Após a virada do ano, mal imaginava o francano que teria muitos outras dores de cabeça além da pandemia. Uma das principais, nestes últimos três meses, tem sido o preço dos combustíveis. Com reajustes frequentes da Petrobrás nos preços de refinaria – somente neste ano já foram cinco -, os revendedores imediatamente transferem o problema, direto, para o bolso do consumidor.
De acordo com a ANP (Agência Nacional de Petróleo), o litro do etanol em 2020 era de R$ 2,961, em média. Já nesta primeira semana de março é possível encontrar postos vendendo a R$ 3,999. A gasolina fechou o ano passado em R$ 4,168. Agora já é vista em alguns locais por R$ 5,299. O aumento foi de 41,1% e 27,1%, respectivamente, em apenas três meses.
Por conta dessa alta, que em Franca tem a dificuldade adicional de serem praticamente idênticas em todos os postos, o que dificulta qualquer estratégia de pesquisa de preços, os motoristas foram obrigados a pensar em formas de economizar. O problema é que muitos precisam de seus veículos, como carro e moto, para poderem trabalhar. O preço falto virou uma enorme dor de cabeça.
Talysson Nassif, de 26 anos, que trabalha em uma empresa da indústria alimentícia, é um dos que dependem do veículo para trabalhar. Por conta do aumento, ele pediu à empresa que autorizasse o trabalho em home office. “Eu moro um pouco distante da empresa e com esse preço já estava perdendo o controle. Aí, para não ter de tirar do que comer, tive que reduzir os dias de ir para o trabalho”.
O jovem fez até uma comparação. Antes, com R$ 50 abastecia e trabalhava por quase duas semanas. “(Com) R$ 50 eu fazia durar uma semana e meia, até duas. Olha que eu tinha moto e carro. Agora eu tenho só o carro e se eu for a semana toda para empresa eu fico sem combustível”.
Alessandro Franzoy, de 20 anos, é outro que sofre com o problema. O jovem depende ainda mais da sua moto, por trabalhar como entregador. Não tem como parar. “Eu sou motoboy, tiro meu pão em cima de uma moto. Mas está complicado, porque o preço está muito alto. Onde já se viu pagar R$ 5,20 num litro de gasolina? Onde já se viu R$ 10 não dar dois litros, mais sim um litro e pouquinho?”.
O entregador relata ainda que algumas lanchonetes nem aumentaram o valor das entregas, para evitar a perda de consumidores. Isso faz com que os entregadores fiquem com oprejuízo. “Mas o problema é que eles não entendem que a gasolina está cara e nós não estamos ganhando quase nada. Estamos rodando só para abastecer a moto. Não estamos tirando lucro”. O resultado é que a batalha ficou ainda mais dura. “Antes, em uma semana trabalhando no período noturno, eu gastava uns R$ 60. Hoje, para encher um tanque são R$ 70. Só que um tanque, para quem é motoboy, dura três dias”.
Gabriel Gomes, de 20 anos, também depende do seu automóvel para fazer as coisas do trabalho. Só que no caso dele é um carro, gastando bem mais, por se tratar de um veículo não tão econômico. “No meu serviço eu acabo utilizando o carro para ir até os clientes. E, hoje, com R$ 50 está bastante complicado, pois não consigo acabar o dia gastando esse valor. Qualquer lugar que vai já gasta R$ 10 ou R$ 20. Se eu atender dois clientes na cidade, em lugares distintos, já ultrapasso o valor”.
Por conta dos gastos maiores, houve quem precisou mudar a forma como se locomove por absoluta falta de condições. Estudante de análise e desenvolvimento de sistemas, Vitor Hugo é um desses casos. Ao invés de usar seu carro, começou a andar a pé. “Eu estou tendo que mudar vários hábitos, como andar a pé ou de bicicleta. Só quando é mesmo preciso eu saio de carro. E isso é um absurdo, porque nós não estamos podendo ir trabalhar, mas o imposto tem que pagar em dia”.
Brício Rafael, de 19 anos, precisou também mudar o seu meio de transporte, trocando o uso frequente do seu carro por uma bicicleta. Ainda assim, ele conta que gasta mais na hora de abastecer o automóvel. “Optei por sair de casa de bicicleta, acordando um pouco mais cedo. Mas, antes, se eu gastava R$ 50 por semana, agora estou gastando uns R$ 80”.
Bastante indignado, o jovem culpou o governo e os impostos. “Eu sinto que é muito injusto esses preços abusivos, porque a gente sabe que isso não é o valor real. É tudo imposto e manipulação do governo. Eu ainda tenho uma bicicleta, mas e quem não tem, precisa do combustível e tem o dinheiro contado?”, finalizou.
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