Sonia Machiavelli

Por Os neo-rurais | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

O calor excessivo de 43° assustou os canadenses da região de Vancouver nos últimos dias, início do verão deles que fica na média dos 20°. Como normalmente não têm necessidade de  ar condicionado em suas casas, mais de trezentas pessoas morreram por conta da elevação inusitada da temperatura. Mais ao norte, no Alaska, sinônimo de gelo, a termômetro  surpreendeu  moradores que nunca haviam pensado em refestelar-se ao ar livre como  fizeram na semana que passou. Algumas regiões dos EUA , como o estado de Delaware, também sofrem com a mudança do clima, inesperado em junho. No meio dessas informações, voltam as  notícias de que as calotas polares estão descongelando com mais rapidez, o que significa aumento do nível dos mares. Enfim, vai se confirmando paulatinamente algo de que se fala há pelo menos três décadas: caminhamos para uma mudança drástica do clima e sua repercussão sobre a vida humana.

Há os que desacreditam da ciência e seguem repetindo o mantra de que a Terra sempre passou por esses fenômenos e voltou à normalidade. Mas há os que levam a sério os alertas de cientistas e têm procurado mudar seu estilo de vida. Em vários países vem crescendo o número dos que decidem  lutar a seu modo contra um próximo  desastre ecológico e criar outras relações econômicas. São homens e mulheres, muitos casais com filhos pequenos, outros que começam a formar uma família,  aqueles e aquelas que corajosamente deixam tudo para trás a fim de recriar seu jardim.

Um deles posta há um ano  encantadores vídeos diários no Youtube com a mulher e a filhinha de ano e quatro meses, Bridgette, que literalmente hipnotiza seu milhão de seguidores ao redor do mundo. Sou uma entre os que se deixam  encantar  por essa vida aparentemente idílica. A menina, que começou a andar há três meses, é um exemplo de saúde, esperteza, alegria, inteligência e também um  lembrete  de que a vida ao ar livre, a dieta equilibrada e o amor incondicional dos pais  é o que de melhor se pode oferecer a um filho. Quem se interessar pode acompanhar os Miller no Youtube, pelo Plant Based Gabriel.

Gabriel é o pai. A Drª Miller, a mãe. A família vive numa região  dos EUA próxima ao mar, onde há pequenas fazendas, o que  para nós seriam chácaras. Plantam tudo para seu consumo: batata-doce, bananas, couve, cebola, alho, tomates, quiabo verde e vermelho, milho, feijões de muitos tipos, vagens, morangos, laranjas, bananas, maçãs. O pão é feito por eles, e não leva leite nem ovos. São absolutamente veganos.

Gabriel era jogador de futebol e tinha uma carreira em ascensão quando foi afetado por dor na coluna que a nada cedia. Precisou abandonar a carreira. Como os remédios que tomava  eram inúteis e só o  faziam  inchar, ele se decidiu por dieta que eliminava todas as proteínas animais. Deu certo. Perdeu 15 quilos e livrou-se da dor. Foi quando optou por nova vida.

Essa mudança tem sido protagonizada por  engenheiros, vendedores, taxistas, professores, comerciantes, pessoas  que na cidade  gastavam grande parte do tempo no trânsito, estressavam-se com atrasos, alimentavam-se com  comida processada, bebiam água de garrafa plástica, prestavam contas a um patrão. Aos poucos, nasceu dentro deles um sentimento difuso de culpa, uma impressão de distanciamento entre este cotidiano e suas aspirações morais. Todos operaram uma revolução pessoal depois de reencontrar uma disciplina pensada há mais de 50 anos por dois australianos- Bill Mollison e David Holmgren.  O nome dela é “permacultura”(uma junção de “cultura permanente” no inglês), conjunto de métodos agrícolas que ensina aos neo-rurais como cultivar  legumes, cereais e frutos sem prejudicar os ecossistemas.

Essa nova proposta de viver chega acompanhada de uma ética centrada em nos ajudar a operar uma transição global, ensinando a viver em harmonia com os animais e a natureza.  É uma resposta aos sistemas industrial e agrícola vigentes, que vêm colocando em risco a sobrevivência  humana.  O objetivo é buscar construções eficientes; respeitar a diversidade; priorizar os recursos naturais e a sustentabilidade. Além disso, e talvez principalmente, alcançar equilíbrio mental, físico e espiritual.

“ Na permacultura  há três princípios fundamentais: cuidar dos humanos, cuidar do planeta, repartir igualmente os recursos”, lembra Laura Centemeri, socióloga e autora do livro “A permacultura ou a arte de reabitar”, obra publicada em 2019 pela editora francesa Quae e que deve chegar logo ao nosso país.  “Isso toca  todas as esferas da vida: a alimentação mas também a educação das crianças, as relações entre os humanos, uma iniciação à comunicação não-violenta”, escreve.  

Mais que uma prática, essa iniciativa que vem inspirando pessoas ao redor do mundo  corresponde a um imaginário de paz e a uma sensação de que a terra está se exaurindo. O princípio motivador vibra na consciência de que em lugar de esperarmos  que o mundo mude, nós é que devemos mudar. Desde agora. Antes que seja tarde.

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