O mistério dos beijos

Por Sônia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Por todo canto da cidade podemos ver os beijos, chamados botanicamente de hibiscus. Nosso olhar os flagra em fileira, formando cercas vivas; solitários em calçadas; misturados nos jardins; em touceiras baixas ou árvores.

O nome científico dessa flor está ligado pela etimologia à deusa egípcia Isis, cujo culto foi de grande importância na Antiguidade, especialmente no Império Romano. No Brasil, trazidos não se sabe bem por quem, adaptaram-se facilmente, graças à luminosidade dos trópicos, pois gostam e precisam, no mínimo, de quatro horas de sol por dia. Vivem por muito tempo; algumas espécies atravessam décadas. Existem mais de 300 e há até uma comestível, com a qual são produzidos chás, geleias e remédios. Mas é preciso saber identificá-la. Todas as outras são tóxicas.

Quanto mais quente o clima, mais folhosas ficam e mais flores produzem. Embora essas durem apenas 24 horas, a quantidade de botões que surgem da noite para o dia é tal que nem percebemos que umas murcham enquanto outras irrompem, quase de forma concomitante. Foi por gostar da variedade e do esplendor dos beijos que há cerca de um ano plantei alguns pés no meu quintal e desde então eles estão sempre floridos. Assim, me causou estranhamento, há dias, ver na grama vários botões que sequer haviam entreaberto. Não dei muita atenção. Foi só um registro fugaz, como acontece ao nosso espírito em relação a pequenas coisas: apenas sinalização rápida de que algo escapou de sua normalidade mas a mente prefere não registrar, como se optasse por ficar acomodada. Entretanto, da terceira vez a surpresa ganhou corpo e me perguntei: o que será isso? A indagação voltou a me ferroar nos dias seguintes. Então me pus a caçar os predadores.

Achei de início que fossem pássaros, porque muitos deles voam pra lá e pra cá no quintal que, embora pequeno, atrai as aves pelo colorido das flores. Quem sabe os olhinhos delas estivessem confundindo botões com frutos? Fiquei atenta durante horas e nada. Os passarinhos iam e vinham mas nada de bicar os botões.

Suspeitei de formigas grandes, daquelas de fortes tenazes que em uma noite deixam roseira inteira nua, levando folhas para dentro de invisíveis túneis. Mas nada achei das cortadeiras, só um formigueiro mixuruca abrigando espécie minúscula, com muito esforço capaz apenas de arrastar algum cristal de açúcar.

Mudei o foco para lagartas porque uma delas, bem grande, havia consumido todas as folhas de um pé de melissa, sendo encontrada sonâmbula entre pedregulhos próximos. Mas ela só gostava de folhas doces e tenras; por que picaria a haste de um botão pesado? Além do mais, provavelmente por indigestão, tinha morrido há dias sem deixar descendentes.

Decidida a decifrar o mistério, pois a grama ficava a cada manhã mais juncada de flores abortadas, dediquei-me a afastar folhas e perscrutar caules e galhos com uma lente. Até que achei neles agarrados uns insetos que as crianças chamam de maria-fedida, por razões óbvias. Acreditei ter descoberto as predadoras de minhas flores. Usei um produto especial para desalojá-las sem matá-las, pois ando muito suscetível a mortes. Mas a alegria durou apenas 24 horas; na manhã seguinte lá estavam novos botões caídos.

Se não eram pássaros, lagartas, formigas-cabeçudas, marias-fedidas, o que estaria destruindo meus beijos? Tive um clic e fui ao Google, oráculo de Delfos do nosso tempo. E à minha pergunta- “Por que caem os botões dos hibiscus?”, ele respondeu: “É por conta da queda da temperatura”.

Fazia todo sentido! Nas últimas semanas os termômetros tinham despencado durante a noite. A culpa era do frio. Para testar, bem cedinho cheguei perto de um botão amarelo e o

toquei de leve. Num segundo estava na grama, junto a uma dezena.

Em relação às plantas, não sei o que fazer nem o Google soube me dizer. Quanto a nós, humanos, quando o tempo ruim dura mais que o suportável, precisamos acionar nossas reservas internas de calor humano para, resistindo em espaços sombrios, não deixarmos cair os botões. Se assim o fizermos, as flores que nos singularizam hão de desabrochar porque “o amanhã, mesmo que uns não queiram/ será de outros que esperam/ o dia raiar.” Salve Guilherme Arantes!

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários