Há mais de um ano, as famílias francanas têm lutado contra o vírus da covid-19. Desde então, são 803 vítimas que não resistiram ao coronavírus, mais de 34 mil contaminados, além daqueles que estão internados nos hospitais da cidade, no Pronto-socorro "Álvaro Azzuz" ou que passam todos os dias no local apresentando sintomas do vírus.
Todo esse processo hospitalar não envolve apenas aqueles que contraíram a doença ou que são vítimas dela, mas sim todo o ambiente familiar. São pais, noivos, filhos e netos que sofrem diariamente pela ausência de informações, falta de vagas em hospitais e contato mínimo com o ente querido.

Conhecidíssima cerimonialista, Juliana Costa morreu no dia 15
A família da conhecida cerimonialista Juliana Cristina Costa Silva é uma das que foi assolada pelo vírus em Franca. Aos 44 anos, ela é uma das 803 vítimas da covid-19 na cidade. O vírus, porém, não atingiu apenas ela. Seu marido Joelmir Aparecido da Silva, de 47 anos, está internado no Pronto-socorro Municipal "Álvaro Azzuz", à espera de um leito, e sua filha Karoline Costa Silva também foi internada, mas já recebeu alta.
Como conta um dos filhos de Juliana, Gabriel Costa Silva, tudo aconteceu muito rápido, em menos de uma semana. No dia 9, ela começou a ter sintomas mais graves. No dia 12, já foi internada no PS. Um dia depois, no dia 13, foi intubada no Hospital do Coração e não resistiu ao vírus. Por ter acontecido muito rápido, poucas mensagens foram trocadas.
“Minha mãe teve alguns sintomas, mas assim que foi internada, ocorreu rápido e transferência seguido da intubação, ela não chegou a falar da situação do PS e tivemos poucas interações via mensagem de texto. Ela deu entrada no HC com quadro instável, mas com a intubação, esperávamos a melhora dela”, disse Gabriel.
Após a transferência ao HC, ela passou a ter mais complicações e acabou não resistindo ao vírus. Gabriel conta que ainda estão tentando associar tudo que aconteceu. “É uma situação complicada e é algo que a gente não espera. Por ter sido muito rápido, ainda estamos aturdidos. O que mais dói é não poder ter um contato com o familiar internado e dói mais ainda não podermos ver nossa mãe por uma última vez, mesmo após o óbito”, relatou.
Sem nem ter tido tempo para lamentar a morte de Juliana, a família precisou voltar suas forças para Joelmir, que segue internado à espera de uma vaga de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
Felizmente, na última semana, ao menos uma boa notícia foi recebida pela família de Gabriel. A irmã Karoline Costa Silva recebeu alta, após lutar também contra a doença. “Minha irmã teve uma alta favorável, não teve sequelas e está bem no que tange a saúde física.”
Com tanto sofrimento, Gabriel fica sem entender as atitudes daqueles que não levam o vírus a sério, chegando até a mencionar atitudes recentes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Se a população, no geral, se conscientizasse e tivéssemos também uma estrutura governamental viável, provavelmente não teríamos passado por isso, pois enquanto várias mães morrem, a nossa figura de Estado faz piadinhas e motociatas, como se nada estivesse acontecendo”, finalizou.


Gilberto Rezende não resistiu ao vírus e morreu no dia 31 de maio
Gilberto Rezende, de 55 anos, lutou por praticamente um mês. No dia 4 de maio, ele começou a ter os primeiros sintomas e no dia 31 não resistiu e morreu. Em todo este período, sua mulher, Ismeni Rezende, seus cinco filhos e todos os seus familiares lutaram juntos contra a doença.
O momento mais complicado nesses 27 dias começou entre os dias 14 e 15 de maio. Foi nesta data que "Giba", como era conhecido, precisou ser internado no Pronto-socorro Municipal "Álvaro Azzuz". Neste momento, a família foi obrigada a se distanciar. O único contato possível começou a ser através de poucas mensagens de vídeo e algumas de texto. A maioria delas com sua mulher Ismeni.
“Enquanto ele estava no PS, a esposa dele, que era quem mais conversava com ele através de mensagens, teve até uma chamada de vídeo que ele viu dois filhos dele. Eu tive a oportunidade de conversar numa de vídeo que ele me fez, mas ele só dizia que ficaria bem e que estava um pouco cansado. A gente sabia que ele falava aquilo para preservar a gente. Mas já sabíamos que o estado dele não era bom”, contou a irmã Eunice Rezende.
Realmente, o estado já não era nada bom para Giba. Essa seria a última vez que ele veria seus filhos. Enquanto ele tentava preservar a família, os dias iam se passando. Como o leito de enfermaria não aparecia, a situação foi se piorando e Gilberto no dia 19 já precisou começar a usar máscara de oxigênio. Dois dias depois, a mulher já receberia a mensagem de que ele seria intubado.
Esse processo não foi doloroso apenas para Giba. Todos começaram a ficar "doentes" juntos, mas sempre na torcida por uma melhora, como conta Eunice. “Você não pode estar ao lado da pessoa para dar uma força ou para ter um contato com a família, que é o porto seguro. Isso é uma dor imensurável, que só quem passa sabe. É um momento muito triste. Você fica doente com o paciente que está lá. A mente fica ligada o tempo todo e pensando em fazer algo, mas tudo que pensa nada dá certo. É muito difícil”, afirmou.
No tempo em que Gilberto ficou intubado no PS, eram os médicos quem passavam as notícias. Segundo Eunice, eles apenas diziam que o quadro era estável e que ele estava regulado no sistema Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde). “Você fica na expectativa de receber a notícia de que ele recebeu uma vaga, mas sempre eles dizem que está aguardando vaga pela Cross. Sabemos que no PS estão dando tudo de si, mas, infelizmente, não é um hospital. Mas, sempre tivemos muita esperança, acreditando em Deus que ele voltaria para casa.”
No dia 27, Giba, enfim, foi transferido para o Hospital do Coração. Infelizmente, mesmo com a transferência, o estado foi só piorando. Quatro dias depois, ele não resistiria ao vírus e viria a óbito. Amargurada, Eunice relatou a forma como seriam avisados da morte do irmão. “No dia que ele faleceu, no dia 31, a médica ligou para minha cunhada dizendo que ele tinha vindo a óbito e era para ela levar o exame de covid para ver se teria velório. Ela recebeu a notícia da morte através de uma ligação da médica do Hospital do Coração”, contou.
Com bastante dor e sofrimento, a oportunidade de ter um velório confortou a família. Como o vírus já não estava mais no corpo de Giba, eles puderam se despedir. “Com o coração muito dolorido, muito triste, mas pudemos, sim, nos despedir.”
Apesar disso, 19 dias depois, nada explica a dor que Eunice e todos os familiares de Gilberto sentem. “Perder uma pessoa que você ama é muito triste e doloroso. Perdemos ele para um vírus desconhecido, que não sabemos onde está e você não sabe como a pessoa vai reagir, se vai superar. Então, são muitas perguntas e poucas respostas”, finalizou.

Demeraldo Vicente sobreviveu ao vírus, mas continua sob tratamento domiciliar
Demeraldo Vicente de Lima Júnior, de 30 anos, felizmente vem derrotando o vírus, mas a batalha tem sido dura e, graças à família, ele mantém suas forças. Em 22 dias, ele contraiu o vírus, passou a ter sintomas mais graves, ficou internado por 10 dias no PS e saiu de lá antes mesmo de receber alta. Neste tempo, por conta da forma como era tratado por parte da equipe de enfermagem, ele mandava mensagens como: “estou querendo morrer, viu”; “As enfermeiras são despreparadas”; “As mulheres dão risada”.
O primeiro baque veio quando Demeraldo começou a ter sintomas mais graves, há, mais ou menos, 22 dias. Ele até chegou a ser medicado, mas não teve melhora alguma. Dois dias depois, já precisou ser internado no Pronto-socorro "Álvaro Azzuz". A irmã Érika Gracielle Taveira relata que todo esse processo foi muito complicado. “Essa internação dele foi bem complicada, já que ele ficou quatro dias numa cadeira usando oxigênio, que ele não conseguia respirar sem.”
Para tentar ajudar e ter um contato familiar com o rapaz, a mãe de Demeraldo, que é enfermeira e trabalhou durante anos no PS, pediu ao médico responsável para ajudar no tratamento. Ela foi autorizada, mas só por dois dias. “Minha mãe pediu para o médico deixá-la ajudar a medicar e colocar o oxigênio. Ele liberou e ela começou a fazer esse procedimento. Uma outra enfermeira não gostou, elas bateram boca e essa funcionária fez uma reclamação na ouvidoria. Minha mãe, então, ficou proibida.”
A única forma possível então de ter contato com Juninho passou a ser por mensagem de texto. Nas mensagens, ele relatava o sofrimento vivido, contando que algumas enfermeiras o tratavam com indiferença, por ele prestar apoio a outros pacientes. Foi quando mensagens dele pedindo para morrer, ao invés de passar por todo esse sofrimento, começaram a chegar. “Ele trocava algumas mensagens conosco, inclusive, sobre a falta de atendimento, falta de funcionários e funcionários sobrecarregados. Então, o psicológico dele ficou muito abalado, tanto é que nós fomos ficando enlouquecidos com a situação que estava lá dentro”, relatou Erika.

Juninho dizendo para a irmã que preferia morrer, ao invés de ficar no PS
Esse sentimento começou quando Demeraldo percebeu que sua situação estava complicada e ele sentia que nada seria feito. “Ele solicitou uma vaga na UTI numa quinta-feira e, três dias depois, ainda estava na cadeira. Aí ele pergunta pra uma enfermeira o porquê dele não ter ido pra cama e a funcionária responde que é porque existem pessoas em condições piores.”
Já respirando sozinho e pronto para ter alta, mas o médico argumentava que faltam três injeções para serem aplicadas, que, de acordo com a família, foram negadas pelas enfermeiras. Toda essa situação fez com que a família se sentisse na obrigação de tomar uma atitude. O pai de Juninho pegou o carro, foi até o pronto-socorro e o tirou do local, após pedido do mesmo. “O vírus é algo que a gente não consegue explicar. Temos sofrido muito com ele, só de ver a situação que ele está ali. Tanto é que na quarta-feira meu padrasto o tirou do hospital, por conta das condições que ele estava vivendo ali”, contou.
Agora, Demeraldo está recebendo tratamento dentro de casa, aos cuidados de sua mãe e, segundo Erika, tem melhorado. Pelos próximos seis meses, ele precisará receber acompanhamento e, para que possam custear todo esse tratamento, a família organizou rifas e pretende realizar um bazar. “Mesmo com ele em casa, não conseguimos uma tomografia, porque, devido ao momento que estamos vivendo, ninguém tem uma reserva para pagar”, finalizou.
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