Os impactos causados pelo coronavírus já tomaram dimensões incalculáveis, tanto na saúde e economia, quanto no bem-estar da população. Ainda que com restrições, uma grande parte dos setores encontrou uma forma de se reinventar e permanecer em funcionamento de acordo com medidas restritivas estaduais e municipais. Lojas e igrejas poderão reabrir, com público, neste domingo. Restaurantes, salões de beleza e academias poderão retomar suas atividades na semana que vem. Mas para um setor que depende justamente da presença de centenas de pessoas, normalmente aglomeradas, essa é uma alternativa possível?
Esse é o dilema que enfrentam diariamente todos os profissionais que trabalham com eventos. Sejam casamentos, aniversários, shows, festas ou festivais, é uma missão complicada conciliar todos os fatores que envolvem este tipo de atividade com as restrições impostas para evitar a propagação da covid-19. É um desafio enfrentado não apenas no Brasil, mas praticamente no mundo inteiro. Sem opção, o que resta a quem vive de eventos é suspender a atividade. Não é uma decisão fácil.
É o caso de Beatriz Pires, que aguarda com ansiedade pela retomada. Beatriz é digital influencer, mas trabalha há anos em diversas áreas que o setor de evento exige, desde a venda de ingressos até a recepção ou marketing de uma festa. Foi inclusive trabalhando no ramo que ganhou visibilidade no Instagram e alcançou mais de 10 mil seguidores, com foco principal no conteúdo sobre, justamente, eventos.
“Eu cresci no Instagram por causa dos meus trabalhos em eventos. Com a pandemia, eu foquei na rede social e virou uma das minhas maiores fontes de renda. Mas não chega nem perto do retorno que eu tinha antes, até porque o meu público mesmo são as pessoas interessadas no setor. Estou até tentando fazer com que eles foquem em alguma outra coisa, mas está sendo bem difícil”, disse.
Beatriz diz que nenhuma alternativa supre o retorno financeiro que ela tinha trabalhando com festas. O irmão, que também trabalha na área, mais especificamente com serviço de bartender, também sofre os prejuízos. “Dá um desespero quando pensamos que vai ser o último setor a voltar. É triste, porque os funcionários e todo o pessoal envolvido até tenta trabalhar, mas não tem nada há meses. Estamos sendo muito prejudicados”, diz a influencer.
Embora o cenário atual seja desanimador, Beatriz segue esperançosa com o que virá pós-pandemia. “Eu acho que vai ser um pouco difícil para se reestabelecer no começo, mas quando voltar, vai voltar com tudo e ser realmente muito intenso. As pessoas estão querendo isso e não aguentam mais ficar em casa. Quando voltar tudo ao normal mesmo, eu tenho fé que a gente vai superar (e recuperar) o triplo do que a gente perdeu”, falou Beatriz.
Quem também anseia pela retomada dos trabalhos é a cerimonialista Georgia Rios. Menos otimista, ela acredita que o setor não vai retomar rapidamente sua antiga força nem mesmo com uma alta demanda. “Como isso já se estendeu por mais de um ano, nós não seremos recompensados. A lacuna financeira que ficou durante esses quase 14 meses nós não vamos conseguir recuperar. Quanto mais os meses de pandemia vão se estendendo, mais contratos a gente perde. Eu acredito que vai voltar com tudo sim, as pessoas estão sedentas por eventos, mas essa lacuna financeira não vai ser reequilibrada”, avalia Georgia.
Apesar de trabalhar com diversos tipos de eventos, casamentos são seu grande filão. Ela afirma que durante a pandemia a quantidade de casamentos realizados caiu de 30, em 2019, para 3 em 2020; uma queda de 90%. “Os casamentos realizados durante esse período de restrições foram ainda muito pequenos. A maioria dos noivos optaram por alterar a data, justamente porque eles não gostariam de realizar o seu casamento em uma fase tão restritiva, onde eles não poderiam nem ter pista de dança”, afirma.
Para a maioria dos noivos, toda a descontração, alegria e até mesmo a dança não podem ser descartados em um momento de celebração tão cheia de significados. “A gente ia ter eventos com quatro ou cinco atrações artísticas, mas como que eu ofereço para o meu cliente essas atrações, mas falo para ele que precisa assistir todas sentado? Não faz muito sentido. Lógico que a gente entende que era e é ainda uma restrição positiva, porque realmente a pista de dança é o lugar que gera mais aglomeração e não faz sentido no meio de uma pandemia promover uma aglomeração de 200, 300 pessoas em uma pista de dança”, diz Georgia.
Diferente de outros setores, a quantidade de trabalho de Georgia dobrou na pandemia, mas pelo mesmo preço que já estava contratado. “Não busquei nenhuma alternativa, porque nós, cerimonialistas, não estamos atuando nos eventos e festas in loco, mas a demanda para nós aumentou muito em relação a trabalho organizacional, por conta das remarcações. Isso tem gerado muito retrabalho. Toda essa demanda de reagendar o casamento, falar com todos os profissionais envolvidos, verificar a disponibilidade de data e conciliar uma data é feita pelo cerimonial. A demanda cresceu, porém sem as entradas financeiras, o que é pior ainda”.
Já Vinícius Fernandes praticamente aposentou-se dos trabalhos festivos. Além de trabalhar com a estrutura dos eventos, ele foi o responsável por trazer grandes nomes da música sertaneja a Franca, mas se vê impossibilitado de atuar na organização de shows há mais de um ano. Como segunda opção, está focado na construção civil. “O setor está agonizando. Tive que me reinventar e agora estou alugando as estruturas para construção civil, um ramo totalmente desconhecido até então. E creio que eventos grandes só no segundo semestre de 2022, mas não vejo otimismo na volta, não”, disse, resignado.
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