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Pandemia abala francanos e procura por ajuda psicológica cresce na cidade

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo Pessoal
As psicólogas Gabriela Souza Granero, Flávia Canavez Batista e Suzi Mara Freitas.
As psicólogas Gabriela Souza Granero, Flávia Canavez Batista e Suzi Mara Freitas.

Um estudo realizado pelo Ministério da Saúde revelou que cerca de 30% dos brasileiros procuraram por tratamento psicológico entre agosto e outubro do ano passado. Em Franca, psicólogas afirmam que esse aumento chegou a até 40% durante o período, mas as dificuldades financeiras foram responsáveis por várias oscilações ao longo da pandemia.

As psicólogas Suzi Mara Freitas e Flávia Canavez Batista perceberam quase a mesma procura pelo atendimento entre o período de estudo da pesquisa. Flávia estima que houve um aumento gradativo nas consultas particulares de 40% e Suzi revelou que na época, tinha 100% dos horários preenchidos, e hoje tem cerca de 66%.

“Percebi que nesse um ano de pandemia tivemos vários momentos de oscilação em relação a procura pelos atendimentos, e acredito que isso não tem relação somente com as questões emocionais, mas também com as questões econômicas. A princípio, tivemos uma queda significativa – com o fechamento do comércio, muitas famílias perderam seus empregos, e mesmo diante da demanda de cuidado emocional evidente, muitos não tiveram condições financeiras de dar continuidade à psicoterapia”, disse Suzi.

Essa variação nos atendimentos também foi sentida por Flávia, que relaciona com as dificuldades financeiras. “Quando a pessoa procura pelo atendimento psicológico, ela vem atrás de uma acolhida, de resoluções e acaba ficando. Porém, com a situação em que estamos vivendo, entrando e saindo de fases de isolamento, tendo seus trabalhos e salários reduzidos, muitos têm que cortar a terapia para dar atenção às necessidades básicas de sobrevivência. Mas é nítida a frustração de ter que deixar a terapia de lado e não saber se um dia vai poder voltar novamente”.

Motivos da procura

Ainda que o momento econômico não seja favorável, nem ele e nem as restrições – com consultas on-line – foram suficientes para impedir que a busca por uma melhor saúde mental ganhasse mais importância. Os dados da pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde indicam que, entre as causas, 78% estão ligadas à ansiedade e 51,9% ao estresse. O momento atual influenciou diretamente novos pacientes e pessoas que já faziam terapia.

“Os motivos em relação à procura estão quase 100% atrelados à pandemia. São pessoas que chegam ansiosas por medo de ficarem doentes, por causa do isolamento social, que estão sofrendo após a morte de algum familiar ou amigo para a covid-19 e com medo de não conseguirem emprego”, disse Flávia. “Mesmo pacientes que já tinham recebido alta do tratamento tiveram recaídas durante a pandemia e precisaram de uma nova acolhida”.

Para Suzi, neste momento em que houve uma leve recuperação econômica e que algumas pessoas puderam retornar ao tratamento, muitas já estavam extremamente adoecidas, vivenciando instabilidades em todos os aspectos da vida: social, financeiro, profissional e na saúde.

“Todos esses pontos foram centrais na maior parte das demandas de atendimento. Medo, angústia, preocupações financeiras, dificuldades com as restrições sociais, sobrecarga de trabalho, migração para o home-office – uma vez que o ambiente de casa e o ambiente de trabalho se fundiram, ansiedade diante de uma nova realidade e da ameaça pelo adoecimento e da adaptação à nova realidade”, afirmou a psicóloga.

Sequelas emocionais e cognitivas

Durante o período, a psicóloga Gabriela Souza Granero atendeu dois jovens, um de 18 e outro de 25 anos. Ambos perderam a mãe para a covid-19 e procuraram a ajuda profissional para passar pelo momento de luto, que veio acompanhado de sentimentos como raiva, negação e depressão. “A forma como esses pacientes têm lidado com a elaboração do luto de uma figura tão importante para constituição familiar não pode ser generalizada, pois são sofrimentos que se relacionam com sua condição psíquica. Mas é evidente que a perda da mãe causa um sentimento intenso de vazio e de readaptação de todo arranjo familiar, principalmente em relação às funções”, disse Gabriela.

A psicóloga também relatou o caso de duas pacientes relacionadas diretamente com o medo de perder familiares para a doença. “Uma que o pai se recuperou recentemente de um câncer e pegou covid, o que gerou uma intensa carga emocional e desestruturação de sua rotina, causando um esgotamento físico e mental, e outra que o irmão se encontra internado em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva). É uma dor principalmente por se tratar de um familiar jovem”.

Além do medo e angústia, o isolamento social que se estende por mais de um ano deixa sequelas que necessitam de apoio profissional. “É um aspecto nítido. Atendo uma paciente criança que desenvolveu uma série de tiques motores e vocais, como gagueira, impulsionado pelo isolamento social. A junção de sua condição genética, fatores ambientais, mais o isolamento rigoroso fez desencadear tiques visíveis”, disse Gabriela. Para ela, esse aumento pela busca de atendimento psicológico evidencia que a terapia tem sido um recurso eficaz neste momento “caótico”.

Sessões on-line

Como única alternativa viável, as terapias migraram para a forma remota. Os profissionais relataram que houve dificuldades na adaptação de alguns pacientes e até na estruturação do atendimento, mas que os prejuízos não são tão consideráveis. Apesar disso, a consulta presencial tem particularidades que o on-line não consegue oferecer.

“Não é a mesma coisa que o atendimento presencial, pois além da escuta, o corpo também fala, os olhos falam e conseguimos ter uma atenção melhor da queixa do paciente. Sinto falta desse contato, mas a segurança e saúde vem sempre em primeiro lugar e o método online está surtindo um bom efeito”, disse Flávia.

Suzi concorda que o atendimento remoto não possibilita todas as percepções, mas que também é acessível a mais pacientes. “Ficamos mais restritos a algumas informações sensoriais. No entanto, não podemos deixar de reconhecer que o atendimento online facilita o acesso à terapia, principalmente às pessoas que, por algum motivo, apresentam restrições para locomoção ou residem em outras localidades”, falou. “Posso afirmar que o atendimento online não é a mesma coisa que o presencial, agora, se é melhor ou pior, dependerá muito do perfil do paciente”.

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