Como se já não bastasse ser mãe solteira de três jovens, Meire Afonso, de 54 anos, se viu em uma das situações mais difíceis durante este momento de pandemia. A filha do meio, Clara Mirella Silva, de 17 anos, possui síndrome de Down e autismo e, além da vulnerabilidade quanto à covid-19, a adolescente tem dificuldade em seguir as medidas de segurança, como o uso da máscara, por exemplo. Foi somente um ano e meio depois, com a aplicação da primeira dose na Clarinha, que a família teve algum alívio.
A vacinação para adolescentes entre 12 e 17 anos com comorbidades em Franca começou no dia 18 de agosto. Mesmo com as doenças pré-existentes, o grupo de menores de idade foi um dos últimos na fila da imunização contra a doença.
Foi logo no início, em uma quarta-feira, que Clarinha recebeu a dose da vacina. O dia foi marcado por muita alegria e esperança por todos que convivem com a menina. “Só posso falar que isso significa esperança. Foi muita alegria e a família inteira comemorou, até porque a gente esperou por isso muito tempo, né? Quase 18 meses sem poder ir à escola, às terapias, dias sem rotinas que eram trocados pela noite... Agora estou mais aliviada”, disse a mãe.
Se a rotina já era difícil antes da pandemia, com a chegada das restrições, ficou ainda mais complicada. Meire explicou que a filha acordava às 6 horas para ir à Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Franca e chegava em casa meio-dia. Com a covid, Clarinha teve de se manter em quarentena e, com isso, desregulou todos seus horários.
Ainda que em meio aos contratempos desde março de 2020, Meire contava com a ajuda da mãe e dos outros dois filhos: um menino de 15 e uma jovem de 20 anos. Mas, em 27 de fevereiro deste ano, ela perdeu a mãe por conta de uma fibrose pulmonar.
Ainda que em meio aos contratempos desde março de 2020, Meire contava com a ajuda da mãe e dos outros dois filhos: um menino de 15 e uma jovem de 20 anos. Mas, em 27 de fevereiro deste ano, ela perdeu a mãe por conta de uma fibrose pulmonar.
“Minha mãe tinha um irmão também com síndrome de Down e já sabia como era a rotina. Antes eu confiava plenamente na minha mãe para cuidar da Clara, mas agora somos só eu, minha filha e meu filho. Não tem mais para quem recorrer.”
Meire contou que, além de mãe, também faz o papel de pai dos três filhos. “Eu e o pai deles nos separamos há quatro anos e ele não é presente. E foi justamente por isso a separação. Ou a gente está junto nessa caminhada ou não está, porque exige muito. Eu não questiono ele, de maneira nenhuma, por ter tido essa decisão, porque é muito difícil realmente, mas quando Deus manda é porque confia na nossa capacidade de cuidar.”
Mesmo com apenas uma dose da vacina, a comemoração da família foi grande, porque Clara faz parte do grupo de risco, com comorbidade, baixa imunidade e outras questões. Para preservar a irmã e a filha, todos em casa seguiram uma quarentena severa.
“A minha filha é uma jovem de 20 anos. Faz faculdade, tem vários amigos, trabalha fora, mas ela também não saiu porque percebeu que a vulnerabilidade da Clara era muito grande perante essa doença que ninguém sabia muito bem como funcionava. Todos nós, para preservar ela, nos isolamos”, disse Meire.
A única alternativa, para não tornar o ambiente ainda mais incomum para Clara, que não entendia que existia uma pandemia do lado de fora de casa, foi não forçar nada, como impor atividades ou horários.
Em novembro, Clara toma a segunda dose, mas ainda não tem previsão para o retorno às atividades que fazia antes. “Lá pelo começo de outubro já vou me sentir mais segura para mandar a Clarinha para a Apae, mas o que mais me incomoda é o protocolo. Minha filha não usa máscara de maneira nenhuma, não sabe que tem que ter distanciamento e nem que tem que lavar as mãos toda hora. Ainda é muito incerto, mas é uma esperança depois de tanto tempo.”
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