(ficção, conto)
Ouvi de uma amiga, Quero esse homem para irmão. Achei estranho, mas ela continuou, Quero ser mais que amiga dele, estar junto em toda parte e ser dele, no meu corpo, a melhor anfitriã.
Respondi que isso devia ser amor, ela nem ouviu e continuou, Preciso calar minha boca e ouvir o sermão que ele faz quando fica nervoso, toda vez que me olha de perto fecho os olhos e estremeço, sua voz de trovão áspera provoca cataclismos, entende? Nem deu tempo pra eu dizer que não entendia, Quero sentir o terremoto, me afogar no tsunami, e rir da cara de bravo quando diz que é homem simples mas erudito, rústico sistemático; ele penteia a juba com as mãos só pra eu saber despentear enquanto lava as mãos.
Minha amiga confidente é geógrafa; domina a geografia física, não a humana. Quando repito “isso é amor” ela se entrega vulnerável, Acontece que ele é tão exato. Pesando bem no que ela acaba de dizer, talvez seja isso o que também me excita quando observo pessoas, a aparência de exatidão que deixam entrever quando no íntimo a vulnerabilidade de cada um pode ser escavada até o osso. Assim ela faz, e me diz que basta apontar a falha ou fossa num dos lados do círculo em que ele habita para desfazer em quadrado seu universo, desabar.
Sei. (só tenho tempo de ser lacônico, Sei...)
Quem conhece a profissional não poderia julgar a vulgaridade comum, Eu quero meter o bedelho no cangote perfumado dele, alongar meu dorso sobre o indomado, e com as unhas arranhar o mapa mundi nas costas dele; preciso cravar meus dentes pra inocular esse veneno que me intoxica, bem ali, no pescoço aritmético. Sem pudor, porque já viveu o suficiente para dizer o que pensa, minha amiga geógrafa confessa seu desejo pelo matemático, e diz que se soubesse faria do que sente poesia erótica. Chego a argumentar usando uma calculadora imaginada para não ser deselegante ao leitor porque sei respeitar o fato de que ela não sente o corpo vivo há muito tempo, Orgasmo é direito básico, quero a alma dele, pouco não basta; você entende?
Sobre fazer poesia erótica eu digo que o desespero dela não daria bom arranjo, falta ritmo quando a paixão excede. Pergunto o nome dele atiçando a lenha da fogueira que por osmose me queima, Que importa nome ou letra, se houver erro na grafia melhor a fantasia. (avisei em vão pra não rimar amor e dor).
Rimos juntos, acho graça e respeito. Argumentei para o seu bem que Clarice Lispector escreveu sobre uma senhora, dessas que você diria “meus deus”, que vai ao médico e vergonhosa do próprio desejo pergunta “quando isso passa, doutor?”. Mas a minha amiga geógrafa tem pressa e não quer saber de literatura, Quero os cálculos do matemático desvendando minhas equações de segundo grau; a lógica aplicada à minha geografia irregular.
(depois de usar todas as letras, desaba no meu peito albergue de girassóis seu pranto).
Quando esta geógrafa irregular ler o que escrevi sobre ela e o matemático rústico vai me chamar num aplicativo de mensagem fingindo zangada para dizer que me ama, e que era exatamente assim que teria escrito se fosse ela o poeta. Claro que depois vai mentir dizendo que está feliz no relacionamento e me dará os parabéns por ter lançado em abril o Depois eu contA: diário dos miseráveis, Estou pensando em casamento, mas com essa pandemia...
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