Fábula sobre vida e morte

Por Sonia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

A literaturanoir se caracteriza por apresentar histórias que mesclam  mistério, medo  e sugestões que vão além do nível denotativo. Já a narrativa  macabra  perturba  por  abordar o  caos de repente instaurado, a subversão da ordem, a ideia de morte.  Uma história de terror  desencadeia sustos no leitor ao trazer para o nível das palavras o desconhecido, o sobrenatural, os  acontecimentos  que a ciência não consegue explicar. E o gênero fabuloso, seja em prosa ou  versos, empodera os animais  descortinando verdades ou pautando reflexões para os humanos.

Olga Tokarczuc, escritora polonesa laureada com o Nobel de Literatura em 2019, lançou mão de todos os elementos acima mencionados no  romance “Sobre os ossos dos mortos”, lançado em seu país  há onze anos e só recentemente traduzido para o português. O noir, o macabro, o terror reúnem-se a leves traços de humor para erguer  fábula humanista que segura o leitor pelo suspense e  fixa  um estilo  marcado  pelo vigor. Em choque e em xeque, natureza e cultura.

Vamos ao resumo da  enredo. Em remota região da Polônia, solitária professora de inglês aposentada, Janina Dusheiko, costuma se dedicar ao estudo da astrologia e à poesia de William Blake. Para aumentar sua pequena renda, dá aulas particulares e cuida da manutenção de casas de veraneio. Mas sua atividade preferida é sabotar armadilhas para impedir a caça de animais silvestres como raposas e alces, pois prefere a companhia dos bichos à dos  humanos.

 Vista como excêntrica pelos moradores, ela  vai levando a existência até que passa a dividir com a polícia a investigação sobre  a morte de alguns caçadores.  Acredita que estes foram  vítimas de assassinato e os culpados seriam  os animais, exasperados com a perseguição dos homens que  estariam tramando o tempo todo contra suas vidas.

Temas como injustiça, respeito à vida animal, indiferença, carência de afetos, morte e loucura passam a pontuar a vida dessa velha  senhora que nomeia  seus vizinhos como “Esquisito”, “Pé Grande”, “ Acinzentada”, e sobre os quais elabora teses engraçadas, enquanto faz seu elogio à República Tcheca, que idealiza, ou depois de escrever longas cartas ao delegado denunciando atrocidades humanas contra os bichos.

O eixo da trama - “Quem matou?”-  é bem mantido, embora a protagonista, com sua fina ironia, conceda ao leitor algumas piscadelas que podem ser entendidas como pistas. A estrutura do enredo policial tem bons momentos, embora às vezes se perca pelas elucubrações da narradora em seu entusiasmo pelos versos do poeta inglês, ou pelo estudo do  mapa astral que consulta de forma  pouco entendível a leigos que não se interessam pelo zodíaco.

 Dignos de destaque são momentos gloriosos  como  este lírico registro de mudança de estação: 

“ O inverno começa logo depois do Dia de Todos os Santos. As coisas aqui funcionam assim, o outono retira todas as suas ferramentas e os seus brinquedos, sacode as folhas, pois já não serão mais necessárias, varre-as para debaixo das divisas dos campos, retira as cores das gramas até ficarem cinzentas e desbotadas. Depois, tudo ganha nitidez e se torna branco e negro; a neve cai sobre os campos lavrados”

Ou  como a reflexão contundente a respeito do envelhecimento:

“E então algo acontece no meu corpo, os ossos começam a doer. É uma dor desagradável, revoltante- essa é a palavra que eu uso. É constante, persiste por horas, às vezes dias. Não há como se esconder, nem remédio ou injeção para aliviá-la. Tem que doer, do mesmo jeito que um rio precisa fluir, e a chama queimar. Ela me lembra, cruel, que sou composta de partículas de matéria que morrem a cada segundo. Alguém consegue se acostumar com isso? Aprender a viver com isso assim como as pessoas que vivem na cidade de Oswiçcim (que abrigou Auschwitz) ou Hiroshima, sem pensar jamais no que aconteceu lá no passado. Elas simplesmente vivem suas vidas.”

“Sobre os ossos dos mortos” chegou ao Brasil  recentemente pela editora Todavia, com tradução de Olga Baginska-Shinzato, e sua leitura corresponde à alta expectativa que se cria  a respeito de  autora laureada com o Nobel: estilo vigoroso e  narrativa de tema contemporâneo.

Olga Tokarczuk nasceu em 1962 na Polônia. Graduou-se em Psicologia pela Universidade de Varsóvia e trabalhou como terapeuta antes de dar início à sua carreira de escritora, tendo publicado o seu primeiro livro em 1989. Além de vencedora do Nobel de Literatura de 2019, a autora  recebeu o Man Booker Prize e foi  finalista em diversos outros prêmios europeus. Atuou como co-roteirista de Pokot (“Rastros”, em português), adaptação cinematográfica do livro aqui comentado.

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