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31 de março de 1964: O apagar da democracia no Brasil

Por Pedro Baccelli | da Redação
| Tempo de leitura: 10 min
Pedro Baccelli/GCN
Comércio da Franca - edição do dia 2 de abril de 1964
Comércio da Franca - edição do dia 2 de abril de 1964

A data é 1° de março de 1964. A população não sabia, mas vivenciada o último mês de democracia pelos próximos 21 anos. Naquele mês, no dia 31, o Brasil sofria um Golpe. O Regime Militar, ou Ditadura Militar, era instaurado. Anos de apreensão e repreensão das diferentes formas de manifestação. Um capítulo da história do país escrito com sangue, que só foi terminar no dia 15 de março de 1985.

O mundo vivenciava a Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética mediam forças. O medo da América Latina se aliar ao lado socialista, assim como aconteceu em Cuba, fez os Estados Unidos pressionar os países do sul do continente. Naquele momento, o Brasil era governado por João Goulart. Jango, como era conhecido, não era uma unanimidade para os brasileiros e nem para os norte-americanos.

Em meio a inúmeras greves e manifestações ao longo do país, Jango propôs uma reforma constitucional. A reforma, entre outros tópicos, abordava: direito de voto aos analfabetos, reforma agrária e a legalidade do Partido Comunista do Brasil. As propostas, consideradas por diferentes setores da sociedade como de "esquerda", balançaram a relação do presidente, com a Presidência. O estopim foi a troca do ministro da Marinha, Sílvio Mota, após conflitos na armada. Diferentes acontecimentos culminaram no Golpe de Estado.  

Franca, assim como outras cidades do interior, acompanhou a tomada de poder pelo jornal. O Comércio da Franca diariamente informava como estava a situação no país. Pessoas viveram a Ditadura Militar pelas folhas dos noticiários. Esta distância dos maiores acontecimentos, foi um dos motivos para existirem diferentes visões sobre o mesmo Regime.

Atualmente, em 2021, 36 anos após o final da Ditadura, grupos da sociedade civil pedem intervenção militar no Congresso Nacional. Manifestações acontecem de norte a sul do Brasil. Uma delas, aconteceu no dia 15 de março, em Franca. Centenas de pessoas realizaram ataques antidemocráticos, pedindo intervenção no Congresso e renúncia de ocupantes do judiciário nacional e líderes eleitos na última eleição.

O medo que um novo Golpe aconteça na surdina amedronta milhares de pessoas. E, assim, manifestações contrárias buscam reafirmar a democracia. Com isso, o Brasil vive uma guerra de princípios. Confira como aconteceu o golpe de 1964:

 

O último mês de democracia contado pelo Comércio da Franca

 

A manchete do Comércio da Franca no dia 1° de março era: ‘Agro-pecuaristas francanos visitaram Araxá’. O transporte público esquecia moradores no Jardim Santa Rita. O Rotary Clube entregava medalhas aos melhores alunos do ano anterior (1963).

O Comércio da Franca do dia 3 de março mostra os preparativos dos soviéticos para a implantação de uma estação de controle em Cuba. Na mesma edição, a Câmara de Deputados estudava a anistia dos “militares envolvidos no fracassado movimento de Brasília”.

A edição do dia 4 de março, retrata as greves e manifestações que aconteceram no dia 3. As classes produtoras optaram por uma paralização em Pernambuco. A greve geral foi em protesto ao afastamento do delegado regional. Situação parecida acontecia em Niterói (RJ). Os comerciários entraram em greve após reivindicarem aumento salarial.    

“Ao lado dos trabalhadores, construiremos um Brasil para os nossos filhos”. As palavras do presidente João Goulart, no dia 4 de março, estampam a manchete do dia 5. No mesmo dia, Jango, como era conhecido, apressou o ministro da Guerra para realizar estudos relacionados ao Código de Vantagens dos Militares. O presidente alegava que os salários das Forças Armadas deveriam ser fidedignos com os trabalhos prestados. Ainda no dia 4, a greve encerrou em Pernambuco.

A correria do dia 6 de março, estava presente no jornal do dia 7. O ministro da Justiça queria intervir em Guanabara (RJ). O até então governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, havia “requerido falência do Banco do Brasil”. Também ocorria os preparativos para o comício que aconteceria no estado, no dia 13 de março de 1964. O Comício da Central, ou Comício das Reformas, seria um manifesto em apoio a Jango.

Ainda na edição do dia 7, a inauguração da Escola Pestalozzi foi adiada. Os antigos distritos de Franca – Jeriquara, Restinga e Ribeirão Corrente – estavam se preparando para a primeira eleição de prefeitos. Já o prefeito de Cristais Paulista, Augusto José Monteiro, recebeu uma ambulância do Governo do Estado para equipar o município.

 

Edições do Comércio da Franca a partir do dia 10 de março de 1964

 

A Venezuela teve o seu primeiro presidente eleito após 113 anos, no dia 11 de março de 1964. Raul Leoni assume o país, em cerimônia que contou com 50 delegações estrangeiras. A família real britânica ganhou um novo herdeiro. Eduardo nasceu no dia 10 de março. Segundo filho da rainha Elizabeth ll e terceiro na linha de sucessão.  

A edição do Comércio da Franca do dia 13 de março, mostra a expectativa pelo Comício Central, que aconteceria logo a noite. A apreensão tomava quem era pró ou contra as reformas de Jango. Enquanto isso, a cidade especulava o acerto com o zagueiro central, Jadir, e com o médio apoiador, Jaime, com a Francana.  

“Goulart, no comício: Somente haverá paz social com justiça social”. A edição do dia 14 de março, trouxe como manchete o comício que aconteceu no dia anterior (13 de março). A manifestação aconteceu no Rio de Janeiro, onde o presidente discursou para cerca de 200 mil pessoas nas praças da República e Cristiano Otôni. Jango condenou os que “querem mistificar o povo com a indústria do anticomunismo”. Ele defendeu a importância de reformas de base em meio aos apoiadores de diferentes regiões do país.

A mesma edição, informa que Jango assinou um decreto de desapropriação de terras no Palácio das Laranjeiras. Um comandante da 2° Divisão da Infantaria sofreu um atentado em sua residência na cidade de São Paulo, no dia 13. O noticiário também tratava com saudade os preços baixos de itens da fazenda de 20 anos atrás (cerca de 1924).

O jornal do dia 17 de março é um retrato dos problemas que o Brasil e o mundo estavam passando. João Goulart buscava alianças no Congresso para aprovar as reformas de base. O senado se manifestou contrário ao desejo de alguns parlamentares em transferir o Poder Legislativo Federal para Guanabara. A situação do Brasil também estava emperrada no exterior. Uma comissão foi negociar a dívida em Paris, na França. A nação propôs o pagamento da dívida em 23 anos.

Ainda no dia 16, o presidente norte-americano, Lyndon Johnson, disse que colocaria todo o seu poderio a disposição, para ajudar os países americanos a lutarem contra os ataques comunistas. Já do outro lado da cortina de ferro... A União Soviética acabava de ressuscitar um operário, que havia falecido três horas antes.  

O Comércio da Franca do dia 18 de março, conta a promessa de Jango: reforma ministerial dentro de dez dias. O discurso otimista foi para 50 deputados do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), no dia anterior (dia 17). De madrugada, o partido declarou apoio maciço ao presidente. Já o PSD (Partido Social Democrático) caminhava em sentido oposto. O partido declarou apoio ao ex-presidente do país, Juscelino Kubitschek. Enquanto isso, uma greve ameaçava paralização total dos serviços de energia nos estados de São Paulo e Guanabara.

“Câmara: oposição já admite possibilidade de reforma constitucional”. Os oposicionistas admitiram a possibilidade de reforma através do parlamentar, Pedro Aleixo. O país também planejava disponibilizar água potável para seis milhões de nordestinos até 1975. O plano atenderia primeiro as capitais de depois os municípios. Já em Franca, estava em vigor o edital de construção do estádio da Associação Atlética Francana.

Edições do Comércio da Franca a partir do dia 20 de março de 1964

 

Dois anúncios do Governo Federal foram feitos no dia 19 de março. No primeiro, Jango informa que viajaria para Salvador (BA), Belo Horizonte (MG) e São Paulo para “pregar” a reforma que pretendia fazer. No segundo, o ministro da Educação, Júlio Sambaqui, em passagem de São Paulo a Rio Grande, disse que em dois anos os vestibulares seriam extintos em todas as faculdades do país. Ambos os anúncios estamparam o noticiário do dia seguinte (20 de março).

A coluna “Objetiva”, do Comércio da Franca, retratava dois pontos de vistas. Leonel Brizola que defendia o fechamento do Congresso Nacional, por considerá-lo “composto de reacionários ultrapassados”. E João Goulart, que propôs uma reforma na Constituição. A reforma, entre outros tópicos, abordava: direito de voto aos analfabetos, reforma agrária e a legalidade do Partido Comunista no Brasil.

“Lançada oficialmente a candidatura JK”. A candidatura do ex-presidente do país estampou o jornal em 22 de março. Em convenção realizada no dia 21, no Rio de Janeiro, o PSD confirmou que Juscelino Kubitschek sairia como presidente na próxima eleição. Já o presidente do Instituto Brasileiro de Café, senador Nélson Maculan, disse que até o final daquele ano, o Brasil exportaria oito milhões de sacas de café.

O Comércio da Franca do dia 24 de março de 1964, estampa a morte de um dos principais nomes da região. O Dr. Ismael Alonso y Alonso faleceu aos 54 anos, no dia 23. Dez mil estudantes da USP (Universidade de São Paulos) estavam em greve. Eles se manifestaram contrário a atitude do Governo do Estado contra a liberdade de sessão. 

O ministro da Marinha, o almirante Silvio Mota, repudiou todas as manifestações dos militares sobre assuntos externos ao aquartelamento. Ele pediu que os marinheiros e fuzileiros não se deixarem levar ao pronunciamento de líderes. Já o presidente pediu abertura de 5 bilhões de cruzeiros em créditos adicionais para reforçar o Fundo Federal de Eletrificação. O pronunciamento e o pedido de crédito aconteceram no dia 24 de março e noticiados no dia 25.

A edição do dia 26 de março, trouxe a tensão da Guerra Fria. No dia 25, o delegado de Cuba repudiou a política dos Estados Unidos em meio a uma conferência, que reuniu 122 países. Por sua vez, o lado capitalista disse que precisava encarar a realidade sobre Cuba e Panamá, para melhor enfrentar a Guerra Fria.

O Comércio da Franca do dia 29 de março, informa que os marinheiros que participaram do motim que culminou na queda do ministro da Marinha, almirante Silvio Mota, ganharam anistia. O mesmo texto informa que o novo ministro foi escolha do presidente e não contou com pressões exteriores. No dia 28, os estivadores ameaçaram greve geral do setor.

Edições do Comércio da Franca a partir do dia 30 de março de 1964

 

O presidente João Goulart repercutiu os problemas que acontecia na Marinha. O chefe do Executivo disse que uma minoria privilegiada causou a crise. Este grupo permanecia de olhos voltados ao passado. Ainda sobre a Marinha, o almirante Paulo Mário posicionou-se contrário as ocorrências que aconteceram no setor nos dias anteriores. Do outro lado das Forças Armadas, o Exército garantia a presença de Jango em Belo Horizonte. Os pronunciamentos aconteceram no dia 30 de março e ganharam o jornal no dia 31.

Na mesma edição, a coluna Objetiva tratava do “caos” pelo qual o país estava passando. O “final dos tempos” começou com o anuncio da reforma no dia 13. Um movimento contrário surgiu em diferentes estados Brasil, entre eles: São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. A indisciplina na Marina agravou a crise. A solução encontrada pelo presidente foi a demissão do até então Ministro da Marinha. Jango era acusado de comunista por diferentes grupos de trabalhadores da União.

Duas “bombas” estampam a edição do dia 1° de abril de 1964. Seis estados do Brasil, incluindo, São Paulo e Minas Gerais, se colocaram contrário a União. O comandante da região militar mineira, general Olímpio Mourão, colocou-se contra o presidente da República, acusando-o de responsável “pela bolchevização do país”.  

Do outro lado do conflito, o ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, assumia. Em pronunciamento Jair disse: “Cumprindo determinações expressas do sr. Presidente da República, assumo neste momento de intranquilidade para a nação brasileira o comando efetivo das ações legais contra o movimento de subversão que está caracterizado no estado de Minas Gerais”. Ambos os pronunciamento, de Olímpio Mourão e Jair Dantas, foram feitos no dia 31 de março de 1964.  

Manchete: “Ganhou amplitude nacional o movimento revolucionário”. Linha fina: “O exército domina completamente a situação – Brizzola instala em Porto Alegre ‘OG da Legalidade”. O Comércio da Franca do dia 2 de abril, informava os acontecimentos do dia anterior (1° de abril). A República Democrática do Brasil ganhava um novo presidente através das Forças Armadas: Ranieri Mazzíli seria empossado.

“Jango asilado no Uruguai: Mazzíli, novo presidente”. A manchete do Comércio da Franca no dia 3 de abril confirmava: um novo regime havia sido instaurado.

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