O ano de 1971 deu início à história vencedora do "Maior do Brasil". Há exatos 50 anos, no dia 28 de agosto daquele ano, o então Clube dos Bagres conquistava o seu primeiro título nacional. Mesmo com o time já tendo 12 anos de história e oito títulos de campeão do interior, aquela Taça Brasil ficou marcada como o começo de tudo.
"Somos Campeões do Brasil." Essa era a manchete estampada na edição do Comércio da Franca do dia 31 de agosto de 1971. O atraso no anúncio do título se explica pelo horário do jogo no dia 28, um sábado, quando a edição de domingo, dia 29, já estava fechada. Na segunda, dia 30, não houve edição. Mas, ainda assim, com bastante orgulho dos francanos comandados por Pedro Morilla Fuentes, ou melhor, "Pedroca", o jornal comemorava a grande conquista.
Naquele dia 28, em um Clube dos Bagres lotado, estavam todos eufóricos para prestigiar "a melhor equipe do Brasil, que apresentava o jogo mais bonito e veloz do país", como destacava o presidente da CBB (Confederação Brasileira de Basquetebol), Almirante Meira.
E, realmente, era o melhor time do Brasil. Por 75 a 62, o time de Pedroca, com Hélio Rubens, Fransérgio, Totó, Robertão, Amilton, Carraro e Fausto, derrotava o então campeão paulista e nacional, Sírio. O placar foi suficiente para que o Comércio publicasse uma confiante chamada: "Não foi tão difícil vencer o Sírio".


Capitão da equipe, Hélio Rubens recebia troféu de campeão
A vitória contra a equipe da capital paulista veio para coroar uma história que se iniciou em 1959. Em maio daquele ano, o educador físico Pedro Morilla Fuentes juntou os seus alunos do IEETC (Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro), atual EETC, e formou uma equipe de basquete.
Mesmo recém-formado, aquele time, composto por Hélio Rubens, Marcos, Magrin, Xavier, Katiê, Osvaldo, Antônio, Roberto e Heraldo, começava a impressionar a todos. Mas, a primeira consagração veio em Presidente Prudente. Em um campeonato contra os melhores times do Estado – Presidente Prudente, São Carlos e Piracicaba -, Franca conseguiu terminar na terceira colocação. O terceiro lugar, mas com gostinho de primeiro, serviu para a equipe ganhar confiança. Na época, o técnico Pedroca afirmou ao Comércio que “o futuro vai dizer o que essas conquistas representam para nós”.

No torneio, um jogador em específico chamou bastante atenção: Hélio Rubens. O eterno camisa 9 francano foi até elogiado por um dos árbitros do torneio, Renato Riheto, que disse: “Esse menino vai ser um dos grandes atletas do Brasil”.
Renato não estava errado. Pedroca também não, ao dizer que o futuro diria com essa primeira conquista. Hélio foi evoluindo ano a ano. Junto dele, entraram no time os outros dois filhos de Francisco Garcia: Fransérgio e Totó. Juntos, os três formaram o Trio Metralha. Amilton, Carraro e Fausto também agregaram a equipe ao longo dos anos. Este último, inclusive, considerado a grande promessa da época.
Formado esse primeiro time, Franca já se colocava entre os grandes. Ano a ano, os títulos do interior pareciam pouco para a equipe. Pedroca, jogadores e francanos queriam mais. Foi aí que a grande oportunidade bateu na porta. A cidade foi convidada para ser a sede da Taça Brasil, torneio que coroaria o grande campeão nacional e classificaria o campeão para o Sul-americano. Na disputa, estavam o Sírio – atual campeão -, os cariocas Fluminense, Vasco da Gama e funcionários de Volta Redonda, os gaúchos Cruzeiro e Sogipa.
Só que, como em toda história nem tudo são flores, quase que o sonho de Franca caiu por terra. Pelo regulamento, Franca só poderia sediar o torneio se fosse o atual campeão. Não era o caso. O título de 1970 ficou com o Sírio. Ainda assim, a CBB decidiu por manter a disputa em Franca. Em forma de protesto, os times cariocas e gaúchos saíram da disputa. Entraram no lugar Arapongas e Minas Tênis Clube.
Na tentativa de boicotar a Confederação, o Fluminense entrou com um processo na justiça carioca. E deu certo. O nome Taça Brasil foi suspenso por 90 dias pelo tribunal. Como solução, a CBB rebatizou o torneio em Franca, como torneio Coronel Luiz Maciel Júnior e impediu que os outros clubes disputassem um campeonato brasileiro no Rio de Janeiro, como proposto pelo Fluminense.

Com toda essa reviravolta, enfim começaria a disputa para decidir o campeão brasileiro de 1971. Primeiro jogo: Bagres 88 x 56 Arapongas. Franca já mostrava seu poder de fogo. Só que, no jogo seguinte, entre Minas e Sírio, o time francano viu que teria um grande adversário. O time da capital venceu por 90 a 63 a equipe mineira.
Na segunda partida, com a mesma facilidade, Franca derrotou o Minas, por 86 a 51. No mesmo dia, em rodada dupla, o fortíssimo Sírio derrotaria o Arapongas por 76 a 65. Estavam, então, decididos os finalistas daquela edição: Franca e Sírio.
Como já narrado no início deste texto e publicado pelo Comércio à época: ‘Não foi tão difícil vencer o Sírio’. Franca venceu. O Bagres tremeu. Francanos enlouqueceram. Em um roteiro brilhante, como se fosse fantasia, Franca marcava seu nome na história do basquetebol brasileiro.
Foi o início da história mais brilhante de uma equipe até hoje no esporte nacional. Um time do interior, que, década a década, dominava os campeonatos nacionais. De 1971 para cá, são 11. Os cinco primeiros comandados por Pedroca, com Hélio Rubens sendo estrela dentro de quadra. Os outros seis, já sem Pedroca no comando, mas com Hélio Rubens levando a prancheta do professor.
Prancheta essa que continua com a família. Hélio Rubens Garcia Filho, ou "Helinho", atualmente é quem comanda o time francano. Na época do título de 71, ele nem nascido era. Ouviu só por histórias do pai. Mesmo assim, comenta com orgulho a conquista do pai, tios e companheiros. “Lembro do meu pai falando o quanto foi surpreendente uma equipe do interior surpreendendo a todos. Franca jogava de um jeito diferente na época. Enquanto usavam muito o esquema de zona, eles cobriam a quadra toda. De repente, ganham um título brasileiro que veio para coroar todo esse fomento ao basquete de Franca. Aí virou febre de vez na cidade.”
E, como pontua Helinho, o título trouxe um sentimento de febre à cidade. Sentimento esse incorporado por tradição. Tradição de um legado brilhante de Franca. Legado agora carregado pelos comandados de Helinho, que almejam a conquista do NBB, atual campeonato brasileiro, que ainda não está nas prateleiras francanas.
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