Na mesma sexta-feira em que registrou o recorde em mortes por covid num só dia, com 18 vítimas, Franca também teve o primeiro caso de paciente que morreu sem conseguir ser internado, nem mesmo, no pronto-socorro. A vítima foi o servente de pedreiro Erivelto António Gabriel, de 43 anos, que morreu por complicações da doença no início da noite desta sexta-feira, 28, em sua casa no Parque Vicente Leporace, zona norte de Franca.
O ajudante de pedreiro estava diagnosticado com a doença desde o dia 17 de maio e chegou a passar no Pronto Socorro Álvaro Azzuz várias vezes em busca de atendimento, mas sempre foi orientado pelos médicos a voltar para casa. Não havia vagas disponíveis nos leitos de enfermaria ou UTI dos hospitais da cidade e o PS estava sobrecarregado, com mais de 50 pacientes espremidos e "internados" em macas e cadeiras.
Dois dias após testar positivo para Covid-19, Erivelto chegou a conceder uma entrevista ao portal GCN, na recepção do PS. Era noite de 19 de maio e Erivelto esparava há horas pelo atendimento.
Revoltado com a demora, que chegou a mais de 7 horas, Erivelto relatou os sintomas e a situação do Pronto Socorro. “Estou com dor no corpo, ardendo em febre e eles (funcionários do PS) não dão atenção. Teve gente que precisou chamar a Polícia. Tá tudo errado isso aqui. Tem gente desde às 10 horas esperando atendimento e até agora nada. Imagina a hora que eu vou ser atendido, que cheguei às 11h? Está tudo errado. O sentimento é de revolta. Precisou chamar a Polícia para ter atendimento”, disse o ajudante.
Mesmo com os sintomas e o nervosismo por estar aguardando atendimento há mais de sete horas, o rapaz estava confiante de que venceria a covid. “É uma doença que a gente está vendo tudo o que tá acontecendo. Mas a gente tem muita fé em Deus e que nada vai acontecer. É pedir pra Deus mesmo. Porque isso aqui (PS) é uma pouca vergonha. Não vira nada”, lamentou.
Depois de passar outras vezes no Pronto Socorro, todas sem conseguir ser internado, no início da noite de ontem, Erivelto apresentou uma hipertermia e, na sequência, teve uma crise convulsiva. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou a ser acionado, mas quando chegou no local a vítima já estava sem vida.
"Ligamos para o Samu, porém ocorreu uma demora. Quando chegaram, foram realizados todos os procedimentos, porém já era tarde. Ele já estava sem vida", lamenta a irmã, Fernanda. "Um pai de família, trabalhador. Perdeu a batalha contra a covid".
Erivelto era viúvo, mas estava noivo. "Eu perdi ele. Essa maldita doença levou ele embora. Ainda nessa semana ele passou muito mal. Eu tentei ligar no Samu, mas o Samu simplesmente falou que não poderia ir, porque estavam com apenas duas ambulâncias e estavam atendendo os idosos", disse sua noiva, Thalita Freitas, revoltada. Ele deixa uma filha de apenas 12 anos. O corpo dele foi sepultado na manhã deste sábado, 29, no cemitério Santo Agostinho, em Franca.
A secretaria de Saúde foi procurada no início da manhã deste sábado para explicar como foi o atendimento oferecido a Erivelto Gabriel e porque ele não foi internado. Até o fechamento desta reportagem, por volta de 11h40 deste sábado, 29, ainda não havia uma posição oficial. As explicações da secretária de Saúde serão incluídas no texto assim que foram encaminhadas à reportagem.
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