Bicho de Pé, uma história

Por Sônia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min

Existem lugares físicos que podemos chamar de férteis por ensejar encontro com o outro, aceitação da diversidade dos seres, celebração das afinidades eletivas, debates sobre reflexões incomuns, decisões que podem impactar a vida e até deslumbrantes epifanias. Se construído por necessidade de liberdade e desejo de convívio, um espaço desse tipo pertencerá aos seus frequentadores, mas ao mesmo tempo ele os possuirá. O vínculo pode ser tão forte que mesmo depois de décadas permanecerá incólume na memória e no coração dos que puderam vivenciar experiências ricas e peculiares. O ambiente real se torna parte do patrimônio emocional.

Parece que Vicente de Paula Silveira, que abre o livro “Bicho de Pé, uma História”, lançado no final de 2020 pela Ribeirão Gráfica, esbarra nessa tese ao escrever que “Hoje eu posso fazer uma análise mais imparcial do que ocorreu naquela época, porque não estou mais, infelizmente, vivenciando esse fenômeno sociológico singular”. E prossegue: “Os anos se passaram e acrescentaram mais sabedoria em minha vida, e assim, recordando o que aconteceu, posso afirmar que ali, sem que ninguém soubesse explicitamente, reinava implicitamente o sonho utópico de Karl Marx, filósofo da revolução, que num momento de grande sabedoria filosófica afirmava: a cada um, segundo as suas necessidades e de cada um, segundo as suas possibilidades.” Mais de duzentas páginas além, outro dos sete autores, Paulo César Garcia, escreverá: “(...) e porque o mundo entrava numa fase diferente, com convenções questionadas, mudanças aceleradas e que trouxeram de longe as ideias hippies, intuitivamente e sem combinar nada, aproveitamos a deixa e fizemos daquela pobreza toda o melhor lugar do mundo”.

O melhor lugar do mundo chamava-se Bicho de Pé - e é quase impossível ao leitor não se perguntar por que batizar assim “o lar temporário dos prazeres do corpo e do espírito”, como o define Silveira. Este arrisca duas interpretações que podem responder à curiosidade inicial de quem navega nesse livro caudaloso; mas há outras. Sobre as características do lugar, dou um spoiler que, acredito, não irá comprometer as expectativas do leitor. Assim o descreve o cartesiano Marco Antônio Guimarães:

“Era uma casinha no fim da cidade, fazendo divisa com as fazendas e companhia aos sons da natureza e ao ventinho que vinha lá das Minas Gerais. Contava com dois quartos, sala, cozinha e um banheiro que dava para o quintal e tinha banheira enorme, daquelas esmaltadas e com pés que pareciam garras de felino, um convite à luxúria... O chão era de cerâmica ordinária, e o teto de telhas muito antigas e não tinha forro, permitindo ver o madeirame muito velho e sujo. Os poucos móveis eram toscos e na cozinha havia uma geladeira de madeira muito velha, daquelas que precisavam pôr gelo, e um fogão à lenha, o que era comum no interior. “

Faltou dizer que estava incrustada na cidade de Cristais, reiteradamente elogiada pelos sete autores nas qualidades topográficas, matas, entornos de cachoeiras e rios, cafeicultura e... por seu povo e sua história. Porque uma cidade é bem mais que ruas e casas e praças e igreja. Consciente disso, a cristalense Ruth Maria de Freitas Becker, em versos, prosa poética e crônicas mínimas, fixa em imagens pungentes moradores icônicos como Urbaninho, Matilde Benzedeira e a própria cidade: “Cristais!/ Abre teu seio e faz guarida, terra querida,/de meus sonhos, desejos e ideais./Acorda em mim a criança/ que cresceu em teus quintais.”

Com estilos diferentes, também descrevem a cidade, a casa e os acontecimentos que ela presenciou um entusiasmado José Valdair Costa Rios ( a quem agradeço o livro e a dedicatória); um autoral Francisco Eugênio Nunes Gusso; um lírico José Carlos Gonçalves Dias (Calunga), cuja sensibilidade encanta nos muitos poemas reunidos no livro. Como “Cristais”: “Perto do rio que divide/ São Paulo-Minas Gerais/ fiquei uns tempos morando/ na cidade de Cristais// Chegando de madrugada/ vi fumaça na chaminé/ de uma casa engraçada /chamada “Bicho de Pé.”/ Era casa de violeiros,/ poetas, gente sem sono,/ onde todos moravam/ e que ninguém era dono// Fui muito bem recebido/ e lá montei a morada,/dormindo, olhando as estrelas/ no vão das telhas quebradas,/ ouvindo canções, poesias/ daquela terra encantada...// O dia amanheceu depressa,/ sereno e cristalino,/ Saí nas ruas brincando,/como se fosse um menino.”

No Bicho de Pé se encontravam, para falar da vida e dos acontecimentos do mundo, esses e outros moços e moças : Manolo, Tonico, Irineu, Miguelzinho, Rozendo, Deley,Chaleira, Totonho, Oscar Kelner, Martinha, Virgínia, Vitória, Lúcia, Maria Zélia, Tânia... Os assuntos incluíam política (plena ditadura), agricultura, filosofia, livros clássicos e outros recém lançados, liberdade, música, poesia, artes. Havia sempre alguém declamando um poema. Tocando saxofone. Em cantoria coral. Ou dançando. Uma vez, a casa hospedou dois renomados violonistas- Paulo Porto Alegre e Oscar Ferreira de Souza. Também havia alimento para o corpo, mas parece que o cardápio era sempre o mesmo- cupim assado e salada de tomates. Com cachaça e cerveja, claro.

Em todos os textos - que ora se aproximam de narrativas, ora são depoimentos ou ainda memórias- subjaz o humor em suas variadas nuances. Protagonistas são os próprios narradores, o que confere autenticidade ao conjunto. A leveza faz contraponto à seriedade de algumas questões mais profundas, externadas por aqueles que tendo por figura inspiradora Reginaldo Raiz, sentiam-se tocados por grande energia e desenvolviam uma ética onde a amizade ocupava o primeiro lugar. Pessoas de uma mesma geração e de formação profissional diferente, conviveram de forma intensa durante década decisiva de suas existências , aquela que abrange a entrada na vida adulta, onde o trabalho era então o prosseguimento natural de quem terminava seus estudos.

Poetas e prosadores costumam imaginar espaços de sonho que ficam eternizados em seus escritos. Gabriel Garcia Marquez ergueu Macondo. O grego Kavafis, sua Ítaca. Marcel Proust, uma Combray. Monteiro Lobato, o imortal sítio. Manuel Bandeira, o reino chamado “Pasárgada”, declamado várias vezes por Calunga, e não sem razão. Já os poetas/prosadores de Cristais Paulista criaram no mundo real o lugar por eles imaginado, onde viveram histórias curiosas, emocionantes e desveladoras, que eu gostei muito de ler, com certa inveja de não ter morado em Cristais nem conhecido todos os “personagentes” (palavra criada por Guimarães Rosa) que habitaram o Bicho de Pé.

Fica a sugestão para os leitores. Os mais velhos poderão resgatar situações vividas por toda a geração nascida no início dos anos 50; os mais jovens vão descortinar um mundo muito diferente da contemporaneidade, mas nem por isso menos belo e valoroso. Sobretudo um mundo mais pleno de sonhos, que, disse Shakespeare, são constituídos da mesma matéria que faz de um ser, humano.

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