Patrícia, hoje especialmente estou sentindo a sua partida, ocorrida há menos de um mês, neste agosto que vai terminando. Mas não é com melancolia, e sim com frescor, que sua imagem se aproxima de mansinho, quando, saindo de casa, à minha frente vários ipês floridos se oferecem ao olhar. O céu, ainda muito azul nessa altura do ano, contrasta com o amarelo das árvores. Estaciono, desço do carro para fotografá-las, no desejo de mantê-las vivas na memória do computador. Embora tenha certeza de que nesse instante já estão se gravando no meu coração. Por conta da delicadeza das flores, parecidas à seda de certo vestido seu, e da cor do céu, que você adjetivava de “azulim”, sou afetada por muitas lembranças.
Você gostava de flores. Tanto que, pioneira nos anos 70, empreendeu no ramo com a “Patrícia Flores,” que nosso amigo comum Aureliano de Paula Borges levou adiante, trazendo-a até nossos dias sob a marca “Liliko” e associada a um slogan que fala muito de ambos - “Flor é amor para quem dá e para quem recebe”.
Você apreciava os provérbios, os ditados populares. Muitos ligados à natureza, um deles era resgatado quando você se via envolvida em ataques injustos e dolorosos aos quais não seria de bom senso revidar: “Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere”.
Você se amparava na filosofia do Eclesiastes. E quantas vezes na abertura da sua coluna no “Comércio da Franca”, casa que compartilhamos por décadas, eu li: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Ah, o céu!
Você amava o céu “azulim” da Franca. (Nunca a ouvi dizendo “de” Franca). E debaixo desse maravilhoso céu de inverno, você amava as valsas dos nossos compositores, reverenciava os poetas, divulgava as artes que os francanos criavam.
Você não apenas fazia registros sobre talentos que se revelavam ou os que já eram reconhecidos. Você os prestigiava pessoalmente. Gostava de estar presente nos lançamentos de livros, nas vernissages, nas apresentações musicais no nosso Teatro Municipal. Foi assim que deixou impressa na alma dos artistas francanos a marca aveludada do acolhimento.
Luiz Cruz de Oliveira, Thereza Ricci, Corrêa Neves Júnior lhe dedicaram neste portal crônicas de tom emocionado onde destacaram seu caráter, dinamismo, talento. Lúcia Brigagão, no tempo certo, escreveu alentada biografia que não poderia ter outro título: “Querida”. Nela estão Sonia Menezes Pizzo e Patrícia, mulher que manteve notoriedade respeitosa em Franca e região por décadas, o que é um fenômeno. Luiza Helena Trajano Inácio, com a sinceridade que a distingue, cravou assertiva: “Nenhuma cidade do interior paulista teve uma mulher como Patrícia.”
Você foi única, mesmo. Corajosa na maneira como decidiu enfrentar a cidade conservadora de meados do século passado, deixando o magistério para se tornar radialista e depois jornalista. Altiva quando precisou encarar os maldosos que reagiram com inveja ao seu crescimento profissional. Incansável na disposição para a luta, no encorajamento e na esperança, na defesa de Franca e do seu povo.
Você foi de aço quando, coração sangrando, teve de enterrar seus filhos, uma subversão à ordem natural que não raro enlouquece ou mata as mães enlutadas. Ao suportar tanta dor e continuar vivendo, trabalhando, orando, tornou-se inspiração para outras mulheres diante de igual tragédia.
Sua vida foi linda. Mas como nada é permanente, partiu aos noventa anos. Quero lhe dizer que por aqui o mundo continua complicado, caótico, fragmentado. Em uma parte dele, o direito conquistado pelas mulheres está indo por água abaixo, o que você reprovaria, pois seu jeito de existir mostrou perfeitamente como o sexo feminino pode ser capaz de grandes coisas. Em outras partes, é a democracia que corre perigo, e isso também a inquietaria porque a liberdade de expressão sempre me pareceu que lhe tenha sido cara. Quanto à pandemia, nosso último assunto quatro dias antes de seu cérebro sofrer aquela trágica pane, ainda preocupa. Ando tão entristecida com esses acontecimentos que o silêncio tem se imposto em mim mais do que eu gostaria. Mas em meio à sensação de impotência, recorro a um dos salmos que a confortavam: “Há tempo de estar calado, e tempo de falar.”
Hoje, com vontade de conversar com você, do jeito que faço menos mal que é escrevendo, atendo à demanda do meu coração, inspirada por este portal formado pela florada dos ipês e o céu azulim. Você está fazendo falta, porque junto com a Sonia/Patrícia foi embora um punhado de coisas que não mais voltarão. Mas ficaram outras que não se apagarão da memória dos amigos e admiradores porque são como flores imarcescíveis, sementes que brotam onde menos se imagina, perfumes permanentes.
E por falar em perfume, não posso deixar de acrescentar que, enquanto escrevo, sinto evolar-se de algum lugar a fragrância que a distinguia onde estivesse, porque traduzia nas inúmeras notas, a riqueza da sua personalidade.
Por fim, mas não por último, registro nessas linhas digitais minha gratidão por ter contado com sua amizade e consideração, sentimento que traduzia tão bem o seu jeito ético de existir. Obrigada! E inté.
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PS- Não sei se foi ilusão, mas antes do ponto final ouvi Frank Sinatra cantando “Start spreading the news/I'm leaving today/I want to be a part of it/New York, New York”. Penso que cada um de nós tem uma New York que busca. Franca tornou-se a sua, Patrícia. Muito mais que por direito de nascença, por inquestionável direito de conquista.
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