Viver sem medo

Por Baltazar Gonçalves | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Quem nunca sentiu medo? Instinto básico de sobrevivência, um susto pode nos livrar do perigo. O impulso agita. Não é sinal de fraqueza como ensinaram. Crianças aprendem cedo que o Bicho-papão leva o desobediente para o escuro no fim do mundo. Histórias de terror provocam catarse, aquela sensação de escape por “não ter acontecido comigo”. Mas sentir medo o tempo todo adoece, não deixa espaço para sentir mais nada.

Medo pode ser patologia, quando todos estão com medo diz-se que é doença social. Há séculos temos medo do inferno e nem sabemos se Deus existe. Fiquei sabendo que psiquiatras recebem diariamente vendedores de drogas contra o medo em seus consultórios, especialistas podem receber por comissão caso vendam esta e não aquela solução contra o medo. Mas qualquer pessoa pode comprar coragem nas drogarias, ou pílulas para dormir que é o contrário e dopam da mesma forma, mas só com receita e por uma boa razão: esse tipo de medicamento vicia já que a sensação de viver sem medo é boa.

Se a embalagem é bonita vende mais. Finja ser o que deseja e não é até parecer que é de verdade. Tão triste. Vê como a roda do sistema gira? A eternidade é mesmo uma bocarra desdentada. Somos uma sociedade medicada viciada em medo. Quem desenha essa realidade torpe nos oferece doses diárias de pavor. O terrorismo cibernético aparece fofo que nem meme de monalisa, aobra de arte na era da sua reprodutibilidade técnicavale menos que xerox do nascimento da tragédia no espírito da música. Vivemos na ilha do medo, entre a primeira e a última página do processo de Kafka; não há disfarce para o medo que estão escrevendo, ou continuamos baratas ou morreremos feito cão. Foi mal, não queria dar spoilers. Ser obediente quando não se sabe a quem é escravidão: leia Kafka.

Mudando de pato pra ganso, lembra do filme King Kong? Tem aquela cena no começo quando a fera se mostra invencível no seu ambiente e alguém sugere dar-lhe certas raízes amargas. Anestesiado e confuso, o primata gigante amolece e tomba. No fim do filme, quando o desejo por liberdade supera o medo, King Kong faz um estrago danado. Ah sim a fera é abatida no fim da história, mas não em nosso imaginário onde  torcemos para que o indomável em nós também acorde dos efeitos da medicação, da anestesia, e do medo.

A impotência contida no medo é paralisante. Distinguir o que permanece igual ao longo dos séculos do que pode mudar num instante é observável quando lavamos os pratos usados na última refeição.  Quem espera ver humanidade no mundo deve antes olhar para dentro de si para destravar a mola encolhida e pronta a reanimar cada átomo no vazio do espírito dormente.

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