema nem o deseje
A vida está como sempre esteve
Bocarra faminta na engrenagem desdentada
Da pouca luz do lume frouxo faço epifania
Aqui eu é menos que sombra
Divido o parco conforto sem a pressa habitual
Viver um dia por vez levará de igual modo
Ao fim, contudo respeito o nada conclusivo
O ciclo de estar sob escombros
Valerá a pena se debaixo de todo peso
A leveza da montanha fizer algum sentido
O preço do vislumbre é a insanidade
No fundo do fundo raso a eterna dúvida
Frente à máquina de esmagar músculos
Aos que tateiam no escuro à porta do inferno
Reacendo o novo lume e desenho
No vão enorme entre os degraus seu nome;
E abro a porta
Para o belo salto ornamental estúpido
Para quem busca a verdade inexistente
Do lado de fora
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