Muito triste
Presidente da Pastoral do Menor em Franca, o Padre Ovídio é uma das pessoas que mais ficaram impactadas com o fim do trabalho da Fundação Casa de Franca. "É a maior dor que estou vivendo hoje.
: Antigamente, o atendimento de apreensão socioeducativa era realizado pela Febem. Como era o atendimento aos jovens infratores nesta instituição?
Padre Ovídio: “É muito triste recordar. Posso trazer na memória que nem Franca queria unidade de internação. A Febem, assim conhecida no passado, era um lugar de muita rebelião, tortura, morte e violação de direito. Enfim, tudo aquilo que deveria existir para tratamento do adolescente, que estava cumprindo medida socioeducativa, não tinha. Vocês podem pesquisar, que no final dos anos de 1990, começo dos anos 2000, até 2005, a situação da Febem era muito triste”.
PB: Como iniciou a parceria entre Fundação Casa de Franca e Pastoral do Menor?
PO: “Fomos chamados pela presidência da época, para que fizesse um trabalho de mudança nos paradigmas de formação dos agentes da Febem e foi quando surgiu a proposta da gestão compartilhada. Então, começou-se um trabalho de articulação a nível estadual, levando esse novo olhar que a Febem queria trazer. Depois, com um novo olhar, começou a ser chamada Fundação Casa”.
PB: Como foi o início dos trabalhos socioeducativos da Pastoral do Menor de Franca?
PO: “Franca, antes mesmo de inaugurar a unidade de internação, já começava um trabalho de conscientização da sociedade com o que é a medida socioeducativa. O que é cuidar do adolescente? Para que ele não chegasse onde chegou. O que é trabalhar uma medida socioeducativa? Enfim, trabalhar o adolescente naquilo que ele não teve. Aquilo que dele foi tirado direito. Para que ele pudesse ser resgatado com dignidade em todos os sentidos, dele e de toda sua família. A Pastoral foi construtora disso”.
PB: Qual o papel desempenhado pela Pastora na Fundação Casa?
PO: “Foi uma construção de dar ao adolescente, o que é direito dele e construir uma rede social, que seria importante no trabalho com esse adolescente. Quando ele chega e, especialmente, preparando a saída desse menino. Ele, como regresso, como encaminhar esse menino? Como ele será acolhido pela sociedade? Como dar oportunidades a esses adolescentes? Então fizemos isso de uma maneira muito forte”.
PB: Quais os trabalhos realizados pela Pastoral na Fundação Casa?
PO: “Entra o trabalho psicossocial, acompanhamento dos psicólogos, de uma maneira muito especial com cada adolescente. Um acompanhamento de assistência social não só com o menino, mas a família do menino. Entra também a questão pedagógica. O que é feito, oferecido e resgatado em todo o sentido pedagógico. A questão da saúde desse menino. Atendimento médico, odontológico, de enfermaria e acompanhamento de medicamentos desses meninos. Além da questão administrativa, que na gestão compartilhada é inserida junta com o menino. Até o operacional, as mulheres se tornam mãe daqueles meninos. O jeito, olhar, a maneira pela qual é feito o atendimento com eles”.
PB: Qual o seu sentimento com o fim do vínculo da Pastoral do Menor com a Fundação Casa?
PO: “É a maior dor que estou vivendo hoje. Tento disfarçar. Tento passar uma imagem para as pessoas, mas, não estou conseguindo mais. São 52 jóias, que deixaram de estar lá dentro. Nós que ajudamos a construirmos essa mudança. Nós que vimos os resultados dessa mudança. Ver acabar algo que está dando certo é muito doido. A gente sabe que serão mais 52 pessoas desempregadas e que terão que buscar emprego. Eu falo que é um pedaço do meu corpo que está sendo arrancado”.
PB: Em sua opinião, como será a Fundação Casa com gestão plena do Governo do Estado de São Paulo?
PO: “Fica a minha dúvida. A minha pergunta no meu coração sobre como será. Por que não estando lá dentro, não tenho os meus olhos para ver. Não tenho os meus ouvidos para ouvir. Por que a proposta de gestão compartilhada é exatamente essa: juntos construir, um olhando o outro. Juntos fazendo, para que nenhum dos dois viole ninguém. Fazer com que o centro de garantia de direitos realmente funciona. Então fico na dúvida, se isso vai acontecer. Se vai ser levado, denunciado, cobrado o que não está sendo feito”.
PB: Ainda longe, a Pastoral pretende desenvolver algum trabalho com estes jovens?
PO: "Estamos tentando criar projetos para dar continuidade no atendimento. Acompanhar esses meninos de alguma forma. Mas, ainda, são todos projetos”.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.