PANDEMIA

Batatais tem ruas esvaziadas em meio a lockdown e colapso na saúde

Por Melissa Toledo | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 6 min
Melissa Toledo/GCN
Rua deserta em Batatais nesta terça-feira
Rua deserta em Batatais nesta terça-feira

Desde a 0h do último sábado (15) e até a 0h do próximo dia 31, a cidade de Batatais - a 45 quilômetros de Franca - vive uma experiência inédita para tentar frear a disseminação do coronavírus. Um lockdown, que prevê a proibição da circulação das pessoas nas ruas, foi decretado em meio ao colapso do sistema de saúde.

Nesta terça-feira (18), a medida ganhou contornos mais rigorosos, pois supermercados, varejões e padarias também tiveram de aderir à interrupção das atividades presenciais.

A implementação do “remédio amargo” e, para alguns, indigesto, que é o lockdown, se justifica diante do cenário da pandemia em Batatais, que é estarrecedor.

O boletim epidemiológico publicado no fim da tarde desta terça pela Secretaria de Saúde mostra que a cidade, que tem população estimada em 62,9 mil pessoas, computou nada menos do que 103 novos casos da doença, um recorde no número de casos diários.

Só neste mês de maio foram 1.045 novos casos e 22 óbitos. No total, o município registrou 110 mortes decorrentes de Covid-19 desde o início da pandemia, no ano passado, e 4.966 casos confirmados da doença.

A média de contaminação diária em maio está em 58 casos, em alta constante. Em fevereiro, a média era de 14,2 casos por dia, número que subiu para 21,2, em março, e 27,2, em abril, até chegar ao cenário atual.

Na noite deste terça, 23 pacientes estão internados e outros 606 se recuperam em casa, em isolamento. Na mesma condição de isolamento domiciliar estão outras 542 pessoas que foram registradas como “casos suspeitos em investigação”.

Há pelo menos 80 dias, os leitos de enfermaria e de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do único hospital da cidade, a Santa Casa, operam com ocupação total, e em algumas ocasiões, até acima do limite.

A cidade possui apenas nove leitos de UTI e seis de enfermaria para o tratamento da doença. Há batataenses internados em hospitais de Ribeirão Preto, Serrana e Américo Brasiliense (distante 122 quilômetros).

A baixa rotatividade de leitos e o descontrole do avanço dos novos casos fomentam uma angustiante fila de espera por vagas hospitalares de tratamento especializado. Há hoje em Batatais 13 pessoas nesta condição: nove aguardam na UPA (Unidade de Pronto Atendimento), três esperam no Centro Médico da Unimed e um sofre a incerteza do tratamento na ala de pronto-atendimento da Santa Casa.

Nesta fila, segundo a secretária de Saúde, Bruna Toneti, há predominantemente pessoas com idade inferior a 50 anos: eles são 56,25% dos que padecem à espera de se tratar em um hospital. “Esse fato nos chama a atenção pela agressividade da doença”, disse Bruna sobre o aumento expressivo de contaminações e complicações da doença em pacientes mais jovens.

A quantidade de mortes por Covid-19 em Batatais em 2021 já é 90% maior do que as ocorridas no ano passado: são 72 neste ano, ante 38 de todo o ano de 2020.

O prefeito de Batatais, Juninho Gaspar (PP), disse que o sistema de saúde chegou ao “limite do limite” da capacidade. “Assim, foi necessária a implementação de medidas mais restritivas para que possamos frear a contaminação viral, desafogar e preparar o sistema de saúde pública municipal para a grande quantidade de munícipes em estado grave que estamos recebendo. Se Deus quiser, enfrentaremos juntos esta fase dramática da história de Batatais e tudo que pudermos fazer para salvar vidas, será feito”, afirmou.

RESTRIÇÕES DURANTE LOCKDOWN
O lockdown que endureceu as medidas de isolamento social em Batatais determina que toda e qualquer atividade comercial, de prestação de serviço e industriais estão proibidas.

Os restaurantes funcionam exclusivamente por delivery, não podendo haver retirada na porta ou no balcão.

Igrejas, templos religiosos, salões de beleza e academias estão todos fechados. As atividades físicas ao ar livre estão vetadas tanto em grupos quanto individualmente. O transporte coletivo público parou. Os dois cemitérios da cidade só abrem para sepultamentos, o que tem acontecido praticamente todos os dias.

Estão suspensos também os serviços públicos municipais, estaduais e federais, incluindo o atendimento ao público.

As agências bancárias estão fechadas para o atendimento ao público, com funcionamento somente de caixas eletrônicos. Entretanto, uma “nota técnica” publicada depois da decretação do lockdown permite que haja atendimento presencial extraordinariamente a quem tiver problemas com o recebimento do auxílio emergencial.

Segundo a prefeitura, o batataense deve sair de casa basicamente apenas por necessidade de atendimento de saúde, compra de medicamentos ou prestação de serviços permitidos pelo decreto.

Para isso, serviços de saúde estão mantidos e farmácias seguem com funcionamento normal.

Postos de combustíveis também podem funcionar, mas somente das 6h às 20h e sem abertura de lojas de conveniências.

Uma nota técnica anexada ao decreto permite ainda que as indústrias cuja paralisação da atividade possa afetar o abastecimento de produtos essenciais ou causar dano a máquinas ou instalações, funcionem mediante a assinatura de um termo de compromisso que prevê, por exemplo, a redução da presença de colaboradores e o compromisso de testagem de funcionários sintomáticos, suspeitos ou que tiverem contato direto com positivados.

Juninho Gaspar disse que reconhece o grande desafio que as medidas restritivas representam para vários setores da sociedade. “Há reflexos econômicos, sociais, educacionais e muitos outros que nós não podemos deixar de levar em conta e sempre, desde o início desta administração, procuramos conciliar da melhor forma possível. O momento atual que o município enfrenta é grave e atípico”, afirmou o prefeito.

O ABRE E FECHA DAS LOTÉRICAS
Mesmo com a tragédia da pandemia na região tendo atingido números tão alarmantes e sem previsão concreta de quando haverá vacinação em massa, há grupos que discordam de medidas restritivas e recorrem à Justiça para tentar não ter de cumpri-las.

Em Batatais, as lotéricas, que segunda-feira ficaram fechadas pelo primeiro dia, nesta terça voltaram a funcionar.

Uma decisão liminar da Justiça de Batatais publicada na note de segunda, deu aval para os lotéricos abrirem seus estabelecimentos.

Na ocasião, a juíza que assinou a decisão da ação impetrada por três dos quatro empresários do setor na cidade entendeu que eles têm razão ao justificar seu pedido com base na essencialidade dos serviços que prestam, “com destaque para o recebimento e pagamento de contas de água, luz, telefone, ISS, IPTU, GPS e PIS, abertura de contas, saques e depósitos, pagamento de programas de repasse de renda, como o Bolsa Família, e de benefícios assistenciais – a incluir o auxílio emergencial neste momento crítico”, escreveu a juíza na decisão.

Entretanto, a prefeitura recorreu e teve o pedido de suspensão de suspensão da liminar deferido. Sendo assim, nesta quarta-feira as lotéricas voltam a baixar as portas.

Sobre a atitude de empresários que recorreram ou que pretender recorrer à Justiça para ter o direito de não seguir o lockdown, o prefeito disse que é preciso ressaltar a importância das medidas de isolamento nesse momento para que se possa conter a contaminação do vírus.

“Entendo que o direito à vida dos batataenses deve ser colocado em primeiro lugar. Mas se alguém entender que teve algum direito prejudicado com as medidas, penso que é legítimo qualquer questionamento judicial. Todos devem ter direito de acesso à justiça. É importante deixar claro que nós respeitaremos todas as decisões judiciais, pois é um momento de união de todos. Da população, dos empresários, dos industriais, dos prestadores de serviço e dos poderes constituídos”, afirmou.

 

 

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