Há pouco tempo, no meio dessa pandemia que nos consome as energias, disse a uma pessoa do meu relacionamento que eu tinha acordado ansiando por alguma boa notícia nas próximas horas. “ Seria para mim um presente”, arrematei. E ela me respondeu do alto de sua sabedoria: “- Mas você já recebeu um presente, que é acordar mantendo a capacidade de ver, ouvir, cheirar, falar, sentir o gosto do café matinal, se locomover e... inspirar e expirar de forma tão normal que nem sente.
Foi um puxão de orelhas que me fez ficar envergonhada. De fato, quando mais de meio milhão de brasileiros já morreram vítimas de um vírus atroz; milhares estão internados em situação grave; outros tantos intubados à espera de um milagre; familiares, amigos e amores em luto cerrado, era simplesmente inaceitável que eu reclamasse de algo tão abstrato como uma boa surpresa.
Isso me fez pensar que muitas vezes nos comportamos como eternos insatisfeitos, que deixamos de valorizar o que temos no momento para desejar por algo que está à frente, como conta um escritor alemão ao fazer interessante analogia com os que estão sempre deixando para o futuro próximo ou distante a possível alegria. Diz ele, sobre os que deixam escapar o presente porque não se apoderam dele, que são como os burros de carroças que os donos apressam pendurando numa vara um feixe de feno à frente de suas cabeças. Vendo o feixe sempre muito perto, mantêm a esperança de alcançá-lo, o que obviamente nunca acontece.. Há muitos humanos assim, vivendo interinamente até à morte.
De fato, apenas o presente é real, garantido, verdadeiro; e nele o tempo é pleno. O passado, a não ser pela experiência que pode nos valer algum ensinamento, já se foi, imobilizou-se num bloco que se por milagre de nossa memória pode ser retomado, também corre o risco de ser alterado, de acordo com nossos sentimentos. Quanto ao futuro, muito frequentemente chega diferente do que imaginávamos. Assim, quem se entristece com fatos passados ou se perturba demasiado com o futuro estraga sua vida.
Acho que essa consciência baliza o presidente Fernando Henrique Cardoso (1993-2003) ,que chega aos 90 anos com vigor e lucidez extraordinários. Perguntado em entrevista recente sobre o segredo de estar tão bem ao fim de nove décadas, respondeu: “Não penso no futuro”. Em seguida, sugerindo ser leitor de Heráclito, lembrou que o tempo é como um rio fluindo constantemente, submetendo tudo a modificações e transformações. Nada é estável, tudo é impermanente, frisam os budistas.
Se na prática comumente a teoria é outra, busco por esta via da escrita compreender os filósofos e me pergunto por que, na verdade, nunca nos apegamos ao tempo presente como deveríamos. E busco ajuda em Pascal, que explica: “Antecipamos o futuro por vê-lo lento demais para chegar, e assim apressamos seu curso; ou recordamos o passado para detê-lo por demasiado rápido. Somos tão imprudentes que vagamos em tempos que não são nossos e não pensamos no único que nos pertence. Por quê? É que em geral o presente nos machuca. Escondemo-lo de nossos olhos porque nos aflige e, se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Empenhamo-nos em sustentá-lo com o futuro e pensamos em dispor as coisas que não estão em nosso poder para um tempo ao qual não temos a menos certeza de chegar. Quase não pensamos no presente, e se pensamos é apenas para preparar o futuro. Assim, nunca vivemos, só ficamos à espera de viver; e nos preparando para ser felizes, é inevitável que jamais o seremos. “
Diante disso, ultimamente quando me perguntam “Como vai?”, eu repondo: “Muito bem, obrigada, apesar disso e d’Aquilo”. Porque é só no presente que o “apesar de” ganha consistência, representando os desafios inalienáveis que devemos enfrentar, já que não há dúvida de que viver é lutar.
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