CIRURGIAS ELETIVAS

Lista de espera chega a 13 mil pacientes; Saúde aponta 'erros' no sistema

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Reprodução/GCN
Protocolo da paciente Maria de Fátima, que precisa de uma cirurgia no ombro: mais de sete anos de espera
Protocolo da paciente Maria de Fátima, que precisa de uma cirurgia no ombro: mais de sete anos de espera

Um dos muitos efeitos colaterais derivados da pandemia do coronavírus é um imenso atraso na fila das cirurgias eletivas de Franca. As solicitações para a realização de procedimentos que, em tese, tratam de corrigir problemas que não oferecem risco de vida imediato aos pacientes, acabaram sendo, em boa parte, deixadas de lado.

O problema não é novo, mas se agravou sensivelmente desde o início da pandemia. Hoje mais de 13 mil pacientes estão aguardando por uma intervenção considerada eletiva, segundo a última lista divulgada pela Prefeitura, de abril deste ano.

São exatos 13.508 procedimentos em espera, dos quais 13.470 são cirurgias propriamente ditas. O número é consideravelmente maior do que o divulgado no mesmo mês de 2019, ainda no governo Gilson de Souza (DEM), quando eram 11.620 pacientes à espera de cirurgias, quase duas mil a menos do que atualmente.

As cirurgias que mais aparecem no documento são do sistema osteomuscular (3.229); do aparelho digestivo, órgãos anexos e parede abdominal (2.989); do aparelho geniturinário (2.761); das vias aéreas superiores, da face, da cabeça e do pescoço (1.928); e, por fim, do aparelho circulatório (1.730).

Há ainda 22 pacientes à espera de procedimentos oncológicos, alguns deles solicitados há mais de cinco anos. Tem também pedido para uma curetagem pós-abortamento, de julho de 2020. Nenhum deles teria sido realizado ainda.

Na lista, constam pedidos de procedimentos que se arrastam há mais de 10 anos. Todos são relacionados a cirurgias do sistema osteomuscular.  Quatro casos são de 2005 - três pedidos de artroplasti total primária do joelho e um de tratamento cirúrgico de Halux Vagus com osteotomia do primeiro osso metatarsiano (sic). Há também um outro pedido de cirurgia, de agosto de 2008, para pseudartrose. Todas as cinco solicitações eram de pacientes com mais de 76 anos.

Sofrimento interminável
Enquanto aguardam um telefonema que pode levar anos para acontecer, muitos sofrem sem solução ou alívio para suas enfermidades.

Uma dessas pessoas é Sônia Aparecida da Silva, aposentada de 64 anos que aguarda por uma cirurgia para corrigir inchaços em seu pé há mais de um ano. “Está marcado desde março de 2020. Seria um procedimento ‘dois em um’, porque ia consertar um problema que tenho na parte de cima, no peito do pé, e outro no calcanhar. Enquanto não consigo a eletiva, tenho sofrido bastante. Dói muito, sinto muita dificuldade para andar. Não consigo sequer colocar um tênis. Preciso usar só rasteirinha e olhe lá”, comentou.

Leonardo Faleiros Garcia, de 53 anos, convive com um bloqueio no canal lacrimal, o que o deixa com sérias dificuldades para realizar ações simples no dia a dia. “Eu tenho essa cirurgia do canal de lágrima marcada há mais de um ano. Até hoje, não me chamaram. O problema é que ele está entupido. Todo mês, o meu olho infecciona e preciso ficar tomando antibióticos para melhorar. A gente fica na espera por uma ajuda”.

O filho de Maria Angélica da Silva, de 59 anos, também teve o seu procedimento considerado como eletivo. Eduardo Felipe da Silva, de 27 anos, aguarda por um transplante de córnea desde 2019. Maria Angélica diz que o tempo de espera tem sido sofrido e diz que não aguenta mais ver seu filho sofrer. “Ele não enxerga de uma vista e a outra está muito comprometida. O Eduardo já chegou a fazer uma outra cirurgia antes, mas teve rejeição e não tivemos condição para pagar outra. São R$10 mil só para um olho. Ele sofre muito, passa mal, derruba as coisas... não consegue fazer nada. É muito triste vê-lo desse jeito. Já chegamos até mesmo a entrar na Justiça, mas o juiz indeferiu. Ele está na fila e ninguém chama. É muito ruim ver o que está acontecendo”, contou, emocionada.

Maria de Fátima Braga Pereira, de 60 anos, espera há mais de sete anos por uma cirurgia de reparo de rotura do manguito rotador, que é um conjunto de músculos responsável por estabilizar e dar mobilidade ao ombro. “Quando a gente pergunta, o pessoal da Secretaria de Saúde diz que não tem o que ser feito, que a pandemia fez com que tudo voltasse à estaca zero. Enquanto isso, fico sentindo dores. O pior é que elas ficam ainda mais fortes nessa época de frio”.

Fabiana Tostes Santos, de 41 anos, entrou na fila das eletivas durante a última semana. “Eu preciso fazer uma cirurgia de retirada do útero. Estou com sangramento há 36 dias. Tenho passado na UPA e a hemorragia não para. No último dia 5, passei por um médico na Casa da Mulher e ele me encaminhou para a fila. Mas, penso eu, que meu caso seja urgente. Sei que existem outros casos muito sérios, mas estou com hemorragia há mais de um mês. Sinto fraqueza, dor nas pernas, não consigo trabalhar, tenho 6 filhos para criar e aluguel para pagar”, desabafa.

Erros na lista
O secretário de Saúde de Franca, Lucas Souza, admite que a situação é séria, mas diz que a lista tem muitos erros e que os números não são confiáveis. Segundo ele, a equipe da Saúde tem se esforçado para corrigir problemas deixados por “inoperância das gestões anteriores”.

Um exemplo destas falhas estaria nos 22 pacientes à espera de cirurgias contra o câncer. O secretário afirmou que a maioria dos registros foram originados por “movimentação incorreta do sistema”. Apenas seis pacientes oncológicos estariam de fato em pré-operatório, aguardando agendamento. “Foi implementada uma linha de cuidado para os pacientes com suspeita de neoplasia (câncer). Todos são considerados prioridade. Os casos que não necessitam de biópsia são inseridos na Rede Hebe Camargo, de acordo com o protocolo, enquanto os demais, ou seja, aqueles que necessitam da realização da biópsia para diagnóstico e inserção na rede de oncologia, são agendados de acordo com a cota disponibilizada pelo DRS-VIII”, disse Lucas Souza.

O caso da paciente de 36 anos que aguardava uma curetagem pós-parto também seria um erro. “Esse procedimento foi protocolado no setor de regulação de forma errônea, por não caracterizar cirurgia eletiva e sim de urgência”, disse o secretário. “Na época, ela apresentou um sangramento pós-parto, mas o problema mostrou uma evolução natural”.

Com relação às solicitações relacionadas à área de ortopedia, o secretário confirma que todos os identificados na lista estão efetivamente aguardando cirurgia, com exceção de um paciente de 90 anos, que já faleceu – sem que tivesse realizado o procedimento.

Mesmo com as dificuldades impostas pelo combate ao coronavírus e apesar da lentidão, o secretário garante que o trabalho segue sendo feito. “O setor de regulação está fazendo busca ativa das cirurgias (inscritas) desde 2001 e re-auditando as solicitações antigas, permitindo uma verdadeira avaliação da condição atual do paciente que aguarda há muito tempo. Muitas das solicitações presentes na lista estão sendo enviadas para reavaliação”, afirmou.

Volta das cirurgias
O secretário de Saúde de Franca também afirmou que a cidade está agendando cerca de 27 cirurgias todos os meses, em média, número ínfimo perto das necessidades e do tamanho da fila. “São procedimentos de cabeça e pescoço, cirurgia geral, ginecologia, mastologia, neurocirurgia, odontologia, oftalmologia, otorrino, pediatria, pneumologia e proctologia”. As especialidades de urologia e ortopedia seguem suspensas, assim como estão desde 2019.  

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