QUEREM AJUDA

Índios do Acre passam por Franca em jornada para conseguir doações para sua tribo

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo pessoal
O índio Tamá e sua mulher Nuka: peregrinação desde o Acre para conseguir doações para a tribo
O índio Tamá e sua mulher Nuka: peregrinação desde o Acre para conseguir doações para a tribo

Quase 3,9 mil quilômetros de distância separam Franca e a aldeia Shonoya, no Acre. Ainda assim, três índios se lançaram ao desafio de cruzar o país rumo ao interior de São Paulo numa espécie de peregrinação para levantar recursos para seu povoado. Tamá, de 37 anos, Nuka, de 27 e Ne’a, de 19, não tem roteiro fixo. Por onde passam, realizam cerimônias típicas, rituais e a chamada “medicina da floresta”. Com este trabalho, pretendem voltar à aldeia em dezembro deste ano com o que conseguirem arrecadar para ajudar os mais de 600 índios que hoje vivem em condições precárias.

Tamá é o único dos três que fala português. Nuka, sua mulher, e Ne’a, seu sobrinho, têm como idioma materno o pano – língua falada por povos indígenas no Brasil, Peru e Bolívia. Eles vivem na região de Campinas Katukina, às margens da BR-364 e do município de Cruzeiro do Sul, no norte do Acre, próximo à fronteira com o Peru e na dívida com o estado do Amazonas.

A jornada começou no dia 26 de junho, quando saíram da aldeia. Foram mais de três dias de viagem, entre ônibus e caronas, rumo ao destino inicial. Desembarcaram primeiramente na cidade de Sorocaba, também interior de São Paulo. A segunda cidade foi Franca, onde ficaram por mais de duas semanas à frente de cerimônias e rituais.

Da medicina da floresta, fazem parte cultos com Ayahuasca, um chá feito a partir de uma mistura de ervas amazônicas e utilizado em rituais religiosos indígenas. Além disso, usam rapé e sananga (uma espécie de colírio natural) para a cura de enfermidades e limpeza energética. Tudo que é usado nas cerimônias é extraído de ervas e plantas da região onde vivem os índios.

“A medicina (da floresta) serve para tudo. Dores físicas, cura espiritual, limpeza de pensamentos ruins e boas energias. Quando terminarmos nosso trabalho com a medicina, vamos voltar para a aldeia e levar tudo o que conseguirmos. Nosso povo está sofrendo, sem condições de se manter”, disse Tamá.

De acordo com Tamá, os rituais são praticamente a única fonte de renda da aldeia. “Nós vivemos dessa medicina da floresta e um pouco do artesanato. Lá na região não tem muito o que fazer. Não tem rio e nem lago grande para pescar. Tinha muita caça, mas o vizinho, o homem branco, está roubando dentro da nossa terra indígena. Não tem mais alternativa para manter nossa família”.

Ele conta que foi o pai que o ensinou a falar português. “Meu pai sofreu muito para aprender o português. Não tinha dia santo, nem sábado ou domingo. Trabalhava o mês todinho e no final só ganhava uma barra de sabão e um quilo de sal. Me ensinou para que eu pudesse trazer mais oportunidades para o nosso povo”.

Mesmo com as dificuldades na aldeia, os índios saíram em busca de ajuda justamente para que não tenham que abandonar sua cultura e migrar para espaços urbanos. Existem preocupações com crianças, muitas até que já perderam os pais, mas tentam preservar a sua identidade. “Nós comemos juntos, brincamos juntos, dançamos juntos e vivemos juntos. Eu quero a melhoria do meu povo e continuar vivendo em comunidade. Os brancos vivem separados e essa não é a nossa cultura”, explica Tamá.

Quando chegaram em Franca, não conheciam a cidade nem ninguém. O Espaço Xamânico Rama e Sita, que fica no bairro Boa Vista, acolheu os índios e ofereceu espaço para seus rituais. Ao mesmo tempo, organizaram campanhas de arrecadação de alimentos não perecíveis e roupas, que serão destinadas às mais de 600 pessoas da aldeia Shonoya.

“Conhecê-los foi uma oportunidade de me curar, de conhecer a mim mesmo, de poder me conectar com a história desse povo, de poder sentir tudo que eles vivem na floresta. Apesar de ser tudo muito difícil, eles jamais desistirão de ser quem são! É um exemplo de coragem, humildade e força! Sei que não conheci eles ao acaso. A cada medicina que eles vêm nos mostrar, sentimos a verdadeira história deles, sentimos a verdadeira força da vida”, disse Thiago Miranda, jovem que ajudou no acolhimento dos índios e na arrecadação de recursos.

Depois de mais de 15 dias aqui, Tamá, Nuka e Ne’a seguiram rumo à capital paulista para dar prosseguimento à missão de ajudar o povoado. Como conseguiram muitas doações em Franca, tentam conseguir agora dinheiro para que uma transportadora leve todos os itens até sua aldeia, já que não há condições de levar junto com eles e o retorno só está previsto para dezembro.

O Espaço Xamânico Rama e Sita continua arrecadando roupas, brinquedos e alimentos para a aldeia. Os interessados em doar podem levar os itens na própria comunidade, na rua André Fernandes, 65. Para os que quiserem ajudar no custeio da transportadora, foi disponibilizado um PIX para doação, com a chave do CPF 84698900263.  

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