Até quando iremos suportar?

Por Thereza Ricci | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

 Numa das crônicas que li há algum tempo, o cronista comentava sobre a vida dos pobres no Brasil. Dizia ele que todos nós gostamos de pobres e gostamos tanto que nada fazemos para que eles se tornem menos pobres. Comentava, ainda, que a literatura brasileira nada seria ou desapareceria se não fossem os pobres. Inclusive afirmava que Guimarães Rosa, laureado escritor brasileiro, era o maior pauperismo da nossa literatura. Isto na visão dele.

Fazendo uma reflexão sobre o que escreveu o cronista, achei que ele exagerava quando dizia que todos nós gostamos de pobres, mas nada fazemos por eles. Isso não é verdade, pelo contrário, quero que todos os brasileiros deixem de ser pobres. Mas, por outro lado, ele tem razão em certos aspectos. Ao dizer, por exemplo, que muita gente faz carreira rápida na política, com promessas de melhorar a vida dos desvalidos. Haja vista a situação dos brasileiros do Nordeste, que são usados há décadas para eleger políticos, que depois de eleitos, esquecem as promessas e o povo que os elegeu e passam a trabalhar em prol de seus próprios interesses e de seus parentes e amigos. 

Agora mesmo, atravessamos um dos piores momentos da nossa história. Já vivi bastante para dizer que jamais presenciei os horrores por que passam as famílias brasileiras.

Em março de 2020, vindo de terras distantes, trazidos por um brasileiro, foi introduzido em nosso país um vírus desconhecido de nome coronavirus19, que tem feito estragos significativos entre nós. E daí em diante, estamos sofrendo não só por causa desta pandemia disseminada pelo país afora, mas também pela negligência por parte do governo em combater a doença, o altíssimo número de desemprego, dor, fome, falta de leitos, insumos, testagem e vacinas já reconhecidas pelos cientistas, a única forma de nos livrarmos deste mal. Somada a isso, crescem as atitudes autoritárias do presidente todos os dias.

 Nos primeiros meses da chegada do vírus em nosso país, médicos, cientistas e especialistas em saúde tentaram convencer as pessoas de que o vírus não escolhe ninguém para infectá-lo, explicando que muitos iriam contrair vírus, mas sintomáticos ou pré- sintomáticos teriam sintomas leves da doença sem muita preocupação. Quanto ao contágio, apesar de estarem bem, transmitiriam esse vírus mortal para outras pessoas saudáveis. Para isso, foi publicado e aconselhado pelos infectologistas, na televisão e outros meios de comunicação, cuidados que deveríamos ter para nos livrarmos do contágio, ficando em casa, usando máscaras, lavando as mãos constantemente, promovendo distanciamento social e ainda evitarmos espaços fechados.

 Não fizemos ou se fizemos foi pouco ou nada. A começar pelo governo, quando o presidente da República, que não é médico, ironiza entre seus seguidores a gravidade da doença, como se fosse uma gripezinha. Ou quando proclama, propaga o uso de remédios ineficazes comprovado sua ineficácia cientificamente. Também nomeou um general do Exército para comandar o ministério da Saúde, e ele, que não entendia nada do assunto, ignorou os esforços feitos por cientistas para trazer a vacina para os brasileiros. Ambos, presidente e ministro, promovem grandes aglomerações e dão mau exemplo o tempo todo, não usando máscara em público. Com isso, o povo vai para as ruas, entra em festas, ignora o uso das máscaras e, ao final, sem vacina e por tudo isso, nosso país chega hoje à marca triste de quase 500 mil brasileiros que perderam suas preciosas vidas. Por negligência, imperícia de um governante que nunca pensa no povo que o elegeu, mas, em si mesmo, no poder e na sua prole. Por isso, como sempre acontece, são os mais pobres que mais se infectam, indo para o trabalho aglomerados em ônibus ou trens, ou desempregados em busca de comida para não morrer de fome, vivendo em casas de cômodos ou nas filas da Caixa em busca da esmola do governo. Estes, quando infectados, ficam em fila indiana nos hospitais lotados, esperando um leito para se tratar, quando não morrem sentados em uma cadeira. Estamos cansados de ouvir, todos os dias, um número exorbitante de brasileiros perdendo a vida por falta de vacina. É preciso dar um fim nessa tragédia sem precedentes, por que não aguentamos mais.

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