A mulher e a violência doméstica

Por Thereza Ricci | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Muito se tem falado dos progressos da mulher no seio da sociedade, da sua capacidade, do avanço que conseguiu em direção à sua profissionalidade, sua inteligência, disciplina, coragem e honestidade no desempenho de suas funções, em cargos elevados como o Supremo Tribunal de Justiça, onde temos duas magistradas.

Por isso mesmo e por outras circunstâncias mulheres se tornam independentes e sozinhas, cuidam de sua sobrevivência, às vezes, também a de seus familiares, com seu salário, fruto do seu trabalho.

As faculdades de todo o país já registram por algum tempo uma porcentagem grande de mulheres, que todos os anos ingressam em escolas superiores, mostrando que cada vez mais elas caminham ao  encontro de seus objetivos, competindo com os homens nas mais variadas profissões, coisa impensável num passado não muito distante.

Liberadas da moral ilibada de antigamente, que fazia da mulher, antes dos anos 50, um ser dependente do pai e da mãe, para depois do casamento ser também dependente do marido, seu dono e senhor, nos dias de hoje não aceita ser cerceada em sua liberdade, por isso  casa, divorcia, casa novamente ou amasia, sem que a sociedade a discrimine. 

As informações sobre a relação sexual, o ciclo ovular, os cuidados e uso de preservativos para evitar uma gravidez indesejada estão à mostra nas escolas, nas conversas, nos programas de televisão, nas revistas mais diversas, trazendo para a mulher tudo que ela deve saber sobre seu corpo e as consequências de seus atos diante da vida e do sexo oposto.

Mas apesar de tantas informações e conquistas, a mulher ainda não aprendeu a colocar a racionalidade acima das emoções e dos sentimentos. Liberadas para correr atrás de suas metas, não enxerga o mundo materialista, mercenário, individualista e machista que domina nossa sociedade, age com o coração quando se sente atraída por um homem. Engravida para agradar ao parceiro e, de repente, este lhe foge das mãos, deixando-a sozinha com ônus do prazer, do amor que era só dela, e tem que se desdobrar em várias mulheres, ou seja, a profissional, a chefe de família, o pai, a mãe e a doméstica, e se quiser lutar por uma pensão para os filho ou filhos, tem de mendigar nos corredores do fórum, o que nem sempre consegue.

Há ainda o problema da violência, atualmente muito discutida, com casos escabrosos, mulheres que são assassinadas na frente dos filhos, pelo marido, amásio ou companheiro, deixando um rastro de sangue e muitas vezes de impunidade. Segundo o anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2020 houve um aumento de 7% na taxa de feminicídios de mulheres, onde 66% eram negras; e o feminicídio deixa mais de 2.000 órfãos no país, todos os anos.  Infelizmente ainda temos de constatar essa nossa triste realidade, onde os negros são sempre os que mais sofrem com as tragédias domésticas e de família.

Fico pensando como vivem esses órfãos; mesmo que tenham avós, tios que se responsabilizem por eles. Restarão sempre  uma lacuna em suas vidas; o transtorno emocional pela perda da presença da mãe, bem insubstituível; lidar com um pai criminoso e ausente, atrás das grades por muito tempo. E aqueles cujas famílias não têm condições financeiras de apoiá-los? Porque a maioria das mulheres assassinadas são pobres, de acordo com Anuário. Onde está o governo que até hoje, pelo que tomei conhecimento em leituras, não mostra nenhuma política pública para amparar esses infelizes órfãos do feminicídio? Mais uma mazela, pouco explorada e discutida, desse nosso imenso país.                                        

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