“O luto expõe camadas novas em mim, raspando escamas de meus olhos. Arrependo-me das minhas antigas certezas. Você certamente deve vivenciar seu luto, falar a respeito, encará-lo, atravessá-lo. As certezas arrogantes de alguém que ainda não o conhece. Já estive em luto antes, mas só agora toquei sua essência mais pura. Só agora aprendi, ao tatear em busca de seus limites porosos, que não há travessia possível.”
O trecho é do livro cujo título abre esse comentário. Foi lançado recentemente também no Brasil pela Companhia das Letras. A autora, Chimamanda Ngosi Adichie, de origem nigeriana, é das principais vozes femininas da atualidade, conhecida por sua militância contra o preconceito racial e de gênero. Suas ideias a levaram a ser traduzida em muitos idiomas, tal o alcance de sua escrita. Ao passar pela dor da perda do pai, ela buscou verbalizar por escrito todas as etapas de seu sofrimento, sem saber que ao publicar a pequena grande obra teria de sofrer meses depois outro impacto, o que sobreveio com a morte da mãe, Grace Ifeoma, em 1º de março passado, quando o livro referido já estava em circulação.
Nem o pai, nem a mãe, nem as tias da escritora, todos mortos em curto espaço de tempo, foram vítimas da covid-19. Mas a dor, tal qual a descreve Chimamanda, é parecida para todos que perdem pessoas queridas. Por conta dos dezesseis meses em que o coronavirus enlutou mais de quatro milhões de famílias espalhadas ao redor do mundo, e mais de quinhentas e cinquenta mil só no Brasil, o livro de Chimamanda vem sendo lido como uma proposta para entender os sentimentos que acometem os que são confrontados com a partida brusca de seus amados. E se não é possível atravessar o luto, no sentido de ir de uma ponta a outra pairando sobre a dor, resta senti-lo com intensidade, contundência, desvãos e ondas que vão e vem, até que na praia da existência restem apenas as espumas da saudade. O processo é geralmente lento e escrever pode ser uma forma de ajudar a cumprir todas as etapas. Foi o que fez Chimamanda, com a mesma profundidade do amor dedicado ao pai, o professor de estatística James Nwoye Adichie, morto no dia 10 de junho de 2020 aos 82 anos.
Pelo fato de ter ficado órfã no período mais agudo da pandemia, vários aspectos sociais modificados por esta agudizaram ainda mais os sofrimentos da narradora. Por exemplo, os abraços, consoladores em quase todas as culturas e muito expressivos para os nigerianos, não puderam ser recebidos, assim como o contato presencial com amigos não pode cumprir seu papel de aplacar um pouco a dor. Chimamanda, que estava nos EUA quando o pai morreu na Nigéria, não pode correr para sua terra natal, pois os aeroportos estavam fechados e, além disso, velórios tinham sido proibidos. Como aconteceu a milhões de pessoas, não houve a proximidade com os que teriam chegado para compartilhar lembranças e acalmar o coração. O que surge como substituto é o contato virtual, regado a lágrimas que revelam como o pai era querido: “Nossa chamada de Zoom é surreal, e nós só conseguimos chorar, chorar e chorar em diferentes partes do mundo, olhando incrédulos um pai adorado, que jazia num leito de hospital. ”
Lidar com a dor do luto, nos ensina Chimamanda, pressupõe aceitar tristeza, saudade, isolamento, incompreensão, incredulidade, culpa, raiva: “Estou despreparada para a raiva descomunal e avassaladora que sinto. Sinto-me inexperiente e imatura diante desse inferno que é a tristeza. Como pode pela manhã ele estar fazendo piada e conversando, e à noite ter ido embora para sempre? Foi muito rápido, rápido demais. Não era para ter acontecido assim, como uma surpresa de mau gosto, durante uma pandemia que obrigou o mundo inteiro a se fechar.” Por outro lado, ela compreende que “o luto é uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com as palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras”, afirma a autora de Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo, Para educar crianças feministas, Americanah.
Mas Chimamanda Ngozi Adiche sai vitoriosa de sua tentativa de traduzir com escrita pungente aspectos de sua dor. Mais ainda: depois da luta que é o luto, ela nos revela acréscimos em sua visão do outro, como ao escrever que “entende agora porque algumas pessoas fazem tatuagens com o nome daqueles que perderam: é por conta da necessidade de expor não só a perda, mas o amor, a continuidade. Eu sou filha do meu pai. É um ato de resistência e uma recusa: é a dor lhe dizendo que acabou, e o seu coração dizendo que não.”
Como nada é permanente, a vida segue, mas a dos que ficam por mais um tempo, depois de grande perda, não será a mesma. Chimamanda, já se sentindo diferente do que era um ano antes, consegue registrar em palavras escritas o seu sofrimento e assim transformar a dor que sente num livro que poderá descortinar sentidos para o leitor que os procura diante dos lutos que o existir impõe.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.