Pela primeira vez na sua história, a cidade de Franca amanhece sem que seus moradores possam tomar café na padaria, ou mesmo ali comprar seu pãozinho francês, pegar o ônibus e ir para o trabalho. Nada do trânsito cada vez mais intenso pelas avenidas Hélio Palermo, Alonso Y Alonso ou Major Nicácio nos horários de pico. A ordem, para quase todo mundo, é uma só: ficar em casa.
O momento, apesar de inédito, tem uma justificativa que tem se tornado cada vez mais inatacável. A cada dia que passa, mais francanos ficam doentes, passam horas esperando uma vaga para serem atendidos com alguma dignidade nos hospitais públicos e, muitos, morrem sem nem mesmo poderem ser velados pelos seus familiares.
Quase 20 já morreram no pronto-socorro, enquanto esperavam por leitos que não existem. No total, 28.876 pessoas pegaram a Covid-19 em Franca. Até agora. É como se o Estádio do Lanchão, onde cabem cerca de 15 mil pessoas, ficasse lotado duas vezes - só de gente da cidade doente.
Mas os números ficam mais tristes a cada olhar. Apenas nos últimos cinco dias, dez pessoas morreram no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”. Deixaram seus amigos, filhos, pais, amores, sem a menor possibilidade de um abraço de Adeus. Morreram sem ter a oportunidade de lutar pela vida com todas as armas disponíveis, porque não conseguiram sequer uma vaga de internação num hospital. Morreram numa sala comum, onde outras quase 50 pessoas enfrentavam a mesma realidade, alguns sentados em cadeiras que nem de longe lembram macas, enquanto lutavam pra respirar.
São 623 vidas que foram interrompidas por conta da Covid nos registros oficiais de Franca. Cento e vinte delas se foram apenas neste maio. Apesar dos números, anunciados diariamente pela Vigilância Sanitária, e da interminável quarentena que nunca funcionou na prática, mesmo aplicada em sucessivas versões há mais de um ano, muita gente parece indiferente ao drama das vítimas e ao tamanho do problema. Jogos de futebol, torneios de pipas, festas em chácaras, bares, supermercados, e até a comemoração do campeonato paulista. Sempre lotados de gente sem máscara, aglomerada. Sorvedouros de vírus. Seus participantes, indiferentes à dor de muitos, fazem roleta-russa com a própria vida – e com a de tantos outros.
Em um casamento realizado em uma chácara da região de Franca no final de abril, doze pessoas dormiram no mesmo quarto depois dos festejos. As doze ficaram doentes. Duas morreram e uma ainda está internada. Não eram idosos. Não eram pacientes terminais. Tinham anos de vida pela frente. Tudo interrompido, pelo vírus.
As últimas versões de quarentena foram solenemente ignoradas. A consequência do desrespeito é flagrante. Uma explosão na quantidade de doentes e um crescimento assustador no número de mortos. O freio, antes da catástrofe anunciada, se tornou inevitável. O pior pesadelo de muitos negacionistas, adiado ao limite, acabou por se tornar realidade: um lockdown.
Pelos próximos 15 dias, apenas supermercados, varejões, farmácias, padarias, açougues e peixarias, restaurantes e lanchonetes, além de postos de combustíveis, podem funcionar. Ainda assim, com exceção dos postos, só no sistema de entrega. E todos terão que interromper suas atividades às 20h. Depois deste horário, ninguém nas ruas, sob nenhuma justificativa, salvo emergências médicas.
Nesta quinta-feira, outras cidades da região também vão fechar tudo, como Restinga, Patrocínio Paulista, Itirapuã, São José da Bela Vista, Cristais Paulista, Ipuã, Ibiraci e Jeriquara. No total, 22 municípios das regiões de Franca a Ribeirão adotaram medidas severas – 11 delas, lockdown.
Em Franca, quem for pego transitando pelas ruas sem motivo pode ser parado por algum dos agentes da fiscalização, polícia militar, civil, guarda municipal ou vigilância sanitária e será orientado a voltar para casa - imediatamente.
Apesar do decreto publicado pelo prefeito Alexandre Ferreira (MDB) prever multas e notificação ao Ministério Público, exatamente quais medidas serão tomadas pelas autoridades diante de cada caso ainda não está totalmente claro, já que os agentes devem agir com “ênfase na educação e conscientização”, segundo o documento.
Alexandre prometeu agir com firmeza. Além das ações educativas, quem insistir em desrespeitar as regras pode ser processado pelo crime de desobediência e, no limite, por propagação de doença contagiosa.
Para as empresas que desafiarem o decreto e decidirem abrir as portas, a punição é mais clara e vai de multas que partem dos R$10 mil, processos administrativos e até a interdição do estabelecimento. Tudo a depender da avaliação dos fiscais.
O desespero para as lojas, fábricas e escritórios da cidade, que aguentaram até agora, exaustos do constante abre-fecha, enquanto os impostos, os juros bancários e as folhas de pagamento não param, é real. Ainda nesta quarta-feira, representantes da indústria estiveram com o prefeito numa tentativa de alguma flexibilização, mas não adiantou.
“A ideia é obedecer ao decreto de forma integral. É obrigação de todos cumprir a lei. Agora, se um ou outro se aventurar e tentar trabalhar no meio do lockdown, vai ter que arcar com as consequências dos seus atos”, disse o presidente do Sindifranca, José Carlos Brigagão, que acredita que todo o ramo calçadista vai respeitar o fechamento.
A situação deles só não é mais grave que a das 7 mil famílias francanas na linha da miséria, que se veem sob risco real de passar 15 dias sem ter para onde correr. Muitas delas se aglomeraram na porta do Centro Comunitário do Leporace nesta quarta-feira em busca de uma cesta básica - distribuídas pela prefeitura - para garantir o sustento nas próximas duas semanas. No total, o município previu distribuir 2,3 mil cestas básicas.
Apesar do grande volume, a conta é dramática. “Foi muito importante. Assim como eu, tem muita gente que não está trabalhando e tem família”, disse a jovem Beatriz Oliveira, de 22 anos, satisfeita depois de ficar 3 horas na fila pra garantir a sua cesta.
O problema é que para a família de francanos como a da Beatriz, se alguém pegar alguma forma grave da Covid, o destino certamente será a fila de espera no PS. Uma fila que, no mais das vezes, não leva a lugar nenhum, porque simplesmente não há leitos disponíveis nem em Franca nem nas cidades da região.
Serão 15 dias. Essa quinta-feira, 27, é só o primeiro. Pode também ser o decisivo. Se as autoridades falharem na implementação das medidas, as centenas de mortos se converterão rapidamente em milhares. Sem que haja, nada mais, que se possa fazer.
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