SEM NOÇÃO

Fiscalização em bares encara ofensas, denúncias fakes e até ameaça com arma de fogo

Por Higor Goulart e Kaique Castro | da Redação
| Tempo de leitura: 9 min
Kaique Castro/GCN
Fiscal fecha portão de chácara que teve festa interrompida
Fiscal fecha portão de chácara que teve festa interrompida
Franca assiste ao colapso no seu sistema de saúde, com UTIs superlotadas, leitos de enfermaria no limite e dezenas de pacientes que esperam no Pronto Socorro Municipal ‘Álvaro Azzuz’ por vagas de internação que não existem nos hospitais. O número de mortes e de casos positivos de covid dispararam nos últimos 15 dias. A RT, índice que mede a taxa de contágio, está em 1,2, o que indica a pandemia descontrolada, com crescimento acelerado. Nas ruas, indiferente a tudo isso, muita gente segue a vida como se não houvesse coronavírus. Aglomerações são frequentes. Pessoas sem máscara são vistas em número cada vez maior. A vacinação, grande aposta para vencer o vírus, segue a passos lentos.
 
Diante do quadro de terror, o prefeito Alexandre Ferreira (MDB) anunciou na tarde de quinta-feira, 13, um conjunto de ações para tentar reduzir o contágio. Uma das medidas foi a criação da “Patrulha da Covid”, uma operação que envolve Vigilância Sanitária e Guarda Civil Municipal para averiguar as denúncias de desrespeito às medidas restritivas que chegam pelo Covizap. O portal GCN acompanhou, com exclusividade, a segunda noite de operação dos fiscais da Vigilância Sanitária. Foi possível testemunhar, de perto, as muitas dificuldades para orientar, multar e, no limite, interditar aqueles que desafiam o distanciamento social e colocam em risco a própria saúde - e a dos demais.
 
A noite dos fiscais e dos agentes da guarda é sempre tensa. Na rotina, há xingamentos, tentativas de intimidação, denúncias falsas feitas para despistar a fiscalização de festas clandestinas e até ameaças com armas de fogo. Tudo isso foi registrado na sexta-feira, 14, e madrugada de sábado, 15, pela equipe do GCN.
 
Por onde passam, as viaturas da fiscalização e da Guarda Municipal chamam a atenção - e despertam irritação - de quem busca diversão a qualquer custo. Na última sexta-feira, a operação começou com três abordagens onde foram feitas apenas orientações pelos estabelecimentos ainda estarem dentro do horário autorizado pelo Plano SP e, apesar de algumas falhas, nao haver registro anterior de irregularidades. 


Clientes de bar no espaço Hidromar, na av. Alonso y Alonso, saem ao perceber chegada da Vigilância
 
Na quarta abordagem, um bar localizado no espaço Hidromar, o problema era mais sério. Multiplicavam-se as denúncias no Covizap contra o Mineiro Coffee Beer. Na chegada dos fiscais, os clientes começaram a correr e ir embora para evitar a abordagem. Quando os agentes públicos desceram, rapidamente o proprietário do bar apareceu e, num passe de mágica, o estabelecimento foi esvaziado. Sem máscara, o dono começou a discutir com a fiscalização. “Vocês não podem falar que estou aberto depois das 21h. Já estava tudo lacrado”, disse. Não era verdade.
 
As imagens são claras e contradizem o que o proprietário estava falando. Várias garrafas, copos e mesas estavam espalhados pelo espaço. Uma cliente sem máscara, que não havia percebido a chegada dos fiscais porquê estava no banheiro, começou a filmar a ação e brigar com os guardas, como se o erro não fosse do estabelecimento - e dela mesmo. “Isso é um absurdo, ele está trabalhando. Todas as pessoas que estavam aqui eram estudantes de medicina. Estão todos vacinados e estavam comemorando”, afirma, como se houvesse algum dispositivo que isenta estudantes de medicina - ou imunizados - de cumprir as determinações sanitárias.
 
Para a cliente, que disse ter chegado ao bar por volta de 20h, estar sem máscara num ambiente com aglomeração não é uma fator de risco a ser considerado. A mulher repetia que, como a comemoração - de estudantes de medicina, ressalte-se - já estava iniciada quando chegou, ela não "via problema" em estar por ali. Aperentemente, os centenas de mortos e as dezenas de pessoas que aguardavam por uma vaga de UTI não são o bastante para sensibilizá-la. Nem os apelos dos médicos e enfermeiros da linha de frente que, exaustos, apelam por consciência da população.
 
“Eu não consigo fazer esse povo sentar. Como que eu faço?”, questionou o dono do bar, irritado. Ele ainda deu sorte. Como passava poucos minutos do horário limite, recebeu apenas advertência dos fiscais e o aviso de que, numa próxima ocorrência, será interditado. Mas acabou se livrando da autuação.
 
De lá, os fiscais foram até o Bar da Careta, na avenida Major Nicácio, que estava aberto. A fiscalização foi tranquila, sem reação agressiva do proprietário. Como havia passado muito do horário permitido, acabou interditado. 


Bar da Careta, na av. Major Nicácio, foi o primeiro local a ser interditado 
 
Do outro lado da avenida, mais problemas. Enquanto os fiscais autuavam a hamburgueria Fratelli, recém inaugurada e localizada em frente ao Bar da Careta, clientes permaneciam no local, indiferentes à fiscalização, como se não houvesse regra a cumprir. Outra interdição foi feita. Durante a autuação, um cliente engraçadinho se gabava, em voz alta, de ser um “fora da lei”. 


Mesmo com fiscais interditando hamburgueria Fratelli, clientes permaneciam sentados

Alvo de denúncias constantes, o Bar do Farol, que também fica na Major Nicácio, foi visitado. As portas estavam baixadas, mas vários carros e motos estavam espalhados numa via paralela. Mesmo do lado de fora, conversas em tom alto eram ouvidas no interior do bar. Os fiscais bateram na porta e, na sequência, escutaram pessoas pedindo silêncio. A equipe bateu novamente. Uma pessoa atendeu. O clima ficou tenso e perigoso. Um homem, que se identificou, aos berros, como ‘Paulão’, sacou uma arma. Alterado, confrontou os dois fiscais e os três guardas municipais. “Ninguém bate assim na porta dos outros. Só por que são fiscais, acham que podem bater igual bandido? Se vocês baterem assim na minha casa, eu meto soco na cara de vocês. Vão se f***. Eu fui polícia por 30 anos, não se aborda ninguém assim.”, ameaçou. Os fiscais, em nenhum momento, alteraram o tom de voz. 


No Bar do Farol, na Major Nicácio, um homem armado xingou os fiscais

O rapaz então foi acalmado pelo proprietário, que tentou justificar a aglomeração afirmando se trarar da comemoração do seu aniversário. "Nós fechamos o Bar na hora que tinha que fechar. Sem aglomerações. Estamos comemorando meu aniversário. Eu, alguns amigos e os funcionários", disse o proprietário, que foi um dos líderes da manifestação que pediu a volta do comércio neste ano. 
 
Como o local estava fechado, os agentes da Vigilância apenas orientaram o dono do bar depois de confirmarem que realmente se tratava de seu aniversário. No fundo do estabelecimento, era possível perceber mulheres procurando evitar a fiscalização se escondendo no banheiro.
 
O destino seguinte foi a avenida Flávio Rocha, no Restaurante e Petiscaria Texas. No interior, muitas pessoas e famílias. Do lado de fora, várias mulas e muladeiros, com direito a música ao vivo, para comemorar a inauguração do estabelecimento no momento mais crítico da pandemia. 


Terceira interdição da noite, Restaurante e Petiscaria Texas desafiava horário determinado

Durante a ação de interdição, um rapaz que estava sentando em uma das mesas se irritou com a operação. “Não estão aplicando multa (nos clientes), mas, aquele ali (fiscal), está olhando para minha cara. Acha que eu tenho medo. Tô doido”, ironizava. 
 
Depois dessa abordagem, foi necessária a troca de turno dos guardas municipais. Com isso, a equipe da Vigilância ficou sem reforço. Bastante visados na avenida, já que os clientes do restaurante anterior foram para um outro, os fiscais começaram a receber novas ameaças e tiveram que sair. 
 
Novo destino: Morada du Capiau, local visitado horas antes e que recebia mais denúncias pelo Covizap. Na primeira visita da fiscalização, o local estava tranquilo, cumprindo horário e capacidade. Mas, por volta das 23h, clientes ainda eram atendidos e movimentavam as áreas do bar. Por isso, acabou interditado. 


Bastante movimentada, Morada du Capiau foi fechada às 23h
 
Lá, os proprietários tentaram justificar o descumprimento das normas com a falta de conhecimento da lei e de orientação dos fiscais. Não adiantou. Os fiscais ligaram para a nova chefe da Vigilância Sanitária, Mariela Toscano, e receberam confirmação de que o estabelecimento deveria ser interditado. Ao perceberem que a justificativa não havia colado e que a Morada seria interditada, a postura com dos proprietários mudou completamente. Aumentaram o tom de voz e alguns clientes até cercaram os agentes, numa postura intimidatória, quando a equipe deixava o local.  
 
Na maioria dos bares e restaurantes visitados, um argumento era comum: “vocês só fecham bares de pais de família, quero ver fecharem as festas”. O telefone de um dos fiscais foi até descoberto por um dos proprietários autuados no primeiro dia de operação, que passou a enviar locais de festas. 
 
Não falta disposição. O desafio é encontrar o local dessas comemorações. A todo momento, o Covizap recebia denúncias falsas dos próprios organizadores, que tentavam confundir e atrasar as ações. 
 
Não funcionou com a "Rave do Escurinho", realizada numa chácara às margens da rodovia Fábio Talarico. Para confirmar que o evento era realmente naquele local, uma primeira abordagem, à distância, foi feita apenas com o carro da Vigilância. Tudo confirmado, era hora de pedir o apoio da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal. Cinco viaturas, inclusive, uma uma da Força Tática, chegaram rapidamente. 
 
Reforçada, a patrulha foi para o local da festa. Chegando lá, as luzes foram apagadas e o silêncio tomou conta do ambiente. Os fiscais bateram no portão e foram atendidos por um rapaz com o contrato da chácara em mãos. Ao entrarem na área de lazer, várias pessoas começaram a tentar dispersar. Algumas se escondiam no banheiro. Outras, atrás de carros. 


Fiscal lacra local da 'Rave no Escurinho'

O locatário, Pedro Henrique da Silva, teve seu nome anunciado repetidas vezes pelos agentes. Segundo pessoas presentes, ele havia saído para comprar mais bebidas. Os 'convidados' começaram a partir. Quem insistia em continuar por ali se mostrava indignado com a informação de que só poderiam comemorar com até seis pessoas. “Como que comemora uma festa com só seis pessoas? Se é festa tem que ter mais gente”, provocava uma mulher. Aparentemente, ela nunca ouviu dizer que aglomerações estão proibidas. Nem que o sistema de saúde de Franca está colapsado.  
 
Houve argumentos inacreditáveis. Após perceberem que teriam que abandonar o local, alguns 'festeiros' começaram a dizer que estavam bêbados e que poderiam trazer 'riscos' de acidente se tivessem que ir embora.
 
Após muita insistência, o grupo - calculado em mais de 30 jovens - finalmente saiu do local. A chácara foi trancada e lacrada pelos fiscais. Era 1h10 de sábado, 15, e a equipe da Vigilância encerrava seu turno. Os fiscais estavam visivelmente esgotados. "Sinto falta de quando ia fiscalizar para ver se tinha rato", disse um dos agentes, que tiveram seus nomes preservados para eviar mais retaliações. Com frequência, os telefones dos agentes da Vigilância são vazados. Os xingamentos e ofensas são frequentes. Não houve registro de acidentes no retorno dos jovens da "Rave do Escurinho" para casa. 
 
Os bares interditados têm dez dias para recorrer dos autos de infração. A aplicação da multa é definida após a manifestação dos estabelecimentos. A ‘Patrulha da Covid’ continua nas ruas.
 
Farra continua
Na volta para casa, a equipe de reportagem percorreu alguns bairros da cidade. Nas grandes avenidas, nenhum estabelecimento estava aberto. Mas no Parque Universitário, uma casa concentrava centenas de pessoas. Sem máscara e com som alto. 


Festa no em casa no Parque Universitário recebia centenas de jovens

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