AUDIÊNCIA PÚBLICA

Moradores da Vila Formosa se manifestam contra Centro Pop no bairro

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Arquivo/GCN
Antigo prédio do CSU vai abrigar o Centro Pop
Antigo prédio do CSU vai abrigar o Centro Pop
Os moradores da Vila Formosa protestaram contra a instalação do Centro Pop no bairro, durante a manhã desta quarta-feira, 12, em audiência pública realizada de forma online pela Prefeitura.
 
A secretária de Ação Social do município, Gislaine Liporoni, comandou a sessão e começou explicando detalhes sobre o Estudo de Impacto de Vizinhança realizado com moradores da região da Formosa. Depois disso, as pessoas que se cadastraram tiveram três minutos para exporem seus pontos de vista.
 
Não falaram somente moradores do bairro. Inicialmente, representantes e trabalhadores da própria Ação Social e da Defensoria Pública tiveram espaço, defenderam a implementação do Centro Pop e ressaltaram a importância dos serviços prestados a quem está em situação de rua, o que se tornou ainda mais "imprescindível" durante a pandemia.
 
Depois disso, vieram os residentes da Formosa. Quando participaram por voz, todos foram educados e se contiveram, mas, no chat, os ânimos estavam mais exaltados. Mensagens se referindo aos usuários do Centro Pop como “viciados e doentes mentais” ou ofensas contra participantes e contra a própria secretária Gislaine Liporoni eram constantemente vistas. Muitas pessoas também escreveram contra o serviço, afirmando que o mesmo “não funciona em nenhum lugar”.
 
A primeira moradora do bairro a falar foi Giovana. Segundo ela, “todos estão com muito medo, principalmente pela população ser predominantemente idosa”. A mulher também afirmou que as pessoas em situação de rua do local “ficam agressivas ao receberem negativas quando pedem dinheiro”. Apesar disso, Giovana diz não ser contra a instalação do serviço e falou que está se “compadecendo com os demais moradores”.
 
Todos os outros residentes do local que falaram adotaram discursos iguais ou muito semelhantes aos de Giovana: são a favor do serviço social, desde que seja feito longe da Vila Formosa.
 
Núbia, que também mora no local, sugeriu que o Centro Pop seja instalado em outro lugar. Para ela, “o Parque do Trabalhador seria o espaço ideal para a sua implementação”. Ainda assim, no chat da audiência, a moradora afirmou que tudo seria “mimimi” - se referindo aos serviços sociais - e dirigiu algumas ofensas aos demais participantes.
 
Outra fala de Núbia aponta que a maioria das pessoas que utilizam o serviço na região não seriam “moradores de rua, e sim usuários de droga que não querem se recuperar". "Já fazem um transtorno para nós. A gente está com medo”, finalizou. 
 
Assim como Núbia, Neusa afirmou não ser contra o Centro Pop, mas sim contra a instalação dele no bairro. “É isso que nós pedimos. Mudança de local. Ninguém quer o serviço aqui. Falo em nome da população da região.”
 
Eric também mora na Formosa e adotou um discurso muito parecido ao de seus vizinhos. “A gente não é contra o Centro Pop, só não concordamos com a forma que tem sido feito. Os moradores ficaram até satisfeitos ao ouvirem que seria feito o estudo de impacto de vizinhança, mas toda essa documentação passa por cima da lei. A partir do momento que a população não é ouvida da forma com que pede a legislação, o serviço não pode ser implantado. Não vamos aceitar que seja assim. Essa audiência, por exemplo, é mera formalidade, já que tudo está decidido.”
 
Ao final, ainda participaram dois rapazes que utilizam os serviços do Abrigo Provisório e já passaram pelo Centro Pop. O primeiro deles, Luiz, elogiou e defendeu os trabalhos prestados pela Ação Social. “Eu moro no Abrigo Provisório e já passei pelo acolhimento do Centro Pop. Essa resistência do bairro, vocês têm que enfrentar mesmo”, disse para Gislaine. “Sobre o pessoal, nem todo mundo é bandido. Nem todo mundo é morador de rua porque quer. Somos por necessidades passadas pela vida. Vocês estão de parabéns. Continuem com a luta.”
 
Davi, o último a se pronunciar, também saiu em defesa dos serviços de assistência social. “Sou a favor do Centro Pop, porque eu já fui uma pessoa que teve dinheiro, teve família, teve tudo e chegou nessa situação de rua, por conta de problemas familiares e no emprego. Esse serviço é uma coisa maravilhosa. O pessoal pode tomar um banho, almoçar e as ações os ajudam a mudar de vida. Não são todos bandidos. Tem muita gente que quer melhorar. Me ajudaram muito. Os moradores do bairro têm que tentar entender que o serviço ajuda a resgatar dignidade.”
 
A secretária Gislaine Liporoni ouviu a todos os inscritos sem se manifestar, afirmando apenas que “todas as opiniões são respeitadas” e finalizou a audiência dizendo que a Ação Social está de portas abertas para atender toda a comunidade. “Nos colocamos à disposição para estabelecer um diálogo permanente com todos”, disse.
 
Foi dito também que uma ata será publicada no site da Prefeitura nesta sexta-feira, 14, para documentar a realização da audiência.
 
Estudo de impacto
O estudo de impacto de vizinhança realizado com moradores da Vila Formosa aponta grande aversão à instalação do Centro Pop no antigo prédio do CSU. Dentre os 434 moradores do bairro entrevistados, 74,9% disseram ser contra o serviço ir para o bairro, 22,8% consideraram sua implementação algo positivo, enquanto os demais não têm opinião formada.
 
Dos que opinaram positivamente, 100% acreditam que o serviço ajudará os necessitados, mas só metade afirma que gosta de ajudar as pessoas em situação de rua e entende que a condição de rua é um agravante no período de pandemia.
 
Dos que avaliaram negativamente, 68% não sabem o que fazer para amenizar os impactos da instalação do serviço. Outros 13,9% acreditam que será preciso mais policiamento, enquanto 6,1% acham que é necessário dar emprego para quem está em situação de rua.
 
Além disso, 63,3% dos entrevistados opinam que haverá um aumento no número de roubos, furtos e assaltos no bairro, 40% acreditam que haverá aumento do número de pedintes e 33% acham que o bairro sofrerá com um aumento da poluição visual.
 
No estudo, também é dito que, após ouvir os moradores, a Secretaria de Ação Social vai criar canais de atendimento para as pessoas que moram na Vila Formosa, reforçar as rondas da Guarda Civil Municipal no bairro, aumentar a iluminação, instalar serviços de atendimento às pessoas em situação de rua durante 24 horas e uma praça de esportes e lazer em frente ao prédio do Centro Pop, além de instruir os usuários do serviço a se relacionarem de forma saudável com a população.

Tanto o estudo de impacto de vizinhança quanta a audiência realizada hoje são meras formalidades, a opinião dos moradores do bairro não é decisiva na escolha do local de instalação do Centro Pop. E já está definido pela Prefeitura de que o serviço irá mesmo para a Vila Formosa, começando a atender ainda neste mês.
 
Aumento considerável
Um dado apresentado durante a audiência é que Franca viu o número de pessoas em situação de rua mais do que dobrar nos últimos anos. Entre 2013 e 2014, havia cerca de 200 pessoas cadastradas na cidade. Atualmente, já são mais de 540, segundo cadastro do Governo Federal.

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