Nunca passou pela minha cabeça que após a redemocratização haveria a imposição do silêncio na fala daquele homem. Ainda que tenha força na voz, persuasão através de uma linguagem popular, cheio de erro de concordância de quem não lia - porém entendia das entranhas brasileiras - arrastava multidões. Em momentos difíceis houve o imperativo do Estado para manter a sua mudez. A democracia contempla virtudes, todavia a maior dentre elas é a liberdade de poder falar com seu povo, abraçar e beijar o rosto de seus verdadeiros camaradas.
Diante deste fato, ambientes democráticos que perdem a liberdade de expressão, torna-se esta perda um motor para causar convulsões sociais. É preciso lembrar que nos anos de chumbo, bombas eram lançadas em bancas de jornal contra conteúdos alternativos. Nosso país passou por dolorosas chagas, e mesmo os compadres insistindo em apagar os fatos contemporâneos da época, os movimentos organizados sociais impediram e tomaram as ruas em defesa da voz do povo. Lamentavelmente a história se repete de outro modo com efeitos parecidos. Não se silencia apenas a fala, há movimentos autoritários para “amordaçar” inclusive a capacidade de pensamento.
Novamente condenam o conhecimento. Condenam o amor ao saber. As medidas racionais advêm de um singelo e nobre ato de indagar. O questionamento, os sensos críticos são verdadeiras "armas" sociais. Entender, contextualizar fatos, possuir discernimento é uma ameaça para quem não tem compromisso com a Democracia. Compreender o "porquê" das coisas é um ato de inteligência assim como a consciência de que não sabemos tudo.
Filosofar é uma arma, uma voz contra aqueles que possuem má intenção. Universalizar o senso da indagação é contra o desejo dos dominantes, que sempre quiseram, somente para si, a virtude do ócio. Lembremos que ter o tempo livre para pensar na Grécia antiga era privilégio divino dos escolhidos. Lembremos também do “crime” imputado a Sócrates na ótica dos homens públicos de sua época. Democratizar o ensino é diminuir a discrepância social imposta há séculos.
Precisamos ler textos, discutir política cara a cara, olho no olho, em espaços públicos como nas antigas “ágoras” da Grécia. É preciso enfrentar a escuridão do fascismo frente a frente. Censura e Democracia não combinam. Digamos não ao silêncio do “Carcará do Sertão” nordestino. Ele tem muito que falar a seu povo. Digamos não à “criminalização” da filosofia.
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