SEM SOLUÇÃO

Fases mudam, mas comportamento do francano, não: média de isolamento da cidade é inferior a 40% em 2021

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Lucas Faleiros/GCN
Foto do Centro de Franca na última quarta-feira, dia 7 de abril, na fase emergencial
Foto do Centro de Franca na última quarta-feira, dia 7 de abril, na fase emergencial

Enquanto os números de mortes e diagnósticos positivos de Covid-19 seguem aumentando e assustando dia após dia, as taxas de isolamento se mantêm em um nível baixo independentemente do quão restritivas sejam as medidas que estejam valendo na cidade.

Prova disso é que mesmo no período com as regras mais rígidas, o francano insistiu em continuar nas ruas. Do dia 22 até 30 de março, vigorou um decreto publicado pelo prefeito Alexandre Ferreira que endurecia ainda mais os protocolos impostos pela Fase Emergencial do Plano SP. Àqueles dias, o funcionamento de bancos, lotéricas, vários horários de linhas de ônibus e os serviços de entrega via drive-thru foram suspensos. Ainda assim, a média de isolamento social durante os nove dias foi de apenas 39%.

E a situação fica ainda pior se observada de um panorama geral. Em um levantamento realizado com os dados divulgados pelo governo estadual, Franca tem uma média de apenas 36% de isolamento social no ano de 2021 – considerando do dia 1° de janeiro até 5 de abril.

Os números deste ano, inclusive, apontam um dado interessante: indiferentemente de qual conjunto de restrições o município esteja seguindo, a quarentena continua pouco efetiva. Nos dias 1, 2 e 3 de janeiro, a cidade estava na fase vermelha do Plano SP e registrou a sua melhor marca: 43% de média no isolamento. Vale salientar, porém, que muitos cidadãos viajaram nesses três primeiros dias do ano.

No dia 4 de janeiro, voltou a valer a fase amarela, estágio que perdurou até 17 de janeiro e registrou a segunda pior média: 35%. Depois, Franca foi rebaixada à fase laranja, o que durou apenas uma semana, quando foi registrado o índice de 34% de isolamento, o pior de todos.

A partir de 25 de janeiro, a cidade foi rebaixada à fase vermelha, onde permaneceu até 21 de fevereiro, vivenciando o seu maior tempo em 2021 no então estágio mais restritivo do Plano SP. Curiosamente, o efeito da restrição no isolamento foi mínimo, com a média subindo só um ponto percentual. Os números ainda continuaram os mesmos quando o Governo estadual promoveu a DRS8 à fase laranja, o que seria mantido até 5 de março.

No dia 6 do mesmo mês, todo o Estado de São Paulo voltava à fase vermelha por conta do colapso nas UTIs. Só então Franca apresentou uma leve melhora nos números da quarentena: uma média de 39% de isolamento nos nove dias de duração do estágio.

Desde então, a média dos índices manteve-se estática. O município ficou na fase emergencial do Plano SP de 15 a 21 de abril e, depois disso, vieram os nove dias com medidas restritivas da Prefeitura. Com o fim do decreto, volta a vigorar a fase emergencial em 21 de abril, o que acontece em todo o estado até este domingo, 11. Em todos os períodos citados, o isolamento social ficou estagnado em 39%.

Outro dado relacionado à questão, só que esse ainda mais preocupante, é que as medidas restritivas não têm sido capazes de frear o número de mortes e o aumento nas internações. Prova disso é que desde quando Franca esteve na fase laranja pela última vez, de 22 de fevereiro a 5 de março, as restrições só aumentaram e a média móvel de óbitos segue alta, permanecendo na faixa de 2,8 falecimentos ao dia, em média. Além disso, desde o mesmo período, o número total de leitos de UTI no município precisou ser aumentado de 75 para 89 e, ainda assim, os hospitais continuam superlotados.

Em compensação, a média móvel de casos, apesar de estar instável, mostra um declínio. Antes da entrada da fase emergencial no município, a média móvel geral de diagnósticos positivos em 2021 era de 141. Depois do endurecimento das medidas, o número caiu para 88 casos diários, em média.


Observatório de Desigualdades
O levantamento de dados realizado pela reportagem do portal GCN com os boletins da Prefeitura de Franca e do Governo de São Paulo foi disponibilizado para que três integrantes do Observatório de Desigualdades, um grupo de pesquisa e extensão da Unesp, que tem feito trabalhos relacionados à pandemia, analisassem.

Os pesquisadores Angélica Vieira de Souza Lopes, pós-doutoranda em Geografia pela Unesp de Rio Claro; Anielly Schiavinato Leite, graduanda em Direito pela Unesp de Franca; e Jacques Felipe Iatchuk Vieira, mestrando em Planejamento e Análise de Políticas Públicas na UNESP de Franca, deram suas opiniões sobre a questão do isolamento na cidade e disseram como ela se relaciona diretamente com a evolução do coronavírus.

Angélica Vieira alega que os índices da quarentena no município são insatisfatórios devido a baixa adesão dos próprios francanos, mas não isenta o poder público de culpa. “O isolamento em Franca durante 2021 é praticamente inexistente, com médias pouco acima de uma situação de normalidade na cidade, o que está diretamente relacionado com o avanço da Covid-19. Isso reflete a baixa conscientização da população em relação à gravidade do momento que estamos passando, mas também as poucas ações por parte dos governos federal, estadual e municipal em garantir dignidade para que as pessoas consigam permanecer em casa”.

E as críticas da pós-doutoranda aos governantes não param por aí. “Os dados da quarentena indicam que, por si só, as mudanças de fase no Plano São Paulo têm sido inócuas, funcionando mais como indicativos e sugestões. Para piorar, o Governo federal, além de não estender o auxílio emergencial, ainda manteve uma postura negacionista no enfrentamento da Pandemia, estimulando que os brasileiros ignorem a gravidade do momento”.

A pesquisadora também afirma que o índice ideal de isolamento seria em torno de 70% - o que está bem longe de acontecer em Franca – e  que tudo isso torna o amparo à população ainda mais necessário e urgente. “As medidas restritivas precisam ser aliadas a políticas públicas que permitam que a população realmente fique em casa e ações que protejam quem precisa sair. Só assim os números vão melhorar”.

Jacques Felipe segue a linha de pensamento de Angélica e detalha algumas ações que poderiam ser realizadas. “Por um lado, campanhas diversas de conscientização, fiscalização e punição para as pessoas e estabelecimentos que não respeitarem as regras. Por outro, condições para que os cidadãos permaneçam em suas residências sem precisarem se expor para garantirem a sua sobrevivência da família. É importante distribuir máscaras para a população, não reduzir o número de ônibus em circulação e escalonar os horários de entrada e saída para os trabalhadores de diferentes setores, impedindo que haja superlotação dos transportes, por exemplo”.

Apesar disso, para que essas políticas funcionem, o membro do Observatório diz que precisa existir um alinhamento entre a população e os governantes da cidade. “Esses pontos dependem de uma atuação mais incisiva do governo municipal, fazendo, também, articulações com os empresários para incentivar medidas que protejam os empregos e a saúde dos funcionários. Os dados mostram que não há diferença de impacto econômico entre municípios que fizeram um isolamento mais forte e aqueles que não tomaram medidas restritivas”.

Enquanto tudo isso não acontece, Anielly Schiavinato analisa os dados da pandemia, que têm se mantido com altas médias de novos casos, mortes e internações. Segundo ela, a situação de Franca é extremamente grave, já que os números de diagnósticos positivos se estabilizaram em quantidades próximas ao pior momento da pandemia no ano passado.

“A segunda onda tem atingido a cidade de uma forma muito mais agressiva, gerando casos mais graves e um aumento proporcional do número de mortes, com um avanço significativo sobre indivíduos mais jovens. Isso sobrecarrega o sistema de saúde, que tem de lidar com internações longas e em excesso. Assim, continuamos tendo muitos casos novos todos os dias, mas com os leitos cada vez mais ocupados e profissionais de saúde completamente sobrecarregados”, observa a estudante de Direito.

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