Um ano. Este é o tempo transcorrido desde a chegada do, então novo, coronavírus em Franca. Foi no dia 27 de março de 2020 que um exame de covid-19 deu positivo pela primeira vez na cidade. Desde então, mais de 21 mil pessoas se infectaram, Destas, 419 perderam a batalha contra o vírus. São pais, mães, maridos, filhos. Vidas, abruptamente interrompidas. Existem sequelas para quem se recuperou da doença, mas nenhuma dor é maior do que a saudade deixada por quem se foi.
Bastaram 16 dias após o primeiro exame positivo para que fosse registrado o primeiro óbito em um hospital de Franca. No dia 12 de abril do ano passado, o fisioterapeuta Wesley Leite Soares de Oliveira, de apenas 34 anos, deixou sua família. Ele, que nasceu no Paraná, passou longos anos em Franca e viveu os últimos tempos em São Tomás de Aquino (MG). Estava sempre com seus pais em Franca. Foi no Hospital do Coração da cidade que ele não resistiu aos problemas causados pela doença.
Wesley Soares, com seu uniforme de trabalho
É justamente de Wesley entrando no carro para ir ao Pronto Socorro, já com fortes sintomas, a última lembrança que sua mãe, Maria Lúcia de Pádua Soares, 57, guarda. Ainda abalada, mas já com forças para falar de Wesley, ela recordou este e outros momentos marcantes da vida de seu filho. “Falar do Wesley é muito fácil. Era uma pessoa com muita vontade de viver, muito alegre. Lutou a vida toda para ser alguém”.
Lúcia gosta de lembrar de quando Wesley foi aprovado na universidade. “Eu fazia cinco marmitas de comida para ele passar a semana. Foi um período de muita luta. Lembro também de arrumar as roupas brancas para o estágio”. Depois de formado em fisioterapia e com dificuldades para conseguir emprego em Franca, Wesley buscou outras alternativas e conseguiu passar num concurso para a prefeitura de São Tomás de Aquino.
“O sofrimento aumentou nessa época. Ele precisava ir todos os dias para lá, de carro, e não conseguia pagar a gasolina. O salário ia todo em combustível”, conta Maria. Por isso, resolveu trocar o automóvel por uma moto. Não adiantou. “Se chovia, chegava molhado. Quando não, chegava sujo de poeira da estrada. Por isso, resolveu se mudar para lá”. Neste período de mudança, Wesley resolveu abrir uma clínica e academia particular em sua própria casa oara ganhar um pouco mais. “Ele estava muito feliz com este novo momento”.
Todo o final de semana vinha visitar seus pais em Franca. Aqui, gostava de rever amigos. Gostava, também, de se dedicar a um novo hobby, fotografar pássaros. “Ele adorava tirar fotos de corujas à noite ou de outros pássaros no meio da mata. Gostava muito de fazer trilhas e poder fotografar”, relembra a mãe.
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Uma das foto tiradas por Wesley
Maria Lúcia também se recorda que, poucos dias antes da sua partida, Wesley fez um curso para poder trabalhar na linha de frente do combate ao coronavírus. “Ele estava muito feliz e ansioso em poder ajudar”.
No dia 29 de março daquele ano, a última comemoração em família. Seu pai completara 56 anos e Wesley organizou um churrasco para festejar. Na semana seguinte, veio a preocupação, pois sintomas de covid-19 começaram a aparecer. “Ele agendou um exame de covid em Franca para verificar se estava tudo certo. Até me pediu para comprar verduras no mercado que ele passaria aqui apenas para pegar, sem ter contato”.
O teste em questão deu negativo. Após o resultado, ele combinou de comer sopa na casa da mãe. “Ele acabou nem comendo. No dia, disse que estava se sentindo ofegante. Com a preocupação, meu marido o levou até o Pronto Socorro. Na despedida, coloquei a mão dele próxima ao meu pescoço e apertei”, diz, sobre o último toque no filho.
“Minha última lembrança foi ele entrando no carro para ir ao PS. Meu marido disse que ficaram do meio-dia às 16h até que mandaram ele para o Hospital do Coração. Foi lá que olhou para esposa e para o pai com olhar de despedida já”, relatou.
Para Lúcia, como ele foi o primeiro paciente com a covid-19, os médicos também ficaram com medo. Era tudo muito novo para todos. Ela acredita que o excesso de cloroquina dada a Wesley tenha prejudicado sua recuperação. “Os rins pararam de funcionar”. A mãe sofre com a perda irreparável. "“A falta dele é imensa. Nossa vida não é a mesma. Ele faz falta em todos os sentidos. Peço a Deus todos os dias... Quem sabe um dia possamos revê-lo”.

Giovani em uma de suas jornadas no ciclismo
Outra saudade sentida é de Giovani Teixeira do Nascimento, 48. Consultor em isenções PcD (Pessoa com Deficiência), pai de três filhos, era casado com Solaine Alves Ferreira há 25 anos. “Era dedicado a tudo que fazia, se dava ao máximo a todos a sua volta. Ele adorava ajudar o próximo”, recorda Solaine.
Giovani perdeu a batalha para a covid-19 no final de fevereiro deste ano. Assim como hoje, Franca vivia problemas com a falta de leitos e ele foi transferido para a Santa Casa de Igarapava, onde perderia a batalha para o vírus. “A covid o tirou de nós no dia 18. Foi tudo tão rápido que nos tirou o chão”.
Solaine relata que o marido estava fazendo faculdade de Direito até o começo da pandemia, que o obrigou a interromper a graduação. “Tinha tantos planos e sonhos”. A esposa ainda relembra sua maior diversão no último ano de vida: o ciclismo. Junto a um grupo de amigos, geralmente as quintas-feiras, pedalavam até Restinga e na volta comiam um churrasquinho. “Ele ia sempre com a turma do ‘pedal’. Até me fazia sentir ciúmes e pensar que estava sendo trocada pela bicicleta. Mas isso não era verdade, sempre cuidou da nossa família com muito amor e carinho”, relembra, com saudade.
“Ele era muito caseiro, gostava de estar com a família. Gostava de ir para a casa da mãe ou de ir para o sítio da irmã em Minas Gerais. Era muito dedicado ao trabalho e sempre atencioso com os clientes. Hoje ficou o vazio, a saudade. Ele faz falta”, diz.

Cirlene quando conheceu a neve em Londres
Cirlene Pires Batista de Paula, 57, também deixa saudades na sua grande família. Mãe de quatro filhos, avó de 11 e bisavó de 3, era viúva há 15 anos – o marido sofreu um enfarto fatal anos antes. Manicure, por muito tempo também acumulou o papel de "pai", sem deixar faltar nada aos filhos. Cristiane Batista de Paula, 29, filha de Cirlene, diz que impossível resumir ou detalhar suas qualidades e a falta que faz. “É tanta coisa que eu tenho para falar dela que não caberia aqui”.
Cristiane conta que sua mãe adorava viajar e passar um tempo na chácara da irmã. “Ela só voltava para Franca pois tinha unha marcada, se não, ficava por lá mesmo”, recorda. Em suas viagens, adorava tirar fotos para registrar os momentos. “Ela amava tirar foto por onde passava. Cada cantinho tem uma lembrança dela”.
Em tom de lamento e saudade, a filha caçula ainda se assusta com a velocidade da doença e o impacto de sua ausência. “Pensar que nunca mais vou vê-la dói muito, faz muita falta. Essa doença levou ela em 18 dias. Nem tive a oportunidade de me despedir, dar um abraço e poder dizer que tenho muito orgulho de falar que ela é minha mãe”.
Seu único filho homem, Fabiano Batista de Paula, 31, recorda a alegria e a força de Cirlene. “Estava sempre sorrindo. Festa era com ela mesmo, topava tudo. Nunca teve doença nenhuma. Pensa em uma mulher forte, guerreira e trabalhadora. Nunca media esforços para ver seus filhos e netos felizes”.
A manicure tinha o sonho de conhecer a Disney. Era fã de banho de sol e praia. O filho também relembra o abraço e a saudade que ficarão na memória para sempre. “Tinha um abraço maravilhoso, aconchegante. Quanta falta me faz”.

Cirlene minutos antes de ser intubada, conversando com os filhos
Juliana Batista de Paula, 35, que mora em Londres, capital da Inglaterra, também relembra com carinho da mãe. “Mulher guerreira que ficou viúva muito nova, mas nunca deixou que nada faltasse aos seus filhos. Amava viver, era muito sorridente”. Antes de partir, Cirlene pode conhecer a cidade em que a filha vivia. “Tive o prazer de trazer ela para cá. Ela pôde conhecer minha filha mais nova, além de ver neve pela primeira vez”, relembra. “Minha mãe soube aproveitar a vida. O que nos resta agora é a saudade dessa mulher incrível que ela foi”, finalizou.
A filha mais velha, Adriana Batista de Paula, 39, lamenta muito a perda da mãe. “Nunca vou esquecer o sorriso dela e o quanto amava viver. Essa doença a tirou de mim e nem pude me despedir. A amarei até depois do fim”.

A professora Patrícia Souza
Outra mãe guerreira que deixou sua família por conta do coronavírus foi Patrícia Gomes de Oliveira e Souza, 45. Mãe de três filhos, era professora nas redes municipais de Franca e Restinga. Sempre foi muito querida por todos ao seu redor. O grande talento para cantar, desenhar e principalmente a paixão por lecionar sempre contagiaram a todos.
Não era diferente para seu marido Luiz Roberto de Souza, 46, que fez parte da vida de Patrícia desde seus 16 anos, quando o também professor se apaixonou pela voz encantadora da namorada. Começaram a namorar e ficaram juntos até o fim de sua vida. “Pessoa acolhedora, sempre com sorriso nos lábios, estava sempre feliz. Formamos nossa família muito cedo e sempre conquistamos muito mais do que imaginávamos. Sonhávamos pouco e recebíamos muito mais”.
Patrícia gostava tanto de cantar que, quando mais jovem, era chamada de “sabiázinha”. Também extremamente religiosa, era uma das responsáveis pela comunidade católica da Paróquia Santa Rita.
Em 1998, descobriu a paixão pela educação infantil. Começou a dar aulas em uma creche da cidade e se redefiniu. “Ela foi a melhor professora que vi na vida. Não porque era meu amor, mas (por conta da) postura dela em sala de aula sempre firme e muito preocupada com o aprendizado das crianças”, contou o viúvo, orgulhoso. “Era apaixonada pela profissão, sempre preparava muito as aulas. A cada conquista das crianças, chegava em casa e contava aquilo com felicidade. Pessoa simples, religiosa e amorosa. Sempre olhou o bem-estar do outro acima do dela”.
Luiz conta que desde o início o casal estava muito preocupado com a pandemia. Cuidaram muito da prevenção. “Fizemos uma quarentena severa por mais de um ano. Não entendo como ela pegou esse vírus. Quase nunca saiu de casa, qualquer coisa na rua eu que resolvia”. Companheiros por 30 anos, ele lamenta a perda com saudade. “É um vazio enorme. Vamos ter que nos acostumar a viver com a dor, mas não significa que esse vazio será preenchido”.
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