Sair de casa com a sua moto, chegar à central, esperar o recebimento de um pedido, dirigir rumo a um restaurante, pegar a encomenda e levá-la até as mãos de um cliente. Depois de fazer isso repetidas vezes, voltar para casa e descansar. Se questionadas, muitas pessoas dirão que essa é a rotina diária vivenciada pelos entregadores. Porém, o trabalho envolve muito mais do que isso e exige bastante paciência.
Muitas ocasiões que acabam acontecendo com os profissionais de delivery os deixam enfurecidos, envergonhados ou até curiosos. Por terem de lidar com duas coisas que são extremamente complexas, que são a clientela e o trânsito, o ofício acaba por se tornar muito estressante e, por vezes, perigoso. Além disso, na maioria dos casos, as entregas são uma fonte de dinheiro extra para os motoboys, que também trabalham com outras áreas em diferentes períodos.
O entregador que pilota pelas ruas de Franca precisa conviver rotineiramente com situações em que os clientes acabam sendo “malas”, com o risco de vida - afinal, andar pela cidade não é algo muito simples de se fazer -, e com as adversidades que o clima proporciona. Apesar disso, a profissão também propicia alguns momentos que são, no mínimo, cômicos e geram boas risadas ao final do expediente.
Ubiratã Gonçalves é um dos que já teve as mais variadas experiências fazendo as entregas. Algumas delas ruins, outras nem tanto. Ele foi entregador por mais de 10 anos e, com o dinheiro conquistado na área, conseguiu abrir a sua própria central. Porém, enquanto era ele quem corria pelas ruas, ficou marcado por vários episódios.
Uma das histórias aconteceu quando recebeu uma demanda de um restaurante de sushi ao fim da noite. “Era o último horário, próximo das 23h. Última entrega do dia. Pedido grande, tinha muita comida. Me lembro que deu R$ 350. Precisei até levar uma mochila maior”, recorda. “Na época, eles pagavam R$ 6 pela entrega, mas, como o dono do restaurante já confiava em mim, me pagou R$ 10 e disse para eu repassar o valor do pedido no outro dia. Peguei e fui”.
Quando chegou ao local combinado, na casa de um cliente que morava na Morada do Verde, Ubiratã pensou que sua noite teria tudo para dar errado. “Era calote. Os caras ligaram e fizeram o pedido só para dar prejuízo ao restaurante. A família que estava na casa não tinha solicitado aquela encomenda”.
Ele começou a ligar no estabelecimento para contar o que havia acontecido, mas não conseguia falar, já que as portas haviam fechado. “Eu não sabia o que ia fazer com aquele tanto de comida”. Vendo o desespero do entregador, o dono da casa, que já o conhecia por conta de outros pedidos levados, decidiu ajudar.
“Eu sempre fazia entrega para eles, só que de outros produtos, normalmente durante o dia. O rapaz, que é dono de uma fábrica de calçados em Franca, me reconheceu. Quando viu a situação, me falou ‘nossa, Ubiratã, infelizmente não é aqui mesmo, não. Mas, o que é o pedido?’. Eu falei que era comida japonesa e ele ‘nossa, eu adoro. Quanto fica?’. Mostrei a notinha que era de R$ 350, já com o valor da corrida incluso. Ele ficou com o pedido e me pagou com R$ 400. Só que eu não tinha troco naquela hora. O cara foi tão bom comigo que me deixou ficar com o restante do dinheiro. Nunca mais esqueci. Essa me marcou para sempre.”
E não foi a única vez que Ubiratã viveu uma situação inusitada no condomínio Morada do Verde. Em outro episódio, ele precisou levar um pedido, que inclusive era do mesmo restaurante, para uma residência no local. O horário era diferente, cerca de 14h, e a história também foi.
“A cliente era uma moradora. O porteiro tinha chamado, mas ela não aparecia de jeito nenhum. Eu ligava no número de telefone, apertava a campainha e nada. Nisso, eu estava ouvindo uma festa lá no fundo. Depois de muito esforço, me atenderam em uma porta lateral. Estava cheio de moças com biquini em uma piscina, junto com alguns rapazes, escutando música e comemorando. A dona da casa me chamou para entrar.”
Ele foi até a área de piscina e entregou o pedido para a mulher. Só que aí surgiu um pedido inesperado. “O pessoal queria que eu ficasse lá, participando da comemoração. Alguns amigos meus tiram sarro até hoje: ‘você deveria ter ficado”. Só que eu estava como profissional, tinha que trabalhar”. Depois de terminar as entregas, ele voltou e contou o que tinha acontecido para o dono do restaurante, que achou engraçado. “Não é possível! Você cai em cada uma, hein?”
E não foi a última. Ubiratã já precisou levar encomendas a um... velório! O episódio também o marcou. “A sogra de um rapaz tinha morrido e eles pediram seis pizzas. Era em uma casa. Eu cheguei e me assustei. ‘Pedir pizza em um velório?’, me perguntei. A dona da casa explicou que a família de sua mãe estava desde cedo correndo atrás de funerária, cemitério e que estavam com muita fome. Eu cheguei a ficar um tempo lá e até orei pela falecida. O pessoal chegou a me oferecer comida, mas fui embora”.
Porém, não só de histórias engraçadas é feita a vida do entregador. Reginaldo Dias, que começou a fazer entregas no começo do ano passado, com o estouro da pandemia, conta que trabalhar na área é caótico e relata que passa diversas dificuldades, tanto com clientes quanto no trânsito. “Claro que têm situações boas e ruins. Mas as complicações aparecem todo dia. Não é fácil não”.
O entregador diz que há duas semanas atrás acabou passando muita raiva enquanto levava uma encomenda. “Foi na semana retrasada. Estava uma chuva bem forte. Levei um pedido para um prédio e a pessoa não saía. Para piorar, o porteiro nem me perguntou se eu queria entrar. O que é que tinha se eu ficasse só naquele espaço onde não chove, né? Mas não. Eu tive que esperar o rapaz descer, o que aconteceu depois de vários minutos. Ele ainda teve que passar o cartão e eu lá, molhando. Algumas pessoas ajudam a gente, pedindo para deixar o pedido na portaria. Porém, outras dificultam bastante”.
Reginaldo também já chegou a ter uma discussão no trânsito enquanto trabalhava. “Um homem parou o carro do lado direito da rua, e saiu andando para o meu lado. Eu não consegui desviar e acabei acertando o retrovisor nele. Só que, sei lá por qual motivo, ele estava com um estilete na mão e veio me falando que eu tinha cortado o dedo dele. Só que eu não tive culpa. Esse cara chegou até a me dar um chute. Chamou a polícia e tudo, mas na hora não quis registrar o B.O. Não fiz nem falei nada, só fiquei injuriado mesmo. É que tenho a cabeça fria e não gosto de confusão”.
Quem também já enfrentou problemas com o clima chuvoso foi Iron Maciel, que agora trabalha como coordenador do serviço de delivery de um restaurante de comida japonesa. Ele relata que algumas vezes a clientela acaba não sendo muito receptiva e fala de uma das histórias que aconteceu consigo.
“Estava chovendo bastante no dia. Cheguei na casa do moço e ele demorou para aparecer. E eu acabei ficando na chuva mesmo quando ele abriu o portão. Não me chamou para entrar no hall, onde não estava molhando, nem nada. Ainda por cima, deu pra ver na cara dele que estava um pouco incomodado quando fui pegar o pedido, a comanda e o troco, que estavam molhados. Tem um pessoal que é bem complicado”.
Iron também já precisou lidar com uma consumidora folgada, que o fez adotar um procedimento fora do normal e ainda reclamou depois. O rapaz afirma que acumulava várias entregas para fazer e uma delas era em um conjunto de prédios perto da chácara São Paulo, onde aconteceu o episódio que o deixou nervoso.
“Normalmente, a pessoa vem até nós para pegar a encomenda. Mas, a moça não fez isso. O porteiro não conseguiu acioná-la, então liguei para ela, que me pediu para subir até o seu apartamento, no último andar. Depois de 15 minutos, a mulher saiu e pegou a entrega, sendo até grossa comigo. Depois, ainda ligou no restaurante para reclamar de mim, porque achei ruim de ter que subir até lá em cima. A gente até pode dirigir até o bloco onde a pessoa mora, mas não tem obrigação de subir escada ou pegar elevador com a mochila nas costas”.
Wesley de Freitas também conta que já foi destratado por uma cliente. Em seus primeiros dias como motoboy, ele recebeu duas demandas de um restaurante durante a noite de um domingo. No entanto, ambas já estavam muito atrasadas. Mesmo assim, ele levou os pedidos. Em uma das residências, não encontrou nenhum problema. Mas, ao fim da segunda viagem, foi recebido por uma dona de casa que reclamou como se a culpa da demora fosse dele.
“Eu cheguei até o endereço, que era no Parque dos Pinhais, desci da moto e fui entregar. Quando toquei a campainha, a mulher já saiu esbravejando ‘moço, já faz uma hora que eu pedi essa fogazza! Eu não vou pegar isso não’. Eu expliquei para ela que já tinha pego o pedido com atraso do restaurante e falei ‘então, tranquilo. Se a senhora não quiser eu pego a comida e levo para eles. Vocês se resolvem’. Ela começou a gritar que já estava pago. Me tratou com muita falta de educação, muito mal, sendo que a demora nem culpa minha era”.
Com relação aos atrasos no pedido, o entregador Leonardo Cardoso também sofre ao conviver com as reclamações. “É muito difícil para a gente. Principalmente nos dias de chuva. O cliente reclama do tempo, mas nunca olha pelo nosso lado. Nós sofremos para fazer a entrega o mais rápido possível e ainda corremos o risco de sofrer um acidente, escorregar...”.
Leonardo relata, inclusive, que já se acidentou algumas vezes em meio ao trânsito de Franca. “Já caí escorregando no cascalho do asfalto e também sofri um acidente. Eu estava seguindo pela minha mão, tudo certo, e um carro passou na minha frente, me fechando. A sorte é que não me machuquei muito. É bem difícil”, se lembra.
De fato, trabalhar nas ruas da cidade não é uma tarefa simples. Anderson Moreira, conhecido pelo apelido de Buiú, diz que para ser motoboy é preciso ter a cabeça no lugar para bater de frente com as dificuldades.
“É o sustento da minha família e faço com muito gosto todos os dias, mas é complicado. Tem que ter um jogo de cintura grande. Aparecem vários consumidores sem educação, que pagam barato pela nossa corrida e ainda ficam reclamando do preço e do tempo. O pessoal não acha ruim de pagar caro num Nike, em um Mizuno, mas para o entregador, que dirige distâncias extremamente grandes, eles resmungam. Mesmo assim, é o que eu curto fazer”.
Apesar das adversidades, a profissão também acarreta algumas situações engraçadas – pelo menos para os entregadores -, que geram boas histórias para contar. Gabriel Gonçalves Evangelista, que começou a fazer entregas há cerca de três anos, se lembrou do dia em que se confundiu e acabou protagonizando uma grande confusão por causa de um buquê.
“Era para levar as flores para uma noiva que estava em um salão de beleza. Eu cheguei, peguei a encomenda, li o endereço e guardei a comanda no bolso. Só que chovia muito e eu estava com uma capa por cima da roupa. Quando cheguei na rua da entrega e fui procurar o papel, não achei. Pensei que tinha perdido no caminho”.
Ele, então, decidiu seguir pelo local e achou o tal salão que procurava. Ao entrar no estabelecimento, perguntou se havia alguma noiva se preparando para um casamento. “A mulher disse que tinham duas. Eu falei comigo mesmo: ‘ferrou’. Porém, uma das noivas já tinha ido embora”. Gabriel, então, pediu que a dona do salão entregasse o buquê para a mulher que restou e retornou para receber o dinheiro da corrida.
Quando ele chegou à floricultura e foi dizer que havia perdido a comanda, acabou a encontrando molhada, já quase rasgando, dentro de um dos bolsos de sua calça. Lendo o papel, ele percebeu que uma coisa estava errada. “Eu vi que o número do salão onde eu precisava entregar as flores era outro. Voltei na rua e, quando cheguei no lugar, já tinha dado problema”.
A mulher havia feito uma sessão de fotos com o buquê e até tinha agradecido o seu noivo pelo “presente”. Foi aí que a bagunça começou. “O cara ficou muito bravo. Não era ele quem tinha mandado as flores. Falou que a moça tinha amante, que estava traindo ele e mais um monte de coisa. Nesse meio tempo, eu peguei o buquê e entreguei no lugar certo, que, na verdade, era um salão instalado dentro de uma casa. Só que o noivo da mulher acabou ligando na floricultura e falando um monte. Chegou a dizer que seu casamento quase acabou por causa do mal-entendido. Esse dia ficou marcado”.
Guilherme Silva Araújo, que começou a trabalhar como motoboy assim que a pandemia começou, também coleciona histórias curiosas. “Tem um senhorzinho de idade que sempre faz alguns pedidos. Só que todas as vezes que chego na casa, ele está dormindo. Eu preciso ficar ligando no telefone. Só assim ele aparece para pegar a comida. Uma moça também faz algo parecido. Eu ligo no celular e ela me fala que está trocando a fralda de seu filho. Acaba demorando um tempão para descer e pegar as encomendas”.
Além disso, ele se acostumou a levar entregas na residência de um garotinho que parece adorar motocicletas. “Uma moça faz os pedidos e toda vez, sem exceção, o filho dela sai para subir na minha moto. Sobe e fica lá, brincando, fingindo que está dirigindo. Deve ter uns seis anos de idade. Ele até pede para a mãe deixar eu levá-lo para dar uma voltinha, mas ela nunca deixa. Eu não fico bravo com ele, não. O menino é legal. Vai que vira um companheiro de profissão e me dá uma ajuda mais para frente”, se diverte.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.