Uma homenagem singela

Por Thereza Ricci | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Em 1973 fui removida como diretora do Grupo Escolar da cidade de São José da Bela Vista para o Grupo Escolar “Henrique Lespinasse”, em Itirapuã, cidades vizinhas de Franca, onde eu já estava morando com a família.

Não sei como estão as escolas estaduais hoje. Aposentada e trabalhando em outra área, me informo pelos meios de comunicação de que o fornecimento de alimentos, para a distribuição da merenda escolar, tem sido suficiente. Além disso, também o material escolar como livros didáticos de várias matérias cumprem o seu papel.   

Mas naquela época não tínhamos grande auxilio do Estado para suprir as necessidades dos alunos. Recebíamos apenas leite e o envio de material escolar era deveras insuficiente. Livros didáticos nem pensar. Tínhamos de lidar com ensino de todas as matérias, com exposição no quadro negro. Dinheiro só para a limpeza do prédio. Então, analisando o presente, apesar dos governantes nunca terem colocado em suas gestões a importância da educação como alicerce da nação, houve avanços.

Em geral as escolas recebiam alunos de todas as camadas sociais e sempre que trocava de escola, pela remoção, encontrava um número grande de estudantes pobres, que necessitavam de serem atendidos pela associação de pais de alunos, não só na alimentação, mas também em outras necessidades. Para isso, idealizava uma festa, uma rifa ou outra atividade qualquer, com a ajuda dos pais, para angariar dinheiro para suprir o que ficava faltando para esses estudantes.

E não foi diferente quando assumi a direção do Grupo Escolar da cidade de Itirapuã, onde depois de uma avaliação dos alunos carentes, acabei verificando que o número era bem maior do que eu imaginava.

Preocupada com o problema e desejando fazer um bom trabalho em prol desses estudantes, comentei com os professores que tínhamos de melhorar a merenda escolar e atender outras necessidades.  Para isso, gostaria de organizar uma quermesse para angariar dinheiro, pois só dessa forma conseguiríamos nosso intento. Comentei ainda que precisávamos fazer uma intensa propaganda para que pessoas das cidades vizinhas, inclusive Franca, contribuíssem para o sucesso de nossa festa.

Uma das mestras entusiasmadas com a proposta disse que talvez se eu fosse na emissora de rádio onde Patrícia, a colunista social da cidade de Franca, fazia seu programa, e tinha ouvintes por toda a região, ela concordasse  em propagar a nossa festa. Fiquei em dúvida, pois moradora nova da cidade, forasteira, não acreditava que ela iria se importar com a diretora de um grupo escolar, ainda mais de outra cidade e quase desconhecida. Além de que, sabia que ela cobria festas e notícias da alta sociedade, inclusive na capital. Mas em companhia de uma professora, arriscamos e comparecemos na emissora no horário de sua programação e pedimos para ser recebida pela radialista.

Ela nos recebeu e, ciente do assunto, não só se dispôs a anunciar a festa, mas perguntou-me se eu arranjaria moças bonitas para serem candidatas no concurso de Miss da cidade, sendo que ela estava organizando o desfile do concurso de Miss Franca. Assustei-me, mas contaminada pelo seu entusiasmo, concordei.

Escolhemos as jovens, improvisamos uma passarela no pátio amplo da escola, e a Patrícia compareceu com algumas moças. Foi lindo o desfile que ela proporcionou à plateia apinhada de gente e a quermesse foi um sucesso indescritível, nossas prendas todas leiloadas, os alunos beneficiados. Depois disso, sempre contei com sua colaboração em programações e outros eventos em benefício de alunos carentes.

Desse dia em diante, passei a admirá-la pela sua disponibilidade e a certeza da sua generosidade para com todos, haja vista o quanto trabalhou em prol de conquistas para a Franca, sua cidade.

Essa grande francana partiu na madrugada do último dia 7 de agosto deixando um rastro luminoso da sua trajetória pela Terra. E a saudade que teremos, para sempre.

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