PÉSSIMO HISTÓRICO

Território do medo: região da Unesp é marcada por histórias de assédio

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Dirceu Garcia/GCN
Depois que uma estudante foi estuprada dentro de sua própria casa, medo se tornou ainda maior
Depois que uma estudante foi estuprada dentro de sua própria casa, medo se tornou ainda maior

A violência que ronda as proximidades da Unesp de Franca, no Jardim Petráglia, não é recente. Há anos o local é cenário de roubos, invasões, assédios e, até hoje, as autoridades do município não conseguiram uma solução para o problema. Apesar de lidarem com a insegurança da região, os moradores – principalmente as mulheres – têm sentido ainda mais medo depois que uma estudante foi estuprada dentro da própria casa, no fim do último mês.

Foi no dia 27 de maio, quando uma estudante de 21 anos saiu do banheiro e se deparou com um homem desconhecido dentro do seu quarto. Ele a estuprou, ejaculou na vítima e ainda a forçou a levá-lo até o portão para que ele fosse embora. A estudante até chegou a gritar por socorro, mas ninguém ouviu.

Duas semanas antes do crime, o mesmo homem já circulava pela região. Uma moradora de república, que prefere ter sua identidade preservada, estava descarregando seus pertences no carro para voltar para sua cidade, junto dos pais. Em uma fábrica, na frente da república, os funcionários participavam de uma festa.

“Eu estava com meus pais. Nós estávamos na rua carregando algumas coisas pesadas e um desses homens veio oferecer ajuda. Nós não aceitamos e agradecemos, porque não precisávamos e também por causa da pandemia, seria uma situação em que ficaríamos muito expostos. Enfim, ficamos carregando meus pertences durante algumas horas e esse homem teimava em ficar perto, conversando e tudo mais. Eu não prestei muita atenção, porque não gosto muito de falar com os homens daquela fábrica devido ao péssimo histórico de assédio verbal e olhares indiscretos, porém, meus pais às vezes trocavam algumas palavras”, disse.

De acordo com a moradora, ela e os pais já estavam terminando de colocar todas as coisas no carro, mas o homem continuava a se oferecer para ajudar. Todos começaram a desconfiar da atitude bastante solícita do rapaz, o que chegava a ser desagradável. “Quando estávamos entrando no carro, ele observou e veio até a gente de novo, mas para perguntar se ficaria alguém na casa. Na hora eu e meus pais achamos extremamente suspeito, e mentimos. Falamos que iam ficar várias moradoras na casa, pois nosso medo era o de invasão, que é o que mais acontece na nossa rua, então falamos isso para tentar desestimular qualquer tentativa diante daquela pergunta suspeita.”

Cerca de 15 dias depois, ela soube do caso de estupro que aconteceu próximo à república. “Para minha surpresa e profundo desgosto, o sujeito que aparecia nas imagens era extremamente parecido. As roupas, a parte visível do rosto, estatura, até mesmo o comportamento corporal, o jeito de andar, com o qual eu tinha interagido duas semanas atrás”, falou.

Muito abalada, a moradora procurou ajuda para denunciar o homem que tinha encontrado há dias e que parecia com o que, pelas imagens de segurança, estuprou a estudante dentro de sua casa. O criminoso foi identificado, graças ao relato, e era o mesmo funcionário da fábrica em frente à república. Os policiais encontraram o homem em uma obra na mesma rua onde o crime foi praticado e ele foi preso.

Relato das estudantes
Gabriela Rangel é estudante de direito na Unesp e afirmou que a violência é uma realidade da região. Por conta disso, evita ao máximo sair sozinha na rua, mesmo durante o dia. Além de invasões e roubou, ela e diversas outras mulheres sofrem diariamente assédio por parte dos homens que passam ou trabalham por ali.

“A questão do assédio é muito acima da média. Às vezes, é insuportável sair na rua, muitas mulheres são perseguidas por carros, importunadas... Inclusive, já me aconteceu coisas nesse sentido, acredito que com a maior parte das mulheres também”, disse Gabriela. Para ela, por ser um local afastado, as pessoas sentem que qualquer atitude pode ser impune.

“As mulheres não se sentem seguras quando passam em frente às fábricas em horário de almoço e de saída, mas na minha visão, pelo menos, o grande problema é em relação aos carros, pessoas que estão de passagem. Tem muitos assédios 'mais leves', que infelizmente são mais corriqueiros, como assobiar, gritar, buzinar, mas acho que a própria formação da região, que tem muitos terrenos baldios, tem espaço para a pessoa extrapolar até nisso, o que já não é aceitável, mas perseguindo, oferecendo carona, abrindo a porta e, às vezes, até se tocando na rua, observando as meninas passarem.”

No dia 8 de junho, Gabriela, em nome de um grupo de mulheres, usou a tribuna da Câmara Municipal para pedir mais segurança na região. Solicitou que haja uma audiência pública para discutir propostas para diminuir a violência, como mais iluminação, por exemplo. Segundo a estudante, alguns vereadores se solidarizaram com o assunto, mas até agora nenhum projeto foi encaminhado.

Letícia Emiliana é estudante de serviço social e também mora nas proximidades da universidade. A casa dela já foi invadida por bandidos, mesmo com alarme, e a sensação de medo fez com que coisas simples, como pôr o lixo na rua à noite, tivessem de ser evitadas.

“As meninas têm muito medo. Aqui tem muitas fábricas e, se existia esse homem, existem outras pessoas que são capazes de fazer isso. Somos bem assediadas nessas fábricas quando vamos, por exemplo, buscar algum texto em xerox e passamos por lá, é bem constrangedor. Além disso, algumas pessoas reclamaram que estavam tocando a campainha de seus apartamentos, mas lá fora não tinha ninguém. Temos que tomar muito cuidado com entregas ou qualquer pessoa na porta, tentar não sair para fora. Esses dias, logo após o caso de estupro, tocaram o interfone aqui perto de casa, eu até ia descer, mas olhei para a janela e não tinha ninguém. Foi bem em seguida do que aconteceu, então a gente fica com medo”, disse Letícia.

A estudante falou que esses casos são comuns e que as meninas compartilham as histórias em grupos nas redes sociais para que outras possam ser alertadas. “No último final de semana, uma menina estava passando por um bairro aqui perto à tarde e um cara simplesmente tirou o pênis para fora e começou a se masturbar. É muito perigoso.”

Mobilização feminina
Depois do caso de estupro que aconteceu no final de maio, cerca de 30 mulheres se uniram, através de um grupo, para tentar alternativas que garantam o mínimo de segurança. De acordo com Maria Clara Martin, estudante de relações internacionais e participante do grupo, é uma forma de demonstrar a indignação, não somente com a situação da região, mas com o descaso por parte do poder público, já que o problema é comum há anos.

“O intuito do grupo foi de se organizar e transformar os sentimentos de justiça e revolta em alguma ação mais efetiva. Então, ele se mobiliza em torno de objetivos, como melhor iluminação e fiscalização mais eficiente, que possam trazer mais segurança e atenção para os bairros e moradores ao redor do campus da Unesp. Essa ausência de atenção traz insegurança e abre brechas para acontecer os episódios de violência nas redondezas da universidade, principalmente contra mulheres”, disse Maria Clara.

A estudante disse que agora que a movimentação diminuiu, por conta das aulas remotas, o local ficou ainda mais perigoso. “Nós contatamos a polícia quando esses casos acontecem, mas na maioria das vezes ou eles demoram muito ou simplesmente não vêm, o que resta pra gente é se trancar e se esconder dentro das casas ou acompanhar toda aflição à distância pelos relatos simultâneos nos grupos”, disse.

O grupo de mulheres iniciou um diálogo com a Unesp para que a universidade entrasse em contato com a Prefeitura de Franca. Segundo as participantes, foi enviado um ofício sobre o assunto, mas ainda não tiveram resposta, então estão tentando outros meios de chamar atenção para os bairros próximos.

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