Listas, há muitas. Da fila de espera por uma vaga nas creches, dos contemplados com cestas básicas, de quem foi selecionado para uma bolsa de estudo, dos agraciados no programa Renda Franca e até os salários de todo e qualquer servidor público. Tudo é público, com nome completo, datas e informações detalhadas.
Mas, em Franca, a lista com os nomes das pessoas que receberam a vacina contra a covid-19 continua protegida a sete chaves. Quase cinco meses após o início da vacinação contra a doença na cidade, ainda é impossível saber exatamente quem foi vacinado, quando e em qual grupo prioritário cada um se encaixou, e até mesmo confirmar se alguém “furou” a fila.
Prefeitura, Câmara Municipal e até o Observatório Social, entidade criada com a missão de fiscalizar o poder público, falam em “transparência”. Mas, na prática, cada um dos órgãos que tem acesso a essa lista apresenta uma justificativa diferente para que os nomes dos vacinados não sejam divulgados.
No início, foi iniciativa da própria Câmara Municipal divulgar a lista. Os vereadores se mobilizaram para pedir que a relação de pessoas que receberam o imunizante fosse tornada pública. Um projeto de lei, de autoria do vereador Gilson Pelizaro (PT), que obriga o município a fazer a divulgação, foi aprovado. Sabe-se lá por qual razão o prefeito Alexandre Ferreira (MDB) resolveu ignorar solenemente e o Executivo não sancionou nem vetou a lei. Diante da inércia da prefeitura, coube ao presidente da Câmara, Claudinei da Rocha, promulgar e tornar efetiva a lei 9.011/2021.
Com a lei em vigor e a pressão popular, a prefeitura adotou o caminho do meio. Apelou para uma interpretação criativa e começou a publicar uma lista apenas com o primeiro nome e as iniciais do sobrenome de cada vacinado. Apesar de conter apenas os nomes abreviados e a idade das pessoas, foi o suficiente para despertar para uma série de “inconsistências”, como preferiu definir o prefeito Alexandre Ferreira.
Foi após um longo e detalhado trabalho de apuração que a equipe do GCN fez, a denúncia: mais de 900 erros eram evidentes na lista. Pessoas com idades abaixo da faixa etária exigida sendo vacinadas antes de pessoas mais velhas, jovens de 17 anos - que a própria bula das vacinas proíbe receberem as doses -, e a escolha de pessoas que receberam as “sobras” dos frascos, a chamada xepa, sem nenhum critério objetivo, foram alguns dos problemas revelados pela reportagem.
Menos de 24 horas depois da denúncia, Alexandre Ferreira anunciou a abertura de uma sindicância para apurar o caso. Dias depois, diante do final de uma análise preliminar, o próprio prefeito admitiu, em entrevista coletiva, que os erros de cadastro chegavam a 917 casos.
A lista de problemas confirmados oficialmente pela prefeitura é quase um trava línguas. Profissionais da saúde vacinados foram registrados como idosos, idosos foram cadastrados como profissionais da saúde; profissionais da saúde foram listados como da educação e o pessoal da educação registrado tanto como idosos quanto como profissionais da saúde. Por fim, 196 vacinados precisam de uma “apuração mais aprofundada”, segundo o prefeito, já que receberam as doses da xepa.
Tamanha confusão provocou a demissão dos chefes das vigilâncias Sanitária, Caio Carvalho, e em Saúde, Cléber Benedito. Tudo isso sem que a lista com os nomes completos e as datas da aplicação das doses fosse divulgada.
Em cidades como Sorocaba, Nova Odessa e até na Unicamp (Universidade de Campinas), a discussão sobre a divulgação dos nomes completos foi parar na Justiça. Mas, nestes casos, a decisão obriga que os dados sejam públicos. “Igualmente não se pode fazer vistas grossas às notícias veiculadas pela imprensa, no sentido de que o sistema de saúde, pese graves esforços empenhados por seus agentes, ainda não alcançou a eficácia por todos esperada, servindo, pois, a publicidade, de ferramenta relevante para o controle efetivo do processo de vacinação no âmbito da sociedade local, que é diretamente interessada”, disse o magistrado no processo de Nova Odessa.
O problema é que, em Franca, a preocupação com a transparência é menor do que “o cuidado” com a divulgação dos nomes dos vacinados.
O Observatório Social é uma entidade criada para fiscalizar o poder público e que está em atividade em mais de 150 cidades. Na página do Facebook da instituição de Franca, no dia 16 de abril, lançaram o programa “Caixa Aberta”, que cobra transparência na divulgação dos dados da vacinação no Brasil. “Seguimos fortes em nossa meta de abrir a caixa de dados da vacinação. O Brasil ainda é uma esquadrilha em plena queda e só o acesso transparente às informações sobre vacina salvarão nossa tripulação”, postaram.
Há menos de 30 dias, portanto, o Observatório defendia a ampla transparência na divulgação dos dados da vacinação no Brasil. Mas, quando o assunto é o detalhamento dos nomes dos vacinados em Franca, a “tripulação”, em Franca, encontra uma limitação: a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Para Willian Karan, advogado e membro do Observatório da cidade, existe um conflito entre a lei municipal e a LGPD. “O OSB, nas mais de 150 cidades onde atua, realmente é um defensor da transparência, porém, sempre dentro dos limites legais existentes. Nesse sentido, trabalhamos para que os dados dos vacinados sejam os mais transparentes possíveis, desde a forma como o registro se dá até como ele chega ao munícipe. Com relação ao nome completo dos vacinados, há um certo conflito de normas com a LGPD. Uma vez que esse conflito seja pacificado pelos Tribunais Superiores, todos os 150 Observatórios cobrarão o cumprimento por parte do Poder Público”, disse.
A Lei Geral de Proteção é uma norma criada para evitar que informações pessoais sejam usadas por empresas de internet sem que o usuário saiba. Tem tudo a ver com Google, Facebook, Instagram. Tem nada a ver com lista de vacinados, ou de aprovados em concurso, ou beneficiários de programas sociais. Karan também prefere não explicar porque as outras listas todas (Renda Franca, creches e os salários) não ferem a mesma LGPD. "Creio que para essas respostas o mais indicado seria conversar, quem sabe, com o Procurador Geral do Município."
Prefeitura
A depender da prefeitura de Franca, os dados dos vacinados também continuarão bem protegidos. “Não iremos divulgar a lista completa em razão à proteção de dados. A disponibilização da lista no formato como foi, se deu por apreciação do jurídico quanto à questão legal”, disse a assessoria de comunicação. O próprio Alexandre Ferreira já chegou a invocar a LGPD, mas para o propósito ao qual ela não se destina.
Câmara Municipal
Pelo menos para 10 dos 15 vereadores de Franca, a preocupação com os nomes também toma conta. Apenas os vereadores Della Mota, Pastor Palamoni e Marcelo Tidy são favoráveis à divulgação da lista imediatamente, mesmo que algum erro tenha que ser eventualmente corrigido. Lurdinha Granzotti e o pastor Luiz Amaral preferiram não se manifestar.
Para os outros, a primeira preocupação não é saber se houve “fura-filas” ou se alguém recebeu privilégio indevido. Para dez vereadores, o foco é não cometer nenhuma “injustiça” com quem foi vacinado corretamente, mas teve o registro feito de forma equivocada pela prefeitura. “Divulgar o nome das pessoas que foram vacinadas, nome completo, normal. Deve ser feito. Nós não podemos é divulgar os possíveis fura-filas. Não podemos divulgar esses nomes”, disse o maior defensor da cautela, o vereador Donizete da Farmácia (MDB). “Vou citar o caso de um amigo meu que é dentista, a mulher dele é fonoaudióloga e o filho é oftalmo em exercício. Eles foram vacinados e os nomes deles estão constando como fura-filas. Eu não posso fazer isso. Tenho que ter muita responsabilidade para não envolver o nome de pessoas. Amanhã, apagar essa imagem é muito difícil.”
O mesmo argumento é defendido, curiosamente, pelo vereador Gilson Pelizaro (PT), autor do projeto de lei que prevê a publicação da lista. O representante da Frente Parlamentar diz que a lista precisa ser divulgada, mas só depois de eventuais correções. “Não tenho fura-filas de estimação”, disse, da tribuna, na sessão da Câmara desta terça-feira, 11.
Pelizaro torna-se protagonista de um fenômeno singular. Foi graças à sua ideia e capacidade de arregimentar o apoio de seus colegas que a lei que determina a publicação da lista de vacinados tornou-se real. E foi só por conta da publicação, ainda que parcial, que o GCN pode fazer o levantamento que mostrou – e comprovou – pelo menos 917 “inconsistências”. Servidores foram exonerados por conta da falha. Mas agora, mesmo tendo sob seus cuidados a lista completa, o vereador diz que a publicação só deve ser feita depois de corrigida a lista. Se a lista publicada for sempre uma corrigida, nunca serão identificados os erros no processo. Pelizaro neste instante tornou-se o maior inimigo do próprio Pelizaro. Quer sigilo – ainda que por um tempo - sobre uma lista que defendeu a publicação.
Os defensores da transparência total formam um grupo pequeno. Assim como o Pastor Palamoni, o vereador Della Motta defende a publicação imediata, sem filtros. “Eu fico realmente preocupado. A transparência é tudo. Se publica lista de cesta básica, lista de creches, e inclusive essa Câmara brigou por tudo isso, nós temos que tornar pública essa lista (da vacinação). O que aconteceu? E se for servidor, se tiver mais pessoas envolvidas? Tem que ser punidas. Chegou a lista aqui? Por que está mantendo essa lista em sigilo?”, questionou na manhã desta terça-feira.
Seu colega, Marcelo Tidy. é ainda mais enfático e garante que, se tivesse a lista em mãos, ele mesmo faria a divulgação. “A gente entende que tem alguns profissionais da saúde que foram cadastrados de forma errada. Mas tem aquele ditado... ‘Quem não deve, não teme’. Eu, particularmente, sou a favor da transparência total”, disse, garantindo que vai acompanhar a punição a quem tenha cometido algum erro no procedimento. “Pelo que acompanhamos, não é função da Câmara divulgar essa lista. Mas se eu estivesse com ela e pudesse expor, eu faria isso. Como eu não tenho (a lista), não posso fazer porque não está em meu poder. Mas eu sou favorável à transparência. Se estivesse comigo, eu mostraria. Se eu receber essa lista, eu tenho o compromisso de ir expor, porque, como eu digo, a gente não tem nada a temer e, quem não deve, não teme. Se alguém estiver de forma errada, que se entenda com a Justiça.”
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