O termo “linha de frente” se tornou habitual em mais de 12 meses de pandemia. É geralmente usado para mencionar profissionais da saúde que trabalham diretamente com casos de covid-19. Mas nem sempre foi assim. Antes era usado principalmente em questões ligadas às forças armadas, para se referir aos primeiros soldados que entram em combate. Aqueles que lidam primeiro com o inimigo. Na guerra contra o coronavírus, a linha de frente são os médicos da Ala Covid.
É o caso da psicóloga Flávia Capalbo Poli, 32, que trabalha com pacientes infectados pelo vírus. Com uma rotina de trabalho desgastante, ela permanece 10 horas diárias no Hospital do Coração oferecendo suporte às pessoas que chegam contaminadas. Além disso, atende em sua clínica particular após as 17h e ainda acha tempo para concluir sua pós-graduação em neuropsicologia.
Para Flávia, a experiência de estar na linha de frente do combate a covid-19 é muito rica no quesito profissional e de evolução como pessoa, mas também angustiante por diversas situações tristes que é obrigada a conviver. “É difícil conviver com internações que antes não eram comuns. Estão internando familiares ao mesmo tempo e pela mesma condição. Desde que trabalho em hospital nunca vi algo assim”, relatou.
Além dos reflexos físicos da doença, Poli comenta, enquanto psicóloga, que há muitas problemáticas a se enfrentar no dia a dia de uma pessoa internada. “É uma roleta russa. Não sabemos como os pacientes vão reagir à doença quando chegam ao hospital. Eles ficam com medo, com ansiedade. É uma mistura de sentimentos que tentamos amenizar”.
Ela também trabalha com a comunicação entre os parentes e os pacientes internados. É comum, antes de uma possível intubação, que o enfermo contate familiares através de uma chamada de vídeo. “O contato com pessoas que eles amam pode dar força e alento naquele momento." Mesmo em casos graves em que os pacientes estão sedados, a equipe pede para que as pessoas mais próximas mandem áudios. “Sempre pedimos para que gravem ao menos dois áudios por dia, pois mesmo com a pessoa inconsciente, colocamos o celular no ouvido dela. Acreditamos que isso possa dar mais força”, contou a psicóloga.
A reportagem, ao procurar Flávia para ouvir seus relatos, mencionou que o objetivo era prestar uma homenagem aos profissionais da saúde. A abordagem causou uma reflexão pessoal nela. “A melhor homenagem que as pessoas podem fazer para os profissionais da área da saúde é respeitar os protocolos. Isolamento, uso de máscara e se cuidar. Não queremos homenagem, queremos respeito e o pensamento coletivo, que não está tendo na sociedade”, desabafou.
Flávia ainda comenta sobre a exaustão dos médicos e enfermeiros que lutam todos os dias para salvar vidas. Para ela, nenhum deles está cansado de trabalhar. O cansaço é emocional. “Não estamos cansados e nem reclamando de trabalhar. É nosso trabalho. Estamos cansados emocionalmente. Também somos seres humanos. Ver famílias sendo internadas é angustiante”, concluiu.
Quem também atua na Ala Covid do Hospital do Coração é a enfermeira assistencial Mítia Cintra, 40, que participa da equipe que coordena procedimentos técnicos. Seus plantões são noturnos junto a seis médicos. Para ela, estar na situação de lidar com pacientes contaminados “é uma guerra”, por isso leva ao pé da letra o termo “linha de frente”. “Eu sempre brinco com a equipe que um soldado não foge da guerra, é a nossa missão. Precisamos ir até o fim. Um apoiando o outro”.
Apesar do amor à profissão e do empenho em salvar vidas, Mítia relata o quão difícil é sua profissão em meio a uma pandemia. “É muito sofrimento, muita dor. Nos casos de pioras ou de mortes, nossa sensação é de impotência. Por isso damos nosso máximo. Cada um dá o seu melhor pensando em cada paciente. Precisamos ser fortes”.
Apesar de encarar seu trabalho como uma guerra, a enfermeira frisa que todos que ali trabalham são seres humanos e ainda mostra respeito às famílias que sofrem. “Não somos nem heróis e nem heroínas. Estamos ali para servir e cuidar. O paciente pode ser o amor da vida de alguém, poderia ser eu, poderia ser algum familiar meu”.
Mítia ressalta o trabalho de toda equipe do HC, mas apesar do grande esforço coletivo nem sempre o objetivo é alcançado. Para ela, é assustador o revés. “Nós conseguimos salvar muitas vidas, mas ao mesmo tempo muitas pessoas têm morrido. Isso é assustador”, desabafou.
Assim como Flávia, a enfermeira relata o cansaço emocional de enfrentar frente a frente uma pandemia. “Só quem está lá dentro sabe como é sentir e viver tudo isso, tamanha a complexidade da doença. O emocional pesa, vamos para mais um ano de pandemia. Não está fácil ver gente morrer todos os dias”. Ele também relata as marcas físicas que ficam. “Tem sido exaustivo os plantões. A paramentação tem deixado marcas, como alergia no couro cabeludo, por conta do uso de touca tempo todo”.
Para outra enfermeira da Santa Casa, Renata Barros Mendes, 35, enfrentar a pandemia na linha de frente tem sido desafiador. Ela trabalha 12h por dia. São 8h30 na Ala Covid e mais 6h no Hospital Psiquiátrico Allan Kardec. “A rotina é marcada por muitas horas de trabalho, estresse, pressão e a maior parte do tempo é literalmente entre a vida e a morte”.
Apesar das dificuldades e das lutas diárias, Renata considera uma honra poder ajudar pessoas e salvar vidas com a sua profissão. “Me sinto muito honrada em, de alguma forma, ajudar tantas pessoas. É muito gratificante participar de alta hospitalar e ver um paciente que chegou em um péssimo estado melhorar”.
A enfermeira conta que vive intensamente cada desafio com seus colegas de trabalho e pacientes. “Torço para a melhora de cada um deles. Choramos a cada derrota e ficamos radiantes em cada vitória”.
Ao ser questionada sobre a experiência mais marcante atuando na Ala Covid, Renata relembrou o triste caso de um paciente que foi extubado. Em consciência, a enfermeira pode ouvir histórias dele, sobre a família, filhos e trabalho. Saiu muito satisfeito de mais um dia de luta. No outro dia, o cenário era outro. “Quando cheguei no dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi ver como ele estava. Foi nisso que o mundo desabou para mim”. O paciente precisou ser intubado novamente e não resistiu. “No início daquela tarde ele faleceu. Foi um sentimento de impotência muito grande”, lamentou.
Assim como várias histórias tristes, a enfermeira também presenciou dias felizes, como o caso de uma senhora muito idosa que estava internada. Muito mal por conta do coronavírus, Renata pensou que a perderia, mas não. “Ela ficou muitos dias internada, já estava quase sem esperanças. Mas Deus foi tão bom, que ela teve alta e retornou à vida”, relatou.
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