Uma estimativa da Fundação “Allan Kardec” aponta que cerca de 20 mil francanos possui algum tipo de transtorno mental, seja de grau leve a grave. E apesar de tão presente entre as famílias, muita das vezes, o tema é abordado com preconceito e esquecimento pela população em geral. A busca pela autonomia e por reconhecimento pela sociedade é geral, inclusive, por quem tem algum tipo de transtorno mental. Às vezes vistas como “loucas”, essas pessoas precisam de alguma forma ser reinseridas na sociedade.
Para mudar essa realidade, o “Allan Kardec”, desde 2018, vêm realizando o projeto Oficinas Inspiração, que tem como principal objetivo a inclusão social por meio do trabalho e geração de renda para os indivíduos em tratamento psiquiátrico em Franca e região.
De segunda a sexta-feira, os oficineiros, como são chamadas as pessoas que do projeto, atuam nas oficinas de Reciclagem de Eletrônicos, Costura em Couro e Agrícola, que funcionam dentro do complexo da Fundação “Allan Kardec”, no bairro Cidade Nova.
“Só temos visto benefícios, tanto em relação a terem uma renda, como também à autoestima. Eles melhoram a socialização, conseguem contribuir com o sustento das famílias e acabam mais valorizados dentro de casa, diminuem o número de internações, muitos nem internaram mais após a participação nas oficinas. É um caminho para que eles tenham uma vida próxima do comum, com suas responsabilidades e consequências pelas decisões que tomam”, afirmou a terapeuta ocupacional Renata Reis Vieitez, coordenadora do Desenvolvimento Humano do “Allan Kardec”.
A ressocialização feita pela Fundação, vem colhendo frutos e, mesmo com todas as dificuldades que os pacientes têm, um deles conseguiu um emprego em uma loja de tintas da cidade. “As pessoas em tratamento psiquiátrico têm muita dificuldade para conseguir trabalho, pelas limitações e necessidades que têm. Trabalhamos com elas para tentar inseri-las no mercado”, disse Renata.
O projeto prevê a implantação de dez tipos de oficinas – marcenaria, mosaico, cartonagem, culinária, entre outras. Três delas já funcionam e atendem 60 oficineiros, entre homens e mulher, mas devido à pandemia da Covid-19 apenas 25 estão autorizados a frequentar o local.
Segundo os responsáveis pelas oficinas, mesmo com todos os problemas individuais de cada um e a maioria trabalhando com objetos perfurocortantes, desde o início do projeto até hoje, nenhum acidente aconteceu dentro da Fundação.
Geração de renda
Nas três oficinas que estão funcionando, os pacientes conseguem gerar uma renda. Cada oficina trabalha com seu caixa próprio e todas as “negociações” têm a participações dos oficineiros. Todo o valor arrecadado nas oficinas é repassado e dividido entre eles.
Na oficina Agrícola, as hortaliças são vendidas para a comunidade diariamente ao lado da recepção do Hospital “Allan Kardec”. Na oficina que recicla os aparelhos eletrônicos como celulares, computadores e eletrodomésticos, são vendidos quando ainda funcionam ou desmontados para revenda das peças.
Segundo o Hospital, uma das compradoras é uma multinacional japonesa especializada na remanufatura desses produtos e também depósitos de sucatas.
Já os produtos artesanais feitos com retalhos de couro que a Fundação ganha são comercializados em um bazar na própria instituição ou levados a alguns pontos da cidade.
“Sempre ouvimos relatos dos oficineiros que compraram pizza para a família ou algo que estavam com vontade de comer ou então pagaram alguma conta com a renda que tiveram no projeto Inspiração”, continuou Renata.
Para participar do projeto, é necessário estar em acompanhamento psiquiátrico na rede de assistência pública ou particular e ter encaminhamento médico para a oficina. Por enquanto, não há vagas abertas, em razão da pandemia que limita o número de participantes para evitar a contaminação pelo coronavírus.
Mas a Fundação “Allan Kardec” tem expectativa de retomar os atendimentos assim que a situação se normalizar e também de expandir o programa de Desenvolvimento Humano, com abertura de novas oficinas e proposta de atender 300 pessoas.
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