Com a vitória por 2x0 construída diante do Grêmio neste domingo, 7, no segundo jogo válido pelas finais da Copa do Brasil, o Palmeiras sagrou-se campeão pela terceira vez na temporada 2020-21. Para o clube palestrino, as coisas terminaram da mesma maneira que começaram: com comemoração de título e brilho da garotada vinda da base.
Quem não acompanha futebol de perto pode se enganar e acabar pensando que a jornada do time durante o ano passado e o início deste 2021 – o calendário foi estendido devido à emergência da pandemia – foi marcada somente por momentos felizes e poucas dificuldades encontradas. Mas as coisas não foram bem assim.
Apesar de o grito de “é campeão” ter ecoado três vezes nos corredores da Academia de Futebol, o alviverde viveu vários episódios de tensão ao longo dos últimos 15 meses. Prova disso é que o treinador contratado para “arrumar a casa”, o ídolo Vanderlei Luxemburgo, foi demitido mesmo tendo conquistado o Campeonato Paulista em cima do maior rival, Corinthians, e deixado o time em situação confortável na Copa Libertadores – que depois seria vencida pelo próprio Palmeiras.
Em um cenário bem diferente dos vistos em anos anteriores, a equipe contava com poucos reforços para o início da temporada. Apenas o lateral-esquerdo uruguaio Matías Viña, contratado do Nacional, do Uruguai,, e Rony, que chegou do Athletico Paranaense após muita especulação, eram as peças novas disponibilizadas para Luxemburgo. Foi aí que o “professor” teve uma sacada óbvia, apesar de pouco utilizada nos últimos anos: promover e dar espaço para a garotada da base palmeirense atuar no elenco principal.
A ideia refletiu diretamente nos resultados obtidos pelo clube, fosse no comando do veterano técnico, pelas mãos do interino Andrey “Cebola”, ou sob os olhares atentos do português Abel Ferreira. Graças a Vanderlei, os jovens atletas Gabriel Menino, Patrick de Paula, Wesley, Danilo e Gabriel Veron (que já tinha atuado em três partidas pelo time profissional no ano de 2019) tornaram-se figurinhas carimbadas em todos os títulos conquistados pelo Palmeiras em 2020-21. Um deles, o Paulistão.
Luxa ficou dez meses no Verdão. Ele foi demitido no dia 14 de outubro após sofrer sua terceira derrota consecutiva no Brasileirão, essa por 3x1 para o Coritiba em pleno Allianz Parque. No Campeonato Paulista, foi campeão em cima do Corinthians, maior rival do clube. Na Libertadores, terminou com 4 vitórias e 1 empate – a melhor campanha da fase de grupos até então. No Campeonato Brasileiro, conquistou 22 pontos dos 45 possíveis.
Em sua quinta passagem, Vanderlei Luxemburgo dirigiu o Palmeiras, ao todo, em 36 ocasiões. Delas, venceu 17, empatou 14 e foi derrotado em 5 oportunidades. O treinador chegou até a ficar 20 jogos sem perder. Isso, porém, não garantiu a sua permanência.
O futebol pobre apresentado pelo time não estava agradando os torcedores nem os dirigentes. A equipe tinha extrema dificuldade para criar boas jogadas e dependia de momentos de brilhantismo individual de jogadores para conseguir marcar gols. Além disso, a defesa não era consistente. Nos últimos três jogos em que o técnico dirigiu o elenco, foram três derrotas sofridas. Uma para o Botafogo, outra para o São Paulo e a derradeira para o Coritiba. Somados os resultados, o Palmeiras levou 7 gols e fez somente 2.
Além disso, o treinador dizia algumas frases que deixavam a torcida enfurecida. Em um dos rotineiros questionamentos sobre o desempenho coletivo de seus comandados, Luxemburgo chegou a perguntar, de maneira indireta, se tinha “time para jogar bonito”. Isso mesmo tendo em mãos um dos melhores elencos do país. A declaração foi dada quatro dias antes de sua demissão.
Com a saída do veterano, quem assumiu de forma interina foi Andrey Lopes, o Cebola, que trabalhava como auxiliar da comissão técnica do clube e já havia comandado o time em duas outras oportunidades em 2019.
Nos seus primeiros jogos, mostrou ao antigo comandante que era, sim, possível que o Palmeiras tivesse boas atuações e, com o mesmo elenco, desvendou uma outra face do time. Mesmo derrotado pelo Fortaleza na primeira partida, Cebola proporcionou uma notável mudança no desempenho da equipe, que depois venceu o argentino Tigre por 5x0, pela Libertadores; o Atlético Goianiense por 3x0, pelo Brasileirão; o Red Bull Bragantino por 3x1, pelas oitavas de final da Copa do Brasil; e o Atlético Mineiro por 3x0, pelo Campeonato Brasileiro.
A diferença não era vista só nos resultados. Com Andrey, o alviverde voltou a ser eficiente no ataque e consistente na defesa. As jogadas ofensivas com velocidade pelos lados e bem pensadas pelo centro do campo abriam um grande leque de oportunidades. O repertório foi aumentado. Porém, o principal “achado” de Cebola foi Rony.
O atacante tinha sido contratado para ser uma das principais caras do Palmeiras na temporada depois de brilhar em seu último clube, o Athletico Paranaense. Mas, jogando no Verdão, o camisa 11 não vinha tendo sucesso. Em 25 jogos com Luxemburgo, só marcara um gol e até amargou o banco de reservas algumas vezes. Com Cebola, as coisas mudaram. Rony passou a participar mais efetivamente das jogadas e a ajudar mais o time. Dos cinco jogos com comando de Andrey Lopes, o atleta paraense atuou em quatro e fez dois gols, o dobro do que conseguiu com Vanderlei, só que em bem menos tempo.
Depois de quase um mês de trabalho e muitas especulações sobre quem seria o novo treinador do Palmeiras, saiu de cena o “Cebolismo”, que deixou ótimas impressões para a torcida. O time anunciava, no dia 30 de outubro, a contratação do português Abel Ferreira, técnico de somente 41 anos de idade que estava no PAOK, da Grécia. Andrey passaria a ser auxiliar.
O anúncio de Abel gerou dúvidas na cabeça do torcedor. Pouquíssimo conhecido no Brasil, chegava sem ter trabalhado em um clube de destaque no cenário europeu. Além disso, o jovem treinador jamais havia conquistado um troféu. À época, o pouco que se tinha falado em seu nome por aqui foi quando eliminou o Benfica de Jorge Jesus das fases preliminares da Champions League. Por parte dos palmeirenses, não foram raros os que diziam que “deviam ter mantido o Cebola”. Mal sabiam o que estava por vir.
O português veio para o Brasil com uma palavra na cabeça: foco. Sua nova casa era, literalmente, a Academia de Futebol. Ele passou a morar no centro de treinamento. Deixou para trás a família, seus laços afetivos e teve de lidar com a dor da saudade. Em mãos, tinha praticamente o mesmo elenco que seus antecessores Andrey Lopes e Luxemburgo. As três únicas novidades chegaram no começo de novembro. Eram o atacante Breno Lopes, que atuava pelo Juventude e era o artilheiro da série B, o zagueiro chileno Benjamín Kuscevic, vindo da Universidad Católica do Chile, e o ítalo-brasileiro Alan Empereur, trazido por empréstimo do Hellas Verona, da Itália.
Logo em suas primeiras partidas, começou a trazer empolgação para a torcida palmeirense. Além de conquistar 7 vitórias em seus primeiros 10 jogos, Abel também mostrou a Luxemburgo que dava para jogar bonito com as peças que tinha.
Com atuações muito convincentes, o Palmeiras do português foi se firmando nas competições mata-mata e avançando as fases. O Brasileirão, porém, acabou “sacrificado”. O time perdeu pontos importantes no campeonato de pontos corridos e viu as chances de título irem pelo ar. A Libertadores da América e a Copa do Brasil se tornaram os objetivos principais.
Na competição internacional, o Verdão ia bem. Bateu com bom desempenho o Delfín, do Equador, pelas oitavas, e eliminou o Libertad, do Paraguai, nas quartas de final. Mas, o maior desafio ainda estava por vir. O River Plate, time argentino que tinha ganhado duas das últimas cinco edições do torneio, era o adversário palmeirense nas semifinais.
Enquanto não chegava o grande confronto contra os argentinos, o clube paulista também colhia frutos de bons trabalhos na Copa do Brasil. Após, ainda com Cebola, o time vencer o Red Bull Bragantino por 3x1 na ida das oitavas de final do campeonato, a classificação foi consolidada com um 1x0 no comando de Abel. Depois, viriam Ceará e América-MG. Ainda que com algumas dificuldades, principalmente diante do time mineiro, o Palestra conseguiu se colocar na final.
Veio então o embate contra os argentinos. No primeiro jogo, disputado em Buenos Aires, o Palmeiras venceu com propriedade: 3x0. Gabriel Menino, Patrick de Paula e Danilo, três atletas da base, tiveram muito destaque. Abel foi aclamado pelos palmeirenses e pela mídia.
Mas ele ainda teria de sofrer muito na volta. Mesmo com o avanço à final visto como certo, o Verdão penou contra o River Plate no segundo jogo. A vantagem de três gols logo foi para o espaço quando os argentinos abriram 2x0 no placar. E isso, ainda no primeiro tempo. O pânico tomou conta e a bola queimava no pé dos jogadores do Palmeiras. O time da Argentina ainda levaria perigo aos brasileiros por diversas vezes na etapa final, nenhuma com sucesso. Foi por muito pouco, mas o lado verde é que passou à finalíssima.
No jogo derradeiro, disputado em partida única no Rio de Janeiro contra o Santos, o time de Abel também não teve atuação de encher os olhos. Pelo contrário. Quem mais se propôs a jogar foi o rival e os palmeirenses se limitavam a defender e buscar contra-ataques. Em grande parte do tempo, foi isso.
A final só viria a ser decidida aos 54 minutos do segundo tempo. Quem marcou o gol do título? Breno Lopes, uma aposta do treinador português. O atacante de 25 anos fez, de cabeça, o tento que tornou o Palmeiras bicampeão da América. O técnico que jamais havia conquistado um troféu ganhava, de primeira, o torneio mais importante do continente americano.
Na disputa do Mundial, porém, os comandados de Abel Ferreira mostraram não ser invencíveis. Com atuações nada animadoras, o time ficou em 4° após ser derrotado pelo Tigres, do México, na semifinal, e pelo Al-Ahly, do Egito, na disputa pelo terceiro lugar. Sem marcar sequer um gol, o Verdão retornava ao Brasil com a cabeça cheia, mas nas finais da Copa do Brasil.
O adversário era o Grêmio, que buscava conquistar a competição pela sexta vez. Para o Palestra, era a chance de conseguir a tríplice coroa e voltar a convencer o torcedor. E isso aconteceu. Com grandes exibições, principalmente dos garotos da base, o clube paulista venceu os gaúchos nas duas oportunidades e conquistou o tetra da copa nacional.
Mais do que vencer, o Palmeiras convenceu. Convenceu seu torcedor de que era possível voltar a ser campeão da Libertadores, mesmo depois de passar mais de 20 anos sem tocar o troféu. Convenceu a todos que, ainda que em meio a um cenário tão conturbado como o da pandemia, dava para apresentar bons resultados, mesmo que não em todos os jogos. E também convenceu seu ex-treinador e ídolo, Vanderlei Luxemburgo, que aquele elenco podia, sim, jogar bonito. Mas, para que isso acontecesse, a aposta do ex-técnico nos jogadores mais jovens foi fundamental.
Ao fim de uma das temporadas mais tristes da história do futebol, que foi disputado sem público nos estádios, com pessoas morrendo sem oxigênio nos hospitais e com muitas dificuldades por parte dos próprios atletas, que sofreram com as várias lesões provocadas pela quebra de ritmo na pausa ocasionada pela pandemia, o Palmeiras, seus jogadores, sua comissão técnica, sua torcida e, é claro, Abel Ferreira têm o que comemorar.
O preço para se tornar vencedor, porém, foi caro para o treinador português. Em entrevista coletiva concedida após a vitória contra o Santos na final da Libertadores, Abel disse que, para ter conseguido sucesso na carreira, teve de deixar para trás o seu bem mais precioso: a família.
“São muitas horas de estudo, muitas horas de trabalho, mas o que mais me custa e dói é que não posso ter dois mundos. Para ser melhor treinador, sou pior pai, tio, filho, marido e irmão. É verdade que sou melhor técnico, mas perco tudo o que disse. Não há dinheiro nenhum que recupere isso e é por esse motivo que choro no meu travesseiro... por não poder estar com as minhas filhas”, falou, aos prantos. O sacrifício não foi em vão. Milhões de palmeirenses, felizes, festejam o resultado do empenho, dedicação e talento de Abel Ferreira.
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