'CALVÁRIO'

Leitos improvisados em cadeiras, falta de profissionais e de remédios: a dura rotina de quem luta pela vida no PS

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo pessoal
Patrícia Busqueiro, que ficou internada no PS por cinco dias, conseguiu vaga no Hospital do Coração e teve alta nesse sábado, 29.
Patrícia Busqueiro, que ficou internada no PS por cinco dias, conseguiu vaga no Hospital do Coração e teve alta nesse sábado, 29.

Em média, cerca de 500 pessoas passam diariamente no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” para atendimento exclusivo da covid-19. Destes pacientes, alguns evoluem para o quadro mais grave da doença e precisam de assistência hospitalar. Mas com os hospitais cheios, a unidade, que serve apenas como porta de entrada ao atendimento, nunca precisou abrigar tanta gente à espera de um leito. Francanos que se recuperaram nesta batalha contra o vírus relatam o desespero e condições de quem aguarda a liberação de uma vaga que, muitas vezes, não existe.

Apesar de este ser o pior momento, casos em que pacientes tiveram que esperar no PS acontecem desde o início da pandemia. Carlos Ivan, de 50 anos, foi um dos primeiros que sofreu o drama de não ter um leito de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) disponível, ainda em agosto de 2020. Felizmente, agora recuperado, Carlos se preocupa com o número de pessoas aguardando vaga e a pouca consciência da população.

“Eu fico muito preocupado, justamente por tudo o que passei. Foram momentos muito difíceis, isso ainda no ano passado, quando o grau de infecção estava até razoavelmente baixo em relação ao que está hoje”, disse.

Carlos Ivan, que tinha passado pelo seu convênio médico na época, deu entrada no Pronto-socorro no dia 8 de agosto já com a saturação muito baixa, cansaço, dor no corpo e febre. Em poucas horas precisou ser tratado com um catéter, máscara de oxigênio e, por fim, a intubação.

“Tenho poucos flashs de situações que me lembro, já estava em estado de confusão. Me colocaram em uma maca e era uma correria de gente passando para lá e para cá. Recordo de um rapaz que ficava na minha frente e estava intubado, também aguardando vaga. Eu olhava aquilo e ficava muito inconformado”, falou Carlos.

Quando tudo isso aconteceu, o Pronto-socorro tinha apenas cinco pacientes esperando por leito em algum hospital. Hoje, são cerca de 50. Carlos só foi entender de fato o que acontecia com ele quando, 11 dias depois, acordou de um coma no Hospital do Coração. Ele tinha conseguido a vaga 48 horas depois da entrada no PS.

“Eu tive noção do risco que eu estava correndo só depois que eu estava no Hospital do Coração, porque vi a aparelhagem total que tem lá, que a gente fica ligado 24 horas. Depois que eu acordei do coma e fiquei me recuperando, eu vi a quantidade de profissionais lá na UTI. No Pronto-socorro eu não tinha essa recordação, nem tinha leito de UTI na época. A pessoa que eu vi intubada estava com o equipamento mínimo possível”, lembrou. “Graças a Deus eu saí de lá, mas por todo esse calvário que passei, é muito triste saber que tantas pessoas estão lá dentro esperando vaga e outras aglomerando aqui fora. O relato da minha família é de muito sofrimento”.

Se as 48 horas que Carlos esperou por um leito foram dramáticas, os relatos de quem passou por isso neste mês são muito piores. Patrícia Roberta Busqueiro, de 44 anos, ficou cinco dias internada na ala covid do PS e se deparou com um ambiente abarrotado de pacientes e condições de atendimento claramente improvisadas para dar conta da alta demanda.

Depois do período, Patrícia conseguiu uma vaga no Hospital do Coração e teve alta nesse sábado, 29. Ainda se recuperando, foi a filha Kélyni Busqueiro quem contou como foram esses dias difíceis. O pior, segundo ela, foi o medo que a mãe sentiu de morrer.

"Enquanto ela estava no PS estava bem complicado a situação, porque às vezes faltava medicamento. Ela precisava tomar um certo tipo de medicamento e não tinha. Ficou muito assustada também com todos muito desesperados. Enfermeiras, pacientes, todo mundo com os nervos à flor da pele. Depois que ela foi transferida para o Hospital do Coração, acho que Deus disse: 'agora eu vou fazer um milagre'”, falou Kélyni.

As condições ideais para um paciente são em ambiente hospitalar. Kélyni relatou que durante os dias no Hospital do Coração, tudo o que era necessário para uma boa recuperação foi oferecido. “Foi uma benção, só tenho que agradecer. Posso arriscar dizer que lá está melhor do que atendimento particular. Em vista do que minha mãe passou no PS, ela no Hospital do Coração estave no céu”.

Quem também acompanhou os dias de “guerra” dentro do Pronto-socorro foi Milmes Marilda. Ela é mulher de Almir Martins Moreira, de 54 anos, que saiu do “Álvaro Azzuz” na última semana e agora está em um leito no Hospital do Coração. Apesar de o marido ainda estar internado, Milmes já se sente mais aliviada por ter conseguido uma vaga.

“Levei o Almir no Pronto-socorro já com a saturação muito baixa. Quando cheguei lá, consegui entrar com ele no consultório e explicar a condição dele, que é cardiopata grave, e ele foi medicado. Sentaram ele naquelas cadeiras de receber soro, ele morrendo de dor nas costas, morrendo de frio. Para tudo quanto é canto que você olhava a cena que se via era paciente recebendo oxigênio na cadeira e apenas duas enfermeiras no plantão no fim de semana”, relatou a mulher.

De quinta para sexta-feira da semana passada, Almir passou mal e teve que ser intubado no sábado. Já na madrugada seguinte, conseguiu uma vaga em hospital. “Contratamos um infectologista por conta própria, mas quando ele iria ver o Almir, ele foi transferido. Agora não tenho do que reclamar, mas (por) tudo o que eu vi lá no PS, alguém tem que fazer alguma coisa. São condições sub-humanas”, disse Milmes.

De acordo com a última atualização da Prefeitura, em observação no “Álvaro Azzuz” estão 75 pacientes. Destes, 51 estão regulados para uma vaga de UTI e 16 para enfermaria, sendo que oito estão intubados na ala de emergência.

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