“Todos os homens têm medo. Todos. Quem não sente medo não é normal. Isso nada tem a ver com a coragem.” São frases de Sartre, no seu livro “Os caminhos da liberdade”. Estamos sempre com medo de alguma coisa. De não conseguirmos ser bem sucedidos numa prova; de não estar à altura de um cargo para o qual fomos guindados ou de alguém que escolhemos como parceiro; de sofrer algum acidente; de ver as pessoas que amamos em risco. Mais do que nunca na Era Covid temos medo da doença, do sofrimento, de não encontrar um leito disponível, da solidão, da internação, da entubação, da asfixia, da morte.
Entretanto, precisamos estar atentos para que esse medo não nos domine, já que é um sentimento limitador, coercitivo, estressante., que pode minar nossa autoconfiança e provocar doenças físicas e psíquicas. É necessário estarmos conscientes dos perigos que nos cercam e buscar em nosso âmago a coragem de dominá-lo, para que possamos avançar, mesmo assumindo riscos e correndo perigos, o que é próprio do viver.
Embora por essência paralisante, o medo pode desencadear no cérebro de certos humanos uma química que paradoxalmente leva a ações desencontradas, estapafúrdias, irracionais, como se o sujeito que está sob efeitos da emoção tentasse disfarçar agindo de forma contrária. Por exemplo, participando de um passeio de motos num dia em que o país acusa o crescimento do número de mortes diárias por coronavirus. Pressionando jogadores a participar de um campeonato com todos os perigos que isso representa como estímulo para a aglomeração. Chamando de “um tal Queiroga“ seu ministro da Saúde e de “quadrúpede” uma repórter da CNN BRASIL, sob olhares estupefatos de jornalistas. Afirmando que é melhor se contaminar com o corona vírus que tomar vacina. Entrando num avião estacionado na pista sem nenhum motivo a não ser testar sua popularidade, avaliar se seu projeto de dividir a nação segue firme, e taxar de jegues os que o chamam de “genocida”.
Jair Bolsonaro passou a ter muito medo dessa palavra, “genocida”, segundo informa em artigo publicado na terça-feira no Estadão a editora Rosangela Bittar.Há razões para tal. Transcrevo um trecho: “O ex-primeiro ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, avisou a Bolsonaro, em recado passado ao então embaixador do Brasil em Israel, Paulo César Meira de Vasconcellos, de que corre o risco real de ser investigado pelo Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia. As denúncias que o atingem tipificam crimes contra a humanidade, em especial genocídio dos povos indígenas. São assinadas por associações de advogados de direitos humanos, Organizações Não Governamentais e, principalmente, pelo cacique caiapó Raoni Metuktire,91 anos, curado da Covid e da depressão que contraiu após a morte da mulher, no ano passado. No Brasil, Raoni é um índio, mas para as organizações internacionais, um protagonista, símbolo do fascínio mundialmente atribuído aos povos da floresta”
E os 500 mil mortos pela Covid, número medonho ao qual chegamos nas últimas horas e que refletem a gestão presidencial desastrosa, desumana e caótica da pandemia? Nenhuma dúvida de que eles integrarão, via relatório da CPI, o processo no Tribunal Internacional. De nada adiantará ter generais de joelhos, juízes dúbios, ministros acovardados, especialistas em fake news, filósofos de quinta categoria, aliados sinistros, gabinete do ódio. Em Haia o olhar da justiça será isento e avesso a qualquer tentativa de intromissão. Com razão Jair Bolsonaro tem vivido o assombramento da palavra “genocida”, o pavor da palavra “Haia”, o pesadelo da palavra derrota. Por que se ele não for reeleito, poderá ser preso e levado para a Corte Internacional a fim de ser julgado por crime contra mais de meio milhão de brasileiros mortos.
Se isso acontecer, será um vexame para o Brasil que já viveu dias bem diferentes desses que podem vir a ocorrer na cidade holandesa. Ruy Barbosa, brasileiro que ali participou da Conferência de Paz, em 1907, notabilizou-se a tal ponto por sua inteligência, cultura e ética, que recebeu do Barão do Rio Branco o título de “O águia de Haia”. É dele, aliás, uma frase que cai como luva nesse nosso tempo de trevas: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto...”
Mais atual impossível.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.