Há mais de um ano o coronavírus assola o mundo todo e ainda hoje nem todos os seus efeitos foram descobertos. São muito relatos de sequelas após a doença, desde os pacientes com sintomas leves, até os que precisaram ficar hospitalizados por semanas. É o caso de Márcia Afonso, cozinheira, de 47 anos, que contraiu o vírus no fim de outubro de 2020 e lidou com consequências da doença pouco vistas até então.
Os primeiros sintomas foram singelos. Márcia e seu maridos observaram sintomas leves, mas que chamaram atenção. Ela sentiu dor de garganta e ele, um mal-estar. Foi aí que procuraram realizar o teste de covid e para o alívio momentâneo dos dois, o resultado foi negativo.
No entanto, apesar do resultado, a dor de garganta de Márcia piorou e foi acrescentada de uma tosse. Um novo teste foi realizado, que também deu negativo, mas ela só conseguia sentir a piora nos sintomas. Novos testes foram feitos até que na quarta vez, quando Márcia já estava se sentindo muito mal e com falta de ar, o vírus foi confirmado.
A cozinheira foi internada no Hospital do Coração e teve alta depois de dois dias. A tosse melhorou, mas ainda se sentia fraca e indisposta, assim como acontece com pacientes que precisaram de cuidados maiores durante a covid.
Depois de uma semana em casa, Márcia, que não possui nenhuma comorbidade, começou com dores no pé direito. Há 10 anos ela havia realizado uma cirurgia de hérnia de disco por dores nas costas, mas há muito tempo se sentia bem. Com a dor aumentando cada dia mais, ela descobriu que se tratava de um episódio de trombose e precisou ser internada novamente.
Embora tenha recebido todo cuidado médico, apenas alguns dias depois ela teve que amputar a perna. “Foram dias muito difíceis. Eu sofri muito, com muita dor... Tentamos de todas as formas antes de ter que tomar a decisão de amputar, mas no dia 26 de novembro tive que amputar a perna direita”, disse Márcia.
Ela relatou que logo após a alta do hospital, já sentia dores no pé esquerdo. A partir disso, um novo tratamento começou para tentar curar com medicamento. “O problema estacionou no pé. Não subiu, mas ficou no pé. Aí ele começou a necrosar, ficou duro e não tinha mais vida. Foram três meses de tratamento, só que, mesmo tentando recuperar, ele começou a vazar e tive que internar de novo. Achei que ia ter que amputar só os dois dedos do pé, mas seria muito difícil para poder voltar a andar depois. O nível de uma perna não seria o mesmo que da outra”, relatou Márcia.
Foi por causa desta observação que Márcia optou por amputar também a perna esquerda. A direita amputou acima do joelho e a esquerda, abaixo do joelho. Este tipo de procedimento possibilita a utilização de próteses posteriormente.
Segundo os médicos, a trombose foi desencadeada pela covid-19. “Foi uma sequela pós covid. Pode ser que eu tivesse uma doença silenciosa que ainda não sabia, só que o vírus desencadeou isso. Ele foi direto no problema”, afirmou Márcia.
Força
Apesar de toda a dificuldade em um período tão curto, Márcia tem mais vontade de viver. “Agora, graças a Deus, eu estou bem, mas foi muito difícil. Faz cinco meses que eu estou na cama. Não consigo levantar nem fazer nada sozinha. Tenho uma filha de nove anos que me ajuda o pouco que consegue, mas tenho uma vontade muito grande de colocar prótese para voltar a andar”, disse Márcia.
“Quando eu tive a dor da trombose, que é uma dor que eu não gosto nem de pensar, eu só pedia a Deus para continuar a viver. Queria continuar viva, cuidar da minha filha. Se o único jeito de continuar a vida era amputando as pernas, eu decidi que tinha que agradecer a Deus por isso e continuar viva. E quero continuar vivendo”.
Jéssica Afonso é enteada de Márcia e é prova viva desta gratidão, mesmo com tantos problemas e situações difíceis. “Quando eu me deparei com a situação que a Márcia se tornaria uma deficiente física e pensei que a gente teria que fazer todas as adaptações necessárias, tínhamos que agir. Não dava para ficar só se lamentando. Ela não saiu do hospital como se tivesse perdido a perna, ela saiu do hospital como quem ganhou a vida. Então essa força que ela dá para a gente faz com que façamos qualquer coisa”, disse Jéssica.
A enteada, que tem Márcia como uma segunda mãe, começou junto com a madrasta uma corrente do bem. A família está arrecadando lacres de latinhas para conseguir o valor para a aquisição das duas próteses. Até o momento, diversas doações foram realizadas, mas para conseguir a quantia necessária, é preciso muito mais lacres.
“Eu vi essa campanha no Instagram e decidi abraçá-la. Precisa de uma grande quantidade, então qualquer ajuda é bem-vinda”, afirmou Márcia. Para os que puderem contribuir, o telefone é o (16) 98839-1718.
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