Não é segredo para ninguém que a vida de todas as pessoas envolvidas com a medicina, independentemente de qual função exercem em uma unidade de saúde, mudou radicalmente com a chegada da pandemia. Existe, porém, uma parcela de profissionais que teve a sua rotina alterada não só de forma repentina, como também inesperada: os que são especialistas em nefrologia, segmento dedicado a diagnosticar e tratar problemas relacionados aos rins.
Isso porque a Covid-19, apesar de ser uma doença que ataca prioritariamente os pulmões e as vias respiratórias, afeta também o sistema renal humano. Isso tem feito com que vários pacientes passem a apresentar lesões renais agudas e, consequentemente, comecem a depender do processo de hemodiálise, seja ele feito por um período específico ou, em um cenário pior, permanentemente.
A médica Aniette Renom Espineira é especialista em endocrinologia e metabologia e atua na área de nefrologia e terapia renal substitutiva no complexo Fundação Santa Casa de Misericórdia de Franca. Ela explica que a relação entre os rins do paciente e o coronavírus acontece por conta de uma enzima naturalmente presente no corpo humano e que uma grande porcentagem de pessoas infectadas pelo vírus pode acabar sofrendo de problemas renais.
“Primeiramente, é preciso dizer que a Covid-19 pode se manifestar de muitas formas. Além do sistema respiratório, ela pode criar reações na pele, no tubo digestivo, no sistema nervoso central, no sangue e também nos rins. O coronavírus utiliza uma proteína chamada ACE2, que é a enzima conversora da angiotensina, como receptora para entrar no nosso organismo. Essa enzima é encontrada com maior riqueza em dois tecidos do corpo humano. Em primeiro lugar, vêm os pulmões, onde há a maior concentração, depois, os rins, que acabam também recebendo uma carga viral alta. Isso cria essa relação forte que temos visto entre os problemas renais e a covid-19”, esclarece.
Essa ligação entre a doença e as lesões nos rins citada por Aniette pode ser comprovada com números. Segundo levantamento da Unimed, em um comparativo entre os três primeiros meses de 2020 e 2021, houve um aumento de cerca de 32% no número de pacientes que precisam de hemodiálise na rede de Franca. Entre janeiro e março do ano passado, quando a pandemia ainda começava a se insinuar para o país, eram 158 pessoas fazendo o tratamento na cidade. No mesmo período do ano atual, já são 234. Isso sem incluir hospitais como o Regional e a Santa Casa, que não disponibilizaram dados concretos.
Segundo a especialista, até mesmo pessoas que nunca apresentaram algum problema nos rins podem acabar precisando das hemodiálises. “Independentemente da idade ou de qualquer outro fator, o coronavírus é capaz de induzir lesão renal aguda. Até mesmo em pessoas que têm função renal normal. Estima-se que cerca de 20% a 30% dos pacientes com formas graves da Covid-19 desenvolvem problemas graves nos rins”.
O problema se torna ainda maior quando o infectado pelo vírus já tem comorbidades relacionadas ao sistema renal. “Pacientes portadores de doenças renais crônicas e males como a obesidade, hipertensão, diabetes, cardiopatias, neoplasias, dentre outros problemas, vão perdendo a função renal com o passar do tempo. Isso os coloca em um grupo de altíssimo risco. O sistema imunológico deles é bem mais comprometido e o perigo de mortalidade se torna muito alto quando contraem as formas mais graves da doença”.
Agravantes
Outros dois pontos ainda podem contribuir para uma maior fragilização dos rins de uma pessoa infectada pela Covid-19. O primeiro deles, segundo a médica, é a diminuição drástica de ingestão de alimentos e líquidos por muitos pacientes. “Eles normalmente chegam às enfermarias e UTIs muito desidratados, o que é um fator de risco para as lesões renais”.
O segundo fator tem a ver com a possibilidade de o enfermo contrair outras infecções. De acordo com o que expõe Aniette, a pessoa internada com coronavírus pode acabar contraindo novas bactérias durante o processo de intubação. “O espaço onde entram os tubos, nas vias respiratórias, é muito sensível a qualquer parasita, ainda mais os hospitalares, que são mais agressivos do que os comuns. Nesses lugares do corpo, não deveria haver acesso nenhum”.
Uma vez que o paciente acaba infectado por esses microrganismos e desenvolve uma pneumonia associada à ventilação mecânica, seu quadro pode evoluir para um choque séptico ou um colapso circulatório e, assim, ele começa a deixar de conseguir manter sua pressão arterial estável. É nesse ponto que o outro agravante figura.
“Quando isso acontece, é necessário medicar essas pessoas com remédios que elevam a pressão, o que acontece às custas de órgãos periféricos, incluindo os rins, que já vão estar debilitados por conta do colapso e vão acabar sofrendo mais, já que vai chegar menos sangue”, explica a especialista.
Mas, o problema não para por aí. Para combater as bactérias em si, por vezes se torna necessário o uso de antibióticos que destroem as células dos rins. “Muitos deles são nefrotóxicos. No final das contas, a lesão renal pode ser causada pelo próprio coronavírus, que usa da alta concentração de ACE2 nos rins para se estabelecer, pela desidratação, por colapsos respiratórios e pelo tratamento de infecções bacterianas”, conclui.
Hemodiálises
Com o aparecimento das lesões nos rins, os pacientes começam a perder a capacidade de filtrar o sangue corretamente. É nesse ponto que entra a hemodiálise, tratamento feito com objetivo de remover líquido retido no organismo e substâncias tóxicas do sangue e ajudar a regular a pressão arterial, funcionando como se fosse um rim artificial.
Aniette também afirma que, muitas das vezes, os problemas renais só aparecem por meio de exames específicos e são de difícil percepção a olho nu. “O organismo das pessoas passa a não conseguir mais limpar o sangue da forma adequada, mas, várias vezes, a quantidade de xixi permanece normal. Ou seja, por mais que a diurese esteja aparentemente acontecendo, ela pode estar com os rins prejudicados”.
Entretanto, também existem os casos em que o corpo do paciente demonstra sinais de que algo está errado. “Por vezes, quem está internado também perde a capacidade de eliminar o líquido do corpo e ele começa a ficar retido. O corpo vai inchando”.
Quando o sistema renal é afetado, são indicadas as hemodiálises, o que aumenta muito o risco de vida do internado. “Cria-se um fator de complicação que eleva muito a mortalidade da doença. Da parte dos pacientes que conseguem sobreviver, alguns conseguem recuperar-se da insuficiência renal e outros, infelizmente, ficam dependentes da hemodiálise permanentemente”, diz a endocrinologista.
Pressão e lado emocional
O cotidiano dos profissionais envolvidos com a nefrologia sofreu uma alteração inesperada. Além de lidarem com a mesma demanda de doenças renais crônicas que já existiam, o fator Covid-19 aumentou consideravelmente a carga de trabalho.
“As pessoas sempre tiveram problemas nos rins e essa incidência aumenta ao longo do tempo. Em cima disso, agora também têm os pacientes com coronavírus que precisam ser tratados pelos nefrologistas. Obviamente, está muito mais pesado. Os profissionais de saúde em geral estão mais cansados. Nas unidades daqui de Franca, nós estamos fazendo hemodiálise 24 horas por dia. Com duas, três máquinas, nós precisamos dar conta de dialisar todos os pacientes. A pressão está bem maior”, conta Aniette.
Além do desgaste físico, de lidar com toda a paramentação, banhar-se todas as vezes em que entram e saem de uma Ala Covid e tomar extremo cuidado para não acabar contaminado, faz-se presente também o esgotamento do emocional dos médicos. Por mais que tentem, por uma questão de saúde mental, não criar relações muito íntimas com os pacientes, os profissionais de saúde acabam ficando com a imagem de cada um com quem interagem na cabeça.
“Às vezes você vai passar um cateter em alguém e sai uma conversa. Chega no outro dia, a gente entra na sala e se depara com a pessoa intubada. Ou pior, você tem de dar a notícia para o paciente de que uma intubação será necessária. Nisso, ele pede para conversar por vídeo com alguém amado e diz ‘vai ficar tudo bem. Logo nos encontraremos’. Passam-se alguns dias e, quando você entra na sala... já não está mais lá. Não resistiu. Ficamos muito abalados”, se emociona a médica.
Ela conta também que acaba imaginando como foi a vida de cada pessoa que está internada e isso a abala ainda mais. “Vejo a mão de uma senhora lá, deitada, e penso ‘quantas fraldas já não deve ter trocado... quantos docinhos já não deve ter feito para os filhos, para os netos... e agora está nessa situação’. Mesmo que, ao longo de sua carreira, o médico coloque limites nas relações, porque é algo necessário para a sobrevivência emocional do profissional, ele também é um ser humano. São momentos muito duros para quem convive com a linha de frente. O nosso emocional está muito carregado”.
Para exemplificar, Aniette se lembra do caso de Tauane Cristina, jovem de 21 anos que estava grávida de 34 semanas e internada com coronavírus. Após realizar um parto de emergência na Santa Casa, Tauane acabou não resistindo e morrendo em decorrência das complicações causadas pela Covid-19. “Eu a atendi. Fiquei muito abalada com tudo o que aconteceu. Via aquele rostinho, aquela pele... 21 anos. Sabe? Eu só conseguia me perguntar ‘gente do céu, o que é isso que está acontecendo?’”, diz emocionada.
Cuidados e negacionismo
Vendo todo o caos acontecer bem na sua frente, a médica faz um apelo à população. “Queríamos que as pessoas entendessem o que precisa ser feito. Não se deixassem levar por vontades políticas como aconteceu. O que esperar de um governo que tem assumido uma postura como a atual na maior crise sanitária dos últimos séculos?”.
Ela ainda diz crer que se o que tivesse sido passado pelos governantes e até por parte da mídia fosse diferente, as vacinas teriam chegado a tempo de evitar um colapso. “As medidas de segurança deveriam ter sido mais seguidas. A covid-19 não mata tanto. O que não pode acontecer é todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, como aconteceu. E a única maneira de evitar que isso aconteça é diminuindo a circulação do vírus, diminuindo a transmissão. Não tem muito jeito”.
Diante de todas as vivências, Aniette Renom, que está constantemente lutando na linha de frente da pandemia, conta como reage ao ver atos negacionistas acontecendo em vários lugares do país – inclusive em Franca.
“O sentimento é de decepção e desesperança para com a raça humana. É como para uma mãe ver um filho no qual ela depositava uma grande expectativa voltar-se contra um valor que acredita ser universal. Você se pergunta ‘poxa, não bastou que o pessoal visse tudo pelo que passamos ao longo desse quase um ano e meio? Não bastou esse desencarne em massa no planeta todo? Não tem um acordar da consciência?’. O ego precisa ser menor. Somo grãos em uma multidão de areia”, desabafa.
Mortalidade da doença
Até esse momento, o coronavírus já vitimou quase 3 milhões de pessoas no mundo todo – 328 mil dessas mortes aconteceram no Brasil. Vendo o cenário catastrófico, Aniette opina e diz que a Covid-19 não deveria ter matado tanto.
“Pensando muito friamente, o vírus não deveria matar mais que a influenza ou a sepse. Não é que a covid-19 seja uma doença de alta mortalidade. Não é. 85% dos infectados sequer precisam dos serviços de saúde e só apresentam sintomas leves. O problema são os outros 15%, que parece uma porcentagem pequena, mas não é. Quando essa parcela vai toda para os hospitais, congestiona”
Com os sistemas de saúde menos sobrecarregados, a especialista acredita que as coisas teriam sido diferentes. “Sabemos que, se tivessem acontecido menos casos, a mortalidade seria bem mais baixa. Conseguiríamos dar um cuidado bem maior para todo mundo. Não é a mesma coisa dar suporte para 8 pacientes intubados e 35. Por isso, o nosso coração se despedaça”.
Aniette exemplifica a situação falando sobre o processo de pronação. “É quando você vira a pessoa e a deixa com as costas para cima. O procedimento é muito importante para pacientes que têm desconforto respiratório, pois eles conseguem oxigenar os segmentos posteriores do pulmão. Imagine quando você tem que fazer isso em uma unidade com 55 leitos. Tem paciente que pesa 150 kg. São necessárias várias pessoas para ajudarem no processo. Tudo fica muito difícil”, conclui.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.