O senador Randolfe Rodrigues resgatou em hora apropriada o mito da Hidra de Lerna, ao comentar o nível de corrupção no Ministério da Saúde, em sessão tumultuada da CPI da Covid na qual um depoente foi preso por mentir várias vezes aos senadores que o interpelavam.
A Hidra era um monstro que habitava um pântano junto ao lago de Lerna, lugar que hoje equivaleria à costa leste da Grécia.Tinha corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Segundo a mitologia, essas cabeças possuíam capacidade de se regenerar: quando se cortava uma, cresciam duas em seu lugar. O monstro era tão venenoso que matava os homens apenas com o seu hálito. E se alguém o perseguisse, os eflúvios de suas pegadas levavam a grande sofrimento físico.
Matar a Hidra de Lerna foi um dos doze trabalhos que Hércules teve de executar por ordem do rei de Micenas. De início ele tentou degolar as cabeças do monstro, mas a cada uma que cortava surgiam outras. Decidiu então mudar de tática e, para que as cabeças não renascessem, pediu ao sobrinho Yalau que cauterizasse as feridas com um tição logo após o corte. Depois de muita luta, sobrou a cabeça do meio, considerada imortal. O herói conseguiu cortá-la e enterrá-la debaixo de enorme rochedo, extinguindo o monstro.
A comparação da Hidra de Lerna com a corrupção que grassa no Ministério da Saúde se faz perfeita diante do olhar dosbrasileiros que têm seguido as sessões da CPI, comandadas com firmeza pelo senador Omar Aziz. A cada sessão surgem mais nomes, de civis e militares, todos metidos com a propina das vacinas.
Disse a jornalista Vera Rosa, do Estadão, que a atual CPI “escancarou a disputa de poder entre o Centrão e os militares que orbitam em torno do presidente Jair Bolsonaro, muitos deles agindo no submundo das informações reservadas. Se antes a briga era entre os generais e a ala ideológica do governo, agora o confronto de vida ou morte é entre o “núcleo camuflado” de farda e o grupo político que há anos dá as cartas no Ministério da Saúde”. Isso significa que o ministério que deveria estar centrando esforços para conter o morticínio provocado pela Covid (que já matou mais de 525 mil) esteve o tempo todo mais preocupado em obter vantagens com compras de vacinas do que em imunizar os brasileiros.
O esquema tornou-se mais claro a partir do depoimento do deputado federal Luís Miranda (DEM/DF) e de seu irmão Luís Ricardo, chefe de importação do Departamento de Logística do MS. Ambos acusaram Bolsonaro de prevaricação por ter conhecimento de irregularidades no negócio das vacinas e não agir para barrá-las. Eles estiveram com o presidente no dia 20 de março, no Palácio da Alvorada, e denunciaram uma rede de cobrança de propinas e muita pressão para que o MS liberasse US$ 45 milhões, de forma antecipada, a uma offshore situada num paraíso fiscal de Cingapura. O objetivo era pagar um lote da indiana Covaxin, com prazo de validade próximo de vencimento, mais o acordado como propina. Não à toa o deputado, que diz ainda ter informações com capacidade para “explodir a República”, usa colete à prova de balas.
Corrupção é sempre um desastre. Herança dos tempos coloniais, vem através dos séculos subtraindo ao Brasil as condições de crescer e se superar. Ela permeia a cultura e na política, onde muitos não discernem o público do privado, torna-se uma desgraça, especialmente quando o poder divide seus aliados em feudos.
Generalizar colocando todos no barco da corrupção é um erro. Corruptos existiram no passado remoto, no recente (o mensalão foi ontem mesmo...) e permanecem no presente. Felizmente ainda temos homens e mulheres íntegros na vida pública. Mas são tantos os malfeitos que irrompem mal alguns são extirpados, que nem um Hércules, com sua força e esperteza, seria capaz de dar conta de aniquilar a versão tupiniquim da Hidra, cuja vocação é destruir, contando com o acolhimento daquele ambiente pantanoso e fétido que é a Lerna brasileira.
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